19 fevereiro, 2018

O REALIZADOR FANTASMA


Fui ao IMDb para inserir e classificar o filme Linha Fantasma e lembrei-me de rever toda a lista de filmes que já lá inseri e pela minha ordem decrescente de classificação. Nessa lista vê-se, lado a lado, a nossa classificação e a classificação média de cada filme, tendo então reparado na minha tendência para classificar melhor os filmes do que a média. O que bate também certo com o facto das minhas apreciações serem habitualmente mais favoráveis do que as dos críticos, havendo mesmo casos em que críticos arrasam filmes que considerei excelentes, deixando-me até por isso meio atordoado. Ainda agora com Linha Fantasma, filme que só não considero soberbo por uma questão de pudor mas, vá, quase soberbo, há dois críticos do jornal Público que o consideram apenas razoável, críticos de tal modo exigentes que só raras vezes vêem um bom filme e raríssimas vezes um excelente. Como explicar esta discrepância? Estarei eu a projectar o meu habitual bom feitio na maneira como aprecio um filme, ainda que esteja cheio de defeitos? Ou será porque entendo pouco de cinema, sendo por isso facilmente iludido por maus filmes que se fazem passar por bons, ardil a que os críticos são imunes?

Provavelmente, nem uma coisa nem outra. Talvez o crítico seja alguém que assume excessivamente a sua especializada e técnica função, levando o seu olhar clínico ao limite, de maneira que acaba sempre por encontrar defeitos nos filmes, excepto nos clássicos, os quais o tempo tornou bacteriologicamente puros. Fazem-me lembrar aqueles polícias que mandam parar um carro e no caso de quererem mesmo multar o condutor encontram no carro um qualquer pretexto para isso. Não vou ser cínico ao ponto de subscrever aquela frase que diz haver ruas com nomes de escritores, pintores ou músicos mas nenhuma que tenha o nome de um crítico. Mas quem sabe se não serão tantos críticos de cinema, cineastas frustrados que usam a crítica como compensação, na qual, por se tratar de uma metactividade que não tem de ser posta à prova como um filme, existe uma total liberdade de pensar e falar, tomando como referência uma perfeição que raramente existe. Ora, esta não é a minha maneira de ver um filme. E tanto não é que ainda ontem vi um que, apesar de não ser nada de especial, me proporcionou duas horas bem passadas, o suficiente para considerá-lo bom. E se há coisa que me proporciona duas horas bem passadas, só pode mesmo ser uma coisa boa. E se calhar foi mesmo para isso que o cinema nasceu.

18 fevereiro, 2018

O CORPO DAS PALAVRAS

John Singer Sargent | Nonchaloir

«A actriz era uma provençal de olhos escuros e perfil grego, com umas formas roliças e majestosas; tinha o tipo de beleza da mulher que já em jovem exibe uma doce e matura plenitude, e a sua voz era um suave arrulho» George Eliot, Middlemarch

Dizia há tempos uma aluna que a palavra "altruísmo" lhe sugeria, sem saber porquê, qualquer coisa de negativo. Na mesma aula, alguém disse que chamar "estulto" a uma pessoa soava a qualquer coisa de elogioso. Há dias, outra aluna associou a palavra "hedonismo" a aborrecimento e coisas enfadonhas. Estas situações fizeram-me reparar melhor na nossa relação com aquelas palavras que são desconhecidas mas às quais desejamos (ou precisamos) atribuir um significado, tendo como única pista o seu impacto fonético que, na verdade,  nada quer dizer, pois, como ensinou Saussure, a relação entre o significante (som e grafia) de uma palavra e o seu significado, é arbitrária, como bem se pode ver nas palavras "janela", "window", "fenêtre", "ventana" ou "fenster".

Esta tentativa de relação com palavras que não conhecemos lembra o modo como os animais exploram uma coisa desconhecida, sobretudo através do olfacto, para avaliar a sua segurança, nomeadamente na alimentação. As palavras parecem ser organismos vivos, conjuntos de letrinhas com vida própria, as quais farejamos foneticamente e graficamente para daí, como que por magia, tentar retirar um significado. Só que a coisa não é assim tão simples, do mesmo modo que há queijos que cheiram mal mas que sabem bem e perfumes que cheiram bem mas horríveis no paladar, também há palavras agradáveis ou elegantes que sugerem coisas feias, como palavras feias que significam coisas agradáveis e elegantes.

Passei por essa experiência com a palavra "arrulho" neste trecho de Middlemarch: uma palavra feia mas que exprime beleza, elegância, harmonia. Explica o Priberam que "arrulho" significa várias coisas: canto das rolas, canto com que se adormecem crianças, ruído suave de água corrente ou, em sentido figurado, carícia, ternura. Tudo coisas agradáveis. Porém, a palavra é horrível, sendo o seu impacto estético parecido com o de um pedaço de comida que um animal fareja com repulsa. "Arrulho" lembra palavras ásperas e que nada devem à beleza, como porrada, cachaporra, carrada, curral, enxurrada, entulho ou perro. Aliás, com os seus sons "rr" e "lh" quase fica uma mistura de porrada com entulho. O problema não são esses dois sons individualmente mas a mistura dos dois. Palavras como "Chilreio" ou "sussurro" têm o som "rr" mas são bonitas e apaziguadora, chegando a segunda a ter mesmo uns laivos de sensualidade. "Mergulho" ou "galho" têm o som "lh" e são elegantes. Agora, "arrulho" é tão feia que chega a transformar a expressão "suave arrulho" numa espécie de contradição e, neste contexto, completamente desajustada ao retrato que está a ser traçado daquela mulher, apesar do agradável impacto estético do significado. Enfim, também na linguagem as aparências contam, sendo o seu exterior tão importante quanto a sua alma, o que faz com que a bela alma de uma palavra se possa perder num corpo feio. 

16 fevereiro, 2018

SUBLIME AFASIA

Pode a impotência ser boa? Pode. Sentir o desejo de escrever sobre uma pintura ou uma música e não ser capaz, vendo as palavras a tropeçarem umas nas outras até se estatelarem no silêncio. E não ser capaz porque tudo o que possa ser dito será sempre uma traição, quase uma profanação dessa realidade Eu sei que escrever não é o meu maior dom. Escreva lá o que escrever nunca fica tão bom como o meu bacalhau à Gomes de Sá. Mas também sei que há quem escreva pior do que eu e que tenho mais jeito para escrever do que para mudar uma tomada ou consertar o autoclismo. Seja como for, há coisas que são tão boas, tão perfeitas, tão absolutas, que só me resta ficar mudo perante elas. Mesmo dizer "belo", "maravilhoso" ou "sublime" é não dizer nada, apenas balbuciar ou gemer palavras que valem tanto como um "ai" ou um "ui". E tanto assim é que se diz "belo" e "sublime" como se fossem o mesmo. Mas não são. Sobre coisas belas ainda sou capaz de esboçar um discurso, uma vez que a beleza tem uma ordem, uma harmonia que, apesar de livre (ao contrário de um teorema ou de uma lei da Física), pode ser apreendida racionalmente, tornando possível exprimir certos estados mentais. Pode acontecer com uma bela música, uma bela paisagem, um belo poema. Já o sublime, pela sua natureza esmagadora, escapa aos nossos padrões racionais, tornando-nos insignificantes e afásicos. Ora, é um privilégio poder viver esta feliz e perfeita mudez perante o que já tem de tal modo tudo, que já nada mais pode ser dito. E quanto menos conseguir dizer, melhor a natureza do que não pode ser dito. 

15 fevereiro, 2018

OLHA O ROBOT

Woody Allen|Sleeper

Como abomino o acordo ortográfico, continuo (ou pelo menos tento) a escrever um Português decente. Porém, no que diz respeito a escrever coisas que envolvam alunos, como apontamentos, testes ou escrever no quadro, por razões óbvias, sigo o que foi imposto por meia dúzia de irresponsáveis que resolveram adulterar a nossa língua. Hoje, na escola, estive a escrever uns apontamentos para dar numa turma. Entretanto, e com o habitual sentimento de repulsa, escrevo a palavra “perspetiva” cuja fonética me lembra Alberto João Jardim. Escrevo-a e logo automaticamente o computador a altera para “perspectiva”. Muito a custo por ter de desmantelar a palavra que considero ser a correcta, escrevo de novo “perspetiva”, a qual volta a ser alterada. Só à terceira o computador vacila, deixando-a ficar como eu estava a escrevê-la mas, atenção, sem se esquecer de a deixa sublinhada para me avisar de que estou a dar um erro ortográfico, como efectivamente, acredito que estou.

Considero-me até certo ponto uma pessoa normal e sei que não é suposto uma pessoa normal sentir empatia perante uma máquina acéfala como é o caso de um computador. Admito tratar-se de uma coisa estúpida como tantas outras em mim mas foi precisamente isso que senti, do mesmo modo que embirro com um computador no qual escrevo "perspectiva" e logo muda para "perspetiva". Senti-me compreendido por ele, apoiado por ele, sei lá, como duas pessoas que se acabam de conhecer e descobrem que gostam dos mesmos filmes, dos mesmos livros, dos mesmo quadros, que pensam da mesma maneira ou que sofreram na vida coisas parecidas. Ora, provavelmente é isto que vai acontecer num futuro próximo quando passarmos a interagir tanto com robots como com seres humanos. Saberemos sempre que um robot é uma máquina programada para fazer e dizer certas coisas mas acabaremos por projectar neles os nossos sentimentos e ideias, de modo a sentirmos empatia por robots dos quais gostamos ou falta dela pelos de que não gostamos. Um pouco como já acontece com a relação fetichista com certas marcas ou produtos como se de pessoas se tratasse, ou como terá acontecido com filósofos que embora considerassem mecânico o comportamento dos animais, nem por isso deixavam de sentir amizade e afecto por eles. Os alvos dos afectos podem mudar bastante. Mas os afectos e os seus mecanismos serão sempre os mesmos, por muito absurdos que possam parecer.

14 fevereiro, 2018

NA CAMA COM...D. MANUEL CLEMENTE


Uma pessoa não racista critica alguém de outra raça, por um qualquer motivo avulso, da mesma maneira que criticaria uma pessoa da sua raça. Se, todavia, for uma pessoa racista a fazê-lo, ainda que pelo mesmo motivo da anterior, teremos de fazer outra leitura. Já não se trata de um simples juízo que possa ser entendido in media res, mas de um juízo que nos obriga a ir até bem mais a montante para o associarmos a um conjunto de crenças, valores, emoções e sentimentos, que o torna ideologicamente sustentado. E, naturalmente, nada inocente.

Serve esta comparação para o recente apelo à abstinência sexual dos católicos recasados, por parte de D. Manuel Clemente. Mais do que uma simples ideia, posição ou avaliação de um dos mais naturais e universais comportamentos humanos, trata-se de um sintoma. E todo o discurso oficial da igreja católica relativamente ao sexo é um sintoma de uma dimensão latente: uma moral sexual mais católica e teológica, que começa com S. Paulo e os padres da Igreja com Santo Agostinho à cabeça, do que cristã e evangélica. Uma moral que não gosta de sexo, do corpo, do erotismo, da sensualidade, do prazer sexual. Uma moral que, como se pode ver na 1ª Carta aos Coríntios, defende a castidade mesmo entre os casados, os quais só o deverão ser porque mais vale "casar-se do que abrasar-se". Uma moral para a qual "o corpo é templo do Espírito Santo e a este se deve entregar", e para a qual "o desejo de carne é morte" e "inimizade para com Deus". Uma moral que, ao contrário do que acontece na religião protestante ou ortodoxa, obriga o seu clero a uma absoluta castidade e que toma como exemplo de virtude moral e social, homens e mulheres que viveram, e disso orgulhosos, em plena rejeição do corpo, ou que passaram de uma vida segundo o corpo para uma outra segundo o espírito, como foi o famoso caso de Santa Maria Egipcíaca, enfim, uma moral que estigmatiza a expressão clara da sexualidade  mas que o faz de um modo sublimado e neurótico como acontece em muita pintura ou literatura religiosa, sobretudo mística.

Claro que a igreja católica não poderá deixar de ter uma moral sexual que serve para louvar uma sexualidade sã, baseada no amor entre um homem e uma mulher, que impede uma vitória do corpo sobre o espírito, contribuindo assim para a auto-realização do casal verdadeiramente cristão e feliz. Claro que para isto contribui o facto de, naturalmente, sem coito não existir multiplicação, o que obriga a um certo conformismo perante a fatalidade de um corpo sexuado, do qual temos de nos lembrar de quando em vez para ter de cumprir a sua função. E é neste contexto que temos de perceber esta moral defendida por um certo clero que teima em ser mais católico do que cristão. Vale a pena regressar a S. Paulo, desta vez à Carta aos Romanos: "A lei é pecado? De modo algum! Mas eu não conheci o pecado senão por meio da lei. É que eu não conheceria a cobiça se a lei não dissesse «Não cobiçarás»".  Dura lex sed lex.

08 fevereiro, 2018

HETERODOXIA RADICAL

Robert Hutinski

Tenho um daqueles alunos que mal começo a explicar qualquer coisa já está a levantar o braço para intervir, normalmente para discordar. Embora por vezes se torne um bocadinho cansativo e até maçador, prefiro esta incontinente dinâmica céptica à pasmaceira de uma abulia epistémica. Recentemente, porém, durante várias aulas sobre a ética kantiana, não abriu a boca, mudez que muito estranhei, pensando até que se tratasse de algum problema pessoal ou assim. Na última aula voltou então a dar sinais de vida para, com ar de revolta e indignação, dizer que não gostou nada desta matéria. Considerei a reacção normal pois não é obrigatório gostar de Kant ou do assunto em questão. Não resisti a perguntar-lhe, não cinicamente, mas genuinamente interessado, por que razão não estava, pela primeira vez, a gostar de uma matéria. Foi então com o mesmo ar de birra que lá me explicou que não gostava de Kant pela simples razão de nada ali encontrar de que pudesse discordar, enfim, de tudo se encaixar na perfeição. Em suma, não gostava de Kant por estar completamente de acordo com Kant. 

Achei esta reacção não só extraordinária como filosoficamente comovente. Há uns bons anos, tive um aluno que, num teste, escreveu um longo texto no qual dava a sua opinião sobre um certo assunto, concluindo-o dizendo que concordava com a sua própria opinião. Ora, nada tenho contra as pessoas que concordam com as suas próprias opiniões. Mas serei obrigado a admitir, dando-se o caso de ter mesmo de concordar com a minha opinião, que é bem mais estimulante o desespero por não poder discordar da sua opinião do que concordar com ela, desespero esse que estará no mesmo plano do espanto como base da Filosofia.

07 fevereiro, 2018

PANOUVIDO


Seja onde for, a que horas for, em que circunstância for, falar ao telemóvel cada vez mais coincide com o acto de respirar. Vê-se mais gente a falar ao telemóvel do que a não falar. Como se chegou aqui? Tenho várias pistas. Uma delas é porque se pode. Outra, é pensar que, na sequência de uma mutação genética, as pessoas deixaram de saber estar caladas. Seguindo entretanto uma pista urbano-depressiva-existencialista que me ocorreu depois de passar uma tarde a ouvir Joy Division e Radiohead, será para disfarçar uma solidão contemporânea que ataca silenciosamente como um gás. Por fim, admitir que se pode tratar, ainda que no subconsciente dos utilizadores, de uma estratégia para alimentar uma rede de afinidades electivas com o objectivo de se conseguirem diariamente likes e comentários na página do Facebook.

Posto isto, resolvi barbear o problema com a navalha de Ockham, escolhendo a pista mais simples, neste caso, a primeira: fala-se porque se pode. Porque se pode mas também porque se deve, em virtude de uma nova noção de espaço, na linha daquilo a que um filósofo chamado Michel Foucault chama "heterotopia". Imaginemos, noutros tempos, duas pessoas sem nada de especial para dizer uma à outra. Mas se essas duas pessoas fizessem juntas uma viagem de carro ou passassem férias na mesma casa durante uma semana, iriam falar sobre tudo e sobre nada, a qualquer hora do dia. O que acontece hoje com o telemóvel é um processo semelhante e que não era possível com o telefone fixo que, como a palavra indica, nos fixava a um espaço definido e tradicional, o doméstico, que ainda impunha um certo sentido de privacidade. Ora, com o telemóvel dá-se uma anulação do espaço físico que separa as pessoas, tornando-as tão próximas como acontece na viagem de carro ou na casa onde passam férias, deixando assim de haver critério de separação entre o que é ou não importante para justificar uma chamada. De certo modo, o mesmo já se passa com a televisão. A maior parte das pessoas não anda 200 km para ver um jogo de futebol ou nem mesmo na cidade onde vive. Mas se para ver o jogo, ou mil e uma outras coisas sem interesse, bastar sentar-se no sofá da sala, faz-se naturalmente, sem pensar.

O mesmo se passa com o telemóvel, que veio fazer com que toda a gente ficasse na presença, assumida como real, de toda a gente. Ter números de telefone na agenda e não os usar fica assim tão estranho como antigamente pessoas fazerem uma viagem de carro ou passarem férias juntas, sem falar, havendo assim uma pressão para ligar e depois, devido a uma rede de reciprocidades electivas, multiplicar as chamadas até ao infinito, sem qualquer limitação, ainda que para coisas sem importância, por tudo e por nada, seja onde for, a que horas for e em que circunstâncias for. 

06 fevereiro, 2018

PEQUENO MUNDO

Marín |1913

Quanto mais velho estou menos o mundo me interessa. Não é estar alienado dele. Acontece apenas que se tornou demasiado grande, desmedido, esmagador. Hoje o mundo é quase literalmente todo o mundo, oferecido diariamente, hora a hora, sobre tudo e sobre nada., de tal modo que nós já não estamos nele, já não o pisamos, é antes ele que nos pisa, que entra em nós sem pedir licença, esmagando os contornos reais da nossa existência, como um rio que deixa de desaguar no oceano para ser o imenso oceano a alagar com violência o sereno leito do rio. A vida é demasiado preciosa para perdermos tempo com a inutilidade. Não a bela e preciosa inutilidade da finalidade sem fim mas a fútil inutilidade. Se num supermercado tivermos apenas 6 minutos e 27 segundos para procurar meia dúzia de bens essenciais, não iremos perder tempo a vaguear entre prateleiras, ao som de uma indolente música ambiente. Mas é isso que acontece com o que está sempre a chegar de um mundo que se tornou infinito e nos desconcentra do essencial. É que se o mundo é infinito, a nossa vida não o é, sendo uma perda de tempo andarmos entretidos com a espuma que se dissipa mal a onda se estende pela areia. É bom estar informado sob pena de se ficar mesmo alienado do mundo. Mas uma coisa é estar informado sobre o que se passa no mundo, outra é sermos engolidos por ele. E se o mundo se tornou infinito, eu quero continuar livremente a viver a finitude que me cabe e me compraz.

05 fevereiro, 2018

CAUSAS E EFEITOS


A inteligência humana, sendo um bem inestimável, não se livra dos seus grãos de areia. Um dos mais comuns é confundir causas e efeitos: se o italiano que atacou seis africanos tinha em casa um exemplar do Mein Kampf quer isso dizer que ler o Mein Kampf leva as pessoas a terem vontade de ir para a rua matar africanos em vez de irem ao Mcdonald's ou para um jardim namorar. Mas não é assim. O italiano foi ler o Mein Kampf  porque já teria, ou perto disso, vontade de matar africanos, não querendo isto dizer que sentir de repente um desejo de ler o Mein Kampf, implique já um impulso para matar africanos. Não faz pois sentido proibir obras, alegando que a sua leitura leva certas pessoas a quererem matar outras. Por essa ordem de ideias deveria proibir-se o Alcorão por haver terroristas que o têm em casa, proibirem-se romances policiais por poderem dar ideias a pessoas com uma certa inclinação para matar outras ou proibir Bruno de Carvalho de falar ou escrever.

Há neste momento em França uma grande polémica por causa da publicação de obras de autores com ideias anti-semitas e colaboracionistas como Céline e Maurras, tendo até já levado a Gallimard a cancelar a publicação dos panfletos anti-semitas do primeiro. O que até se compreende num país que não se livra de ter no armário alguns esqueletos, como se compreendem ainda as delicadas pinças com que têm de lidar as práxis finas dos alemães sempre que se tratem de assuntos nazis. Mas ter uma consciência histórica não significa agir historicamente como acontece com neo-nazis ou supremacistas brancos. O que acontece é haver pessoas que recorrem à história para legitimar anacrónicas e absurdas ideias e motivações. Creio mesmo que uma consciência histórica, mais do que perniciosos efeitos, terá um papel pedagógico, desde que criticamente enquadrado. Razão tem a ministra da cultura francesa quando diz que comemorar não é celebrar, sendo bem esclarecedores os exemplos que dá. Comemorar é simplesmente trazer à lembrança. Aliás, o filósofo Martin Heidegger (olha quem!) no seu discurso durante uma cerimónia comemorativa do compositor, seu conterrâneo, Conradin Kreutzer, distingue as duas coisas quando diz "Agradeço ainda, em especial, a gratificante missão que foi confiada de proferir um discurso comemorativo nesta homenagem que hoje se realiza". E mais adiante: "Será a festa uma comemoração? Para que haja comemoração (Gedenkfeier) é necessário que pensemos (denken). [...]Os organizadores introduziram no programa um «discurso comemorativo» cuja função é ajudar-nos expressamente a pensar no compositor homenageado e na sua obra".

Ou seja, ele vai comemorar no meio da própria homenagem, significando isto que se pode homenagear sem comemorar, como se pode comemorar sem homenagear, como acontece quando se comemora o nascimento de Hitler ou a última vez que o Sporting foi campeão. Também ler o Mein Kampf, Céline ou Maurras, no sentido de os conhecer e pensar (denken) sobre eles, comemorando-os (Gedenkfeier) está muito longe de os homenagear e celebrar. Claro que os livros podem matar mas matam tal como os automóveis mal conduzidos ou as árvores nas ruas cuja segurança não é avaliada pelos responsáveis. Deve-se deitar fora a água do banho mas também evitar que o bebé vá com ela.

04 fevereiro, 2018

NUMA MANHÃ DE MAIO



Peter Featherstone foi a sepultar numa manhã de Maio. Na prosaica região de Middlemarch, nem sempre o mês de Maio era cálido e soalheiro, e nessa manhã em particular um vento frio arrastava as flores dos jardins vizinhos para os montículos verdes do cemitério de Lowick. Umas nuvens rápidas só de quando em quando permitiam que um raio de Sol incidisse sobre qualquer objecto, belo ou feio, que por acaso se encontrasse ao alcance da sua chuva dourada.

Eu leio esta passagem tão arrebatadoramente bela que preciso de a ler outra vez. E outra vez. E outra vez, e ainda assim com pena de a deixar. Cheguei até a lê-la mais vezes e a minha vontade era mesmo decorá-la para poder ficar com ela. Isto levou-me até aos diferentes modos como gerimos o tempo na relação com um texto e com uma pintura. Perante os quadros que mais amo fico por lá o tempo que for preciso. Um quadro é um mundo individual, sendo nessa condição que o enfrentamos, e quando passamos para o quadro seguinte na parede do museu, significa que esgotámos o mundo anterior para darmos entrada noutro, que pode ou não ser interessante, onde nos podemos ou não demorar. Com um texto não é isso que acontece. As palavras, frases ou parágrafos são parte de um todo que é um conto ou um romance, daí fazermos uma leitura contínua até chegarmos ao fim. Claro que certas passagens podem ser lidas mais devagar e relidas mas a pulsão da leitura empurra-nos para o que vem a seguir, o que não acontece com o quadro pendurado entre outros quadros. Esta passagem do Middlemarch surge na sequência de uma anterior ao mesmo tempo que antecede uma outra, é é essa sequência que faz fluir a leitura desde o princípio até ao fim da obra. Até porque precisamos de chegar a esse fim. Claro que nos interessa o processo, frase a frase,  parágrafo a parágrafo, capítulo a capítulo, é para isso que lemos o livro. Mas, cá está, o que existe antes só existe em função do que vem depois, daí a pressão para continuar.

Peter Featherstone foi a sepultar numa manhã de Maio. A minha experiência desta frase é diferente da que teria no caso de ler Peter Featherstone foi a sepultar numa manhã de Janeiro ou Peter Featherstone foi a sepultar numa manhã de Agosto. O nome de um mês não passa disso mesmo: um nome. Porém, um nome que condensa um conjunto de sensações e experiências. Sintra ou Cacém, Bussaco ou Bairrada são também apenas nomes. E mesmo sem haver qualquer referência ou descrição do que possa estar ligado a eles, cada um dá origem a um diferente estado de consciência, tratando-se de uma experiência que nem é do domínio conceptual nem do domínio sensível. O mesmo acontece com a frase Peter Featherstone foi a sepultar numa manhã de Maio, mas também com o pedaço de texto que se lhe segue, tão fortemente visual mas sem ter nada de visual como acontece quando vemos a realidade a olho nu ou uma imagem fotograficamente realista.

A natureza ambígua desta passagem teve o dom de me provocar uma experiência idêntica à dos meus quadros impressionistas preferidos. Eu olho para um desses quadros, que sendo esplendorosamente visuais me empurram para uma intuição da realidade que ultrapassa a mera sensação na sua mais básica materialidade que ocorre não só quando olho directamente para a minha rua, para a minha escola ou para o banco onde paro para levantar dinheiro mas igualmente para um jardim ou para uma paisagem rural, tão presentes na pintura impressionista. No caso da pintura, a sua evanescência leva-me para um terreno que já não é apenas visual mas da ordem de uma experiência sensorial interna, mais formal, portanto. Ora, é precisamente isto que também acontece perante uma passagem como esta de Middlemarch com a sua ressonância pictórica, aproximando-a assim, não sem volúpia, de certas pinturas impressionistas, explicando assim o meu desejo de a ler durante tanto tempo como aquele que, em paredes de museus, dediquei aos quadros que mais amei.      

03 fevereiro, 2018

AQUELAS MÁQUINAS!



























Irmãos Limbourg 
Les Très Riches Heures du Duc de Berry


E por falar em avô...Hoje, no mercado, conversando com a senhora a quem compro a maior parte dos legumes e hortaliças, descobrimos que ambos trabalhámos numa fábrica de tomate para onde muitos jovens aqui da zona iam cerca de dois meses, no Verão, durante a campanha do tomate. No meio da conversa, disse-me que com o primeiro dinheiro que ganhou comprou uma máquina de costura; disse-lhe eu que com esse dinheiro comprei uma máquina de escrever. Entretanto, enquanto ela começou a trabalhar na coisas da agricultura, eu fui para a universidade. Hoje, ela está no lado de lá da banca a vender os legumes e hortaliças que produz, enquanto eu estou do outro lado a comprá-los para comer no meu apartamento. Muita coisa, portanto, nos separa. Mas pelo menos uma coisa nos une: ambos, com o primeiro dinheiro ganho lá na fábrica, comprámos duas belas máquinas que praticamente deixaram existir, tornando-se peças de museu, as quais, quando eram usadas, levavam a pequenos gestos que o corpo, entretanto, esqueceu, pequenos rituais técnicos que também desapareceram com a sua natural obsolescência, máquinas ainda cujos sons que enchiam o silêncio doméstico deixaram de se fazer ouvir, havendo assim hoje pessoas que viverão toda a sua vida sem nunca terem dado pela existência daquelas máquinas. Vivíamos e vivemos, eu e aquela senhora, em mundos diferentes, sim, mas, ao mesmo tempo, viveremos para sempre ligados por um mundo que, quando ambos morrermos, deixará definitivamente de existir.

02 fevereiro, 2018

AVÔ DE MIM MESMO




Numa cena do filme Conto de Verão, de Eric Rohmer, há uma rapariga que pergunta a um rapaz (ambos na fotografia) se ele vai sair à noite. Ele diz que não, pois tem de ficar em casa à espera de um telefonema importante. Repito: fica em casa porque espera um telefonema importante. Noutra cena, o mesmo rapaz, questionado sobre o que se passa com uma determinada rapariga que não está presente, diz não saber nada dela mas que está à espera de um postal para saber novidades. Repito: está à espera de um postal para saber novidades. Por causa disto, lembrei-me daquelas vivências que os avós contam aos netos ou os tios aos sobrinhos sobre o tempo em que eram jovens, provocando nos últimos um sentimento de perplexidade. Eu, que passei por situações iguais às do filme mas que entretanto me habituei a já viver num mundo completamente diferente, pensando agora nelas à distância, sinto-me uma espécie de avô ou tio de mim mesmo.

01 fevereiro, 2018

A MORTE SAIU À RUA


Em abstracto, não consigo dizer se actos como matar ou roubar são maus, e se actos como ajudar um amigo ou dizer a verdade em vez de mentir são bons. Entrar numa escola para matar crianças inocentes é mau mas matar a pessoa que entra na escola para matar crianças inocentes é bom. Um banqueiro roubar os seus clientes é mau mas roubar dinheiro a uma pessoa que assaltou um banco para depois o dar a uma instituição social é bom. Se ajudar um amigo significa ajudá-lo a matar o pai para receber a sua herança, trata-se de um acto mau. E o mesmo acontece quando dizer a verdade implica denunciar o paradeiro de uma família judia às SS.

E o que dizer então de matar um rei? Em abstracto, também não consigo dizer se é bom ou mau. Se o rei for um tirano horrível, responsável por um regime opressivo e cuja morte pode conduzir à libertação do povo, a sua morte pode ser vista como um bem. Matar reis ou políticos em geral não é bonito de se ver mas também se pode dar o caso de se terem posto a jeito para tal. Não foi isso que aconteceu no 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço. O que aí aconteceu foram dois bárbaros homicídios, perpetrados por dois fanáticos que se julgavam incumbidos de uma missão superior, e aos quais estavam associados criminosos como  Aquilino Ribeiro, que esteve na organização da matança, ou Afonso Costa que chegou a dizer que por muito menos do que fez D. Carlos às finanças da pátria, cortaram a cabeça de Luis XVI (nem quero pensar na quantidade de políticos portugueses recentes que já teriam ido à guilhotina). E para além da vergonha nacional associada a este dia negro da nossa história, não menos vergonhoso é continuarmos a ter republicanos que perante o facto assobiam para o ar e outros que têm mesmo o desplante de continuar a olhar para os assassinos, materiais ou morais, como gente de bem e a quem a pátria deve bastante. Como se a bagunça republicana que se lhe seguiu pouco depois, e até 1974, fosse alguma coisa de que nos pudéssemos orgulhar. Diz a canção, a propósito de uma outra morte, que "um dia rirá melhor quem rirá por fim/ Na curva da estrada há covas feitas no chão/ E em todas florirão rosas duma nação". No que à morte do dia 1 de Fevereiro diz respeito, não foi bem assim.

31 janeiro, 2018

VIDA PARA ALÉM DA MORTE

Ariko  Inaoka

Num daqueles encontros de supermercado que dão para dois dedos de conversa, diz-me uma pessoa, a propósito da sua boa vida de reformado, não acreditar noutra vida para além desta. Feitas as despedidas, ficou-me a remoer a frase "não acredito na vida para além da morte", deixando-me com uma sensação de desconforto.

Há pessoas que acreditam e outras que não acreditam numa vida para além da morte. O facto de serem crenças opostas não significa que se trate uma mera questão de opinião, permitindo que ambas tenham razão. Vejamos, se houver pessoas que acreditam que a laranja tem vitamina C e outras que não acreditam, não vamos dizer que se trata de uma mera opinião. Não, o que acontece é uma acreditar numa coisa verdadeira e outra acreditar noutra que é falsa. Dir-se-á que neste caso é possível provar quem tem razão, o que já não acontece com a questão da vida para além da morte, a qual permite assim acreditar no que se quiser. Ora bem, liberdade de acreditar no que se quiser, sem dúvida. Mas não significa que ambas possam estar certas só porque não há provas. Se eu disser que neste momento, na aldeia de Montesinho, está um velhote sentado num muro a apanhar sol, e outra pessoa me disser que não, não temos meios para provar quem tem razão. Isso não significa, porém, podermos ter ambos razão. Ou está lá o velhote e eu tenho razão, ou não está lá o velhote e será o outro a ter razão. O mesmo acontece com a vida para além da morte: ou existe, tendo assim razão quem acredita nela, ou não existe, tendo razão quem não acredita.

Como não é possível provar, cria-se a ilusão de as duas crenças, na sua perfeita simetria, parecerem equivalentes e com um igual nível de legitimidade. Mas será mesmo assim? Tenho para mim não haver qualquer razão sensata para acreditar que existe vida para além da morte, não passando de uma crença infantil, caprichosa ou até mesmo primitiva, o que não acontece com a ideia contrária. Não o digo por falta de sensibilidade e de respeito por ideias opostas à minha. Eu não acredito em Deus mas vejo espaço para essa crença. Não acredito no fascismo ou no comunismo enquanto regimes saudáveis, mas vejo espaço para haver pessoas que acreditem. Vejo-as apenas como ideias erradas, do mesmo modo que um republicano acha que um monárquico está errado e vice-versa. Mas a crença na vida para além da morte, mais do que um erro, é um absurdo. Não o digo com ligeireza. Já li os principais argumentos de gente mil vezes mais sábia e inteligente do que eu na defesa dessa crença e todos eles me parecem frágeis ou mesmo ridículos. O que não acontece com as razões para não acreditar.

Quem acredita na vida para além da morte, encontra não só nos velhos mitos mas também noutras religiões, crenças nas quais, naturalmente, não acredita e considera absurdas. Pessoas que acreditam na vida para além da morte riem-se de terroristas suicidas que acreditam que irão acordar noutra vida, tendo várias virgens à sua espera. Riem-se, não pela crença noutra vida mas por por acreditarem nas virgens à sua espera. Acontece que ambas as crenças não fazem sentido. Acontece também que uma delas dá muito jeito por ser uma forma de lidar com o drama da morte. Ou seja, se no meio de várias ideias absurdas uma delas for vista com útil ou interessante, deixa de ser absurda e passa-se a acreditar nela, conferindo-lhe o estatuto de verdadeira, ficando no mesmo plano do que é objectivamente verdadeiro como é o caso da laranja ter vitamina C.

Daí a frase no supermercado me provocar algum desconforto. Desconforto, por ter dito que não acredita numa coisa na qual é absurdo acreditar, funcionando como simples antítese de uma tese com a qual partilha o mesmo grau de legitimidade. Claro que uma pessoa pode acreditar na vida para além da morte e dizer "Acredito na vida para além da morte". A pessoa acredita no quiser. Mas isso não deve obrigar quem não acredita a dizer "Não acredito na vida para além da morte". Pode dizer que não acredita que exista vida inteligente noutras partes do universo, que um dia o Homem vai conseguir a imortalidade ou que o Sporting vai ser campeão. Pode dizê-lo pois embora considere falso, faz sentido acreditar no contrário (embora com bastante dificuldade no caso do Sporting). Mas não deve dizer que não acredita na vida para além da morte, do mesmo modo que não faz sentido dizer que não acredita que as pessoas quando morrem reencarnam em peixes ou que exista uma estranha ilha no Atlântico sul onde há pessoas com duas cabeças e que só não as vemos porque vivem escondidas debaixo do solo. Pode-se dizer que não se acredita quando faz tanto sentido como acreditar. Já em coisas absurdas não se pode não acreditar. Tecnicamente, sim, claro: acredita-se no que supostamente é verdadeiro, não se acredita no que supostamente é falso. Mas não como argumento que entre no mesmo jogo de linguagem, com as mesmas regras e pressupostos, da crença contrária.

29 janeiro, 2018

AS PALAVRAS SEM AS COISAS

Joel Meyerowitz

Vou a conduzir e vejo à beira da estrada um salão de festas chamado "A Tufeira". Logo me ponho a pensar no que possa ser uma "tufeira" mas um epifânico estremeção mental relegou de imediato para segundo plano o meu interesse pela palavra.

Em Torres Novas existe um bairro chamado "Tufeiras". Nome tão familiar para quem é daqui, como será "Graça" ou "Virtudes" para quem é de Lisboa ou do Porto. Por me habituar tanto a ver na palavra apenas um nome, nunca me passou pela cabeça o que possa significar como me aconteceu ao passar pela "A Tufeira". Do mesmo modo, quantos lisboetas terão dito centenas de vezes "Graça", "Junqueira" ou "Arroios" sem nunca lhes ocorrer tratarem-se de palavras com  um significado? E quantos portuenses pensam no sentido moral do nome "Virtudes" quando pensam nas Virtudes? Quem pensa no verdadeiro significado de "póvoa" e de "varzim" quando diz que vai à Póvoa do Varzim? Quando se pensa na ilha da Madeira alguém pensa em madeira? De tal modo assim não é que quando houve o grande incêndio ninguém pensou em madeira a arder tal como acontece quando arde uma florestas aqui no continente. A Madeira a arder nunca será madeira a arder, vendo-se assim até que ponto o significado da palavra se esvai na mecânica e familiar repetição de um nome.

Ora, quantas vezes não acontece a mesma coisa com conceitos nos quais pensamos tantas vezes que acabamos por deixar de pensar neles e no que verdadeiramente significam? O que é democracia-cristã ou social-democracia? Ser cristão ou católico? Que quer dizer Fulano X ser católico, fulano Y socialista e Z comunista? E que é o  bem, a liberdade, a justiça, a solidariedade, o amor ou Deus? Nomes, nomes e mais nomes que nada mais são do que etiquetas sem significado. Só quando começamos verdadeiramente a pensar no seu sentido nos apercebemos da falta de sentido que habitualmente os acompanha.

25 janeiro, 2018

CONSTELAÇÕES


«Uma bela manhã, um jovem de cabelo não excessivamente longo, mas abundante e encaracolado, acabava de voltar costas ao Torso de Belvedere, no Vaticano, e contemplava a magnífica vista das montanhas facultada pela janela da antecâmara circular adjacente. Estava suficientemente absorto para não ter reparado na chegada de um alemão de olhos escuros, que se aproximou dele num passo vivo e lhe pousou a mão no ombro, dizendo com forte sotaque: -Chega aqui rapidamente! Antes que ela mude de posição». George Eliot, Middlemarch

Este excerto nada tem de significativo. É apenas o quase início de um capítulo do romance de George Eliot que começara a ler até me vir o sono, depois de ter visto um filme. Acontece que o filme que acabara de ver, ou melhor de rever, foi o «Roma, Cidade Aberta», de Rossellini, que já estava bastante esquecido. O filme é passado em Roma e todo ele marcado pela perseguição das tropas alemães ocupantes a alguns membros da resistência italiana, sendo o suspense proporcional à brutalidade do final, em que os alemães surgem absolutamente diabolizados. Como disse, acabo de ver o filme e de imediato retomo o romance, num momento em que a sua acção é transferida da Inglaterra rural para Roma. E é quando ainda estou meio atarantado com a brutalidade alemã que, de repente, vou dar com a aproximação de um alemão a uma pessoa, pousando-lhe a mão no ombro ao mesmo tempo que diz «Chega aqui imediatamente». Não terei dado um salto mas interiormente senti um grande sobressalto. O alemão, saberemos logo de seguida, era amigo do outro homem, ambos pintores em Roma, e tratava-se de lhe chamar a atenção para reparar numa interessante mulher que contemplava, também ela absorta, uma obra de arte num museu. Porém, naquele momento, no momento em que estou a ler um romance inglês do século XIX, sou de repente levado para os anos 40 do século XX, acoplando na perfeição duas peças de um puzzle que nada têm que ver entre si. As constelações de que fala Benjamin não têm de existir apenas, objetivamente, na história. Também podem eclodir, subjetivamente, nas nossas cabeças.

24 janeiro, 2018

UM DIA DE CADA VEZ

Alfredo Cunha

Há uma ideia bastante interessante num plano filosófico mas que quando transformada em chavão do senso comum se torna algo irritante: "Viver um dia de cada vez". O filósofo epicurista deseja combater o medo, sobretudo o medo da morte mas também do futuro. Não vale a pena preocuparmo-nos com a morte pois se pensamos nela é porque estamos vivos e se estivermos mortos deixamos de pensar nela, logo, nunca chegamos a enfrentá-la. Com o futuro também não vale a pena grandes ralações uma vez que não existe, apenas o presente. O futuro é como o passado, apenas com a diferença de ser o que ainda não existe enquanto o segundo é o que já não existe. O que conta apenas é o presente, este dia, e é neste dia que temos de viver enquanto existirmos. Ora, perceber isto permite expulsar o medo da vida das pessoas enquanto causa de desprazer e infelicidade e o que um filósofo epicurista mais deseja é que as pessoas sintam prazer e sejam felizes. Pronto, é filosoficamente discutível mas não deixa de ser interessante. 

Quando dois portugueses se encontram na rua ou no supermercado, começam a conversar e chega o momento de um deles, dizer "Pois é, pá, sabes, isto é um dia de cada vez!" tal acontece por vir à baila alguém conhecido que morreu, que está com um cancro, teve um acidente de automóvel, enfim, qualquer coisa que faz pensar que a qualquer momento pode a morte fazer a sua entrada em palco. E contrariamente ao tom positivo e jovial com que o diz um filósofo epicurista, já o português di-lo com ar de desânimo e espírito de resistência. A ideia do português ao dizê-lo é a de se ir aguentando, de sentir cada dia como mais uma vitória sobre a morte, como mais um dia sem que a malvada tivesse chegado. Isto é dito e sentido com a mesma lógica com que um preso vai desenhando riscos na parede para se lembrar diariamente dos dias que faltam. A diferença é o preso ter a libertação como horizonte enquanto o português é não ter ainda a morte no horizonte. Mas sentindo ambos o peso dos dias, a gravidade dos dias, a vitória de cada dia ainda que suada e sofrida. Em suma, "Um dia de cada vez", sim, como dirá o epicurista, mas por causa do medo do futuro, ao fundo do qual a morte lá está à nossa espera com o seu sorriso sacana no dia depois do qual já não há mais nenhum para viver. Para isto, mais vale estar calado.

22 janeiro, 2018

PINTURA AMBIENTE


Juro, sem qualquer poeirazinha de ironia, que nada tenho contra a música dita de ambiente ou o facto de haver música que, não sendo de ambiente, serve para ambientar. Num restaurante em que as mesas estão muito próximas, a música ergue uma subtil barreira sonora que protege um pouco mais a privacidade dos comensais. Agora, se isso é feito com o meloso saxofone de Kenny G, o não menos meloso piano de Richard Clayderman ou os Impromptus de Schubert, pouco importa, embora confesse preferir os últimos para acompanhar tanto um prato de peixe como de carne. Depois, porque a música dita de ambiente, ou a que não sendo de ambiente também serve para ambientar, ajuda mesmo a compor o ambiente. Não para ser ouvida como quem o faz instalado no sofá da sala nela mergulhado, mas como perfume sonoro que se derrama pelo ar, permitindo uma sensação de conforto e bem estar a quem a ouve, ainda que mal dê por ela.

O que para mim é novidade é o conceito de «pintura ambiente». Não sei se o nome existe mas o conceito é inegável. Andava eu para aqui à procura de um quadro de Childe Hassam, quando fui dar com este site que apresenta uma lista de pintores impressionistas e pós-impressionistas. Não se trata, porém, de um site de arte ou pintura. O que acontece é a pessoa escolher um pintor, o quadro que lhe interessa e o tipo de material onde o quer ver reproduzido, e pronto, uma equipa encarrega-se de o fazer para vir depois parar à parede onde o queremos ver pendurado. Mas falta a cereja em cima do bolo: para prever o seu futuro efeito ma parede, desce-se um bocadinho na página e ei-lo em diferentes cenários domésticos. Tomei a liberdade de escolher este belíssimo crepúsculo em Boston como exemplo. Como se pode constatar, podemos tanto vê-lo em diferentes salas e seus diferentes pormenores decorativos, como junto à secretária de um escritório, por cima da cama ou até no que parece ser ser a sala de espera de um consultório médico.

Imagino que os ortodoxos e fundamentalistas da pintura irão reagir a este conceito do mesmo modo que os mais puristas em relação à música: mal. Pior ainda, considerando a pintura ambiente uma espécie de arte prostituída. O que revela uma enorme tacanhez de espírito só explicada por uma erudição fechada sobre si mesma. Se deixarmos de ver a obra de arte apenas enquanto obra de arte mas como um conjunto de cores e de formas bem combinadas com as cores e formas de uns cortinados, de um abat-jour, de um sofá ou de uma alcatifa, o seu benefício ambiental pode ter um inestimável impacto na saúde mental de quem lá vive ou lá vai como visita. Que o diga a cromoterapia, ciência que, tal como a aromoterapia  ou a musicoterapia, deve ser levada a sério.

Neste sentido, uma sala, espaço onde se passa mais tempo, pede quadros que, com o resto da decoração, darão, depois de um dia de trabalho, uma sensação de harmonia, de paz, de equilíbrio, pedindo cores suaves, formas discretas e uma luminosidade que tanto pode seja crepuscular como primaveril, conforme a sensibilidade de cada um. Já no quarto, quem sabe se uma intensa atmosfera fauvista não terá um inestimável impacto nos níveis hormonais do casal, contribuindo para uma sexualidade mais plena, assunto que preenche grande parte das revistas e sites de saúde, que amantes insatisfeitos avidamente consultam. Por fim, e não menos importante, que tal alguns quadros de arte contemporânea na casa de banho? Tenho a absoluta certeza de que pessoas que sofram de prisão de ventre não precisarão mais do que 5 minutos de contemplação diária para que a reacção da divisão simpática do sistema nervoso autónomo cumpra o seu libertador papel. Sim, é verdade, não será a função mais digna da arte. Mas na arte, assim como na moral, por vezes o que conta são as consequências e não os princípios. Tivesse eu aquele crepúsculo de Boston na minha sala e pareceria logo dez anos mais novo. E sem esquecer o facto de ficar mesmo a matar por cima do meu sofá castanho onde leio, ou, não menos importante, vir compensar a falta de cortinados na sala. 

21 janeiro, 2018

A OCASIÃO

Marín | As mãos da artista Celia Gámez após as palmas lidas por Giovani Tassani (Madrid, 1933)

No Modelo, junto às caixas de pagamento, está uma enorme cesta cheia de chocolates Ritter Sport, com um desconto de 30%. A cesta era mesmo grande e aquilo um ver se te avias de chocolate por tudo o que é sítio, de amêndoas, de avelã, de leite, eu sei lá. Para uma pessoa como eu, ali parado um bom bocado até ser chamado para a caixa, ver aqueles chocolates deve ser mais ou menos como para os navegadores portugueses terem chegado à Ilha dos Amores e apanharem com todas aquelas Nereidas pela frente. Claro que vi aquilo e fiquei transtornado, sentindo logo um impulso para pegar em três ou quatro.

Mas se há coisa que me irrita é esta mania de nos pressionarem para comprar coisas que não iríamos comprar se não fossemos pressionados para as comprar. E faço mesmo questão de levar a sério a ideia de que alguma diferença haverá entre mim e um pavloviano cão a salivar perante um pedaço de carne. Por isso, e só Deus e eu sabemos o que me custou, resolvi não tirar nenhum chocolate da cesta, saindo orgulhoso dali, não só por conseguir travar um básico e quase invencível impulso mas ainda por resistir ao poder sedutor da empresa. Orgulhoso, sim, mas havendo em mim um certo lado protestante que me faz igualmente refrear vãos sentimentos no que à minha pessoa diz respeito, pensei no que teria feito se se desse caso de naquele dia não ter chocolate em casa. Cá está o que não disse até agora! Por acaso, tinha chocolate em casa, e sabia que tinha. Pois, mas se não tivesse? Lamentavelmente, sou obrigado a reconhecer que ter ou não ter fez toda uma enorme e hamletiana diferença, e não tivesse eu chocolates em casa e de certezinha absoluta que iria vacilar, submetendo-me miseravelmente ao poder tirânico dos meus impulsos e da malícia capitalista.

Suponhamos entretanto que mesmo atrás de mim estaria um tipo exactamente a passar pela mesma angústia, mas sem ter chocolate em casa e sabendo que não tinha chocolate em casa, não resistindo por isso, e só por isso, à tentação, agarrando vários chocolates para levar. Vejamos agora. No que diz respeito à acção propriamente dita, é enorme a diferença entre nós: eu não levo chocolates, ele leva chocolates; no que à gestão dos impulsos diz respeito a diferença é também enorme: eu consegui resistir ao meu impulso, ele não conseguiu resistir ao seu impulso; por fim, no que à questão do mérito diz respeito, a diferença não é menos enorme: eu sou digno de admiração e de louvor pela minha fortaleza, ele é digno de comiseração e desprezo pela sua fraqueza. Porém, a grande diferença, o que verdadeiramente nos separa é outra coisa: eu sou aquele que tinha chocolate em casa, ele é aquele que não tem chocolate em casa. As nossas decisões são escravas dos nossos desejos. Mas os nossos desejos também não são menos dependentes das ocasiões. Dizer que a ocasião faz o ladrão é apenas uma sub-espécie da ideia de que a ocasião faz o desejo. Juntar fortes desejos a fracas ocasiões é bem diferente de juntar fortes desejos a fortes ocasiões.

20 janeiro, 2018

MAIS CEDO OU MAIS TARDE


Tenho o maior respeito por Winston Churchill. E creio que faz todo o sentido considerá-lo um herói face à besta nazi. Não discuto por isso o que, sob um ponto de vista político, me parece indiscutível a não ser para inveterados esquerdistas que desconfiam de tudo o que não tenha a benção da teoria e práxis do socialismo científico. O que me interessa discutir é até que ponto, tal como é aqui afirmado, devem hoje os europeus a liberdade ao grande estadista inglês. Seremos mesmo livres graças ao papel de Churchill durante a II Guerra Mundial?

Pensemos nos conceitos metafísicos de «contingência» e de «necessidade» na sua relação com a verdade. Exemplos: ter estado hoje um dia de sol em Torres Novas é uma verdade naturalmente contingente. Esteve mas poderia não ter estado e se não estivesse seria uma verdade tão legítima como a anterior. Mas também existem verdades naturalmente necessárias, sendo as leis da Física disso um bom exemplo. Dizer que a terra gira sobre si própria em 24 horas ou à volta do Sol em 365 dias não é algo contingente mas naturalmente necessário. Foi assim, é assim e irá continuar a ser assim. Todavia, sendo naturalmente necessário é metafisicamente contingente, uma vez que num mundo de possíveis a Terra ou o Sol poderiam nem existir ou, existindo, poderiam existir de outro modo, sendo outras as leis da natureza ou do universo naturalmente necessárias. Também respirar por pulmões é uma verdade naturalmente necessária. Mas trata-se de uma verdade metafisicamente contingente, uma vez que num mundo de possíveis o ser humano poderia ser anfíbio ou ser tão diferente do que veio a ser que poderia respirar de um modo que nem nos passa pela cabeça conceber.

Pensando agora na história, existirão verdades necessárias ou tudo não passa de verdades contingentes? Não me parece, como defendem alguns, existirem leis da história como as da natureza, tornando a História uma ciência que estuda processos regulares e invariáveis como acontece com a Física. Nem me parece que a história obedeça a um plano racional pré-definido, como uma orquestra que segue o libreto até chegar ao fim da sinfonia. A história está cheia de verdades contingentes, a começar pela II Guerra Mundial, a qual aconteceu mas poderia não ter acontecido, bastando para isso ter havido uma conjunção de causas e efeitos completamente diferente, a começar pelo facto, esmagadoramente singelo, de os pais de Adolph Hitler não se terem conhecido. Como foi contingente a vitória aliada sobre os alemães pois bastariam outras circunstâncias para o resultado ter sido outro. Mas também nem tudo na história me parece contingente. Há na história, e afirmo-o através de uma base empírica, um progresso, ainda que não linearmente. Claro que há possíveis retrocessos, curtos-circuitos que interrompam o processo, sendo isso, no caso de acontecerem, verdades contingentes. Do mesmo modo que houve uma II Guerra Mundial poderá vir a haver uma terceira, a qual já poderia ter havido, sendo a verdade de não ter existido tão legítima como a de ter existido. 

Mas como responder à pergunta «Como seria hoje a Europa e o mundo se a Alemanha tivesse ganho a guerra?» Haveria um III Reich, um mundo germanizado, sendo os não arianos, súbditos ou mesmo escravos de um povo superior exercendo a sua tirânica supremacia? A pergunta soa demasiado especulativa, sim. Mas a resposta não tem de o ser pois a própria história dá-nos lições sobre os seus movimentos e, factualmente, não me parece concebível tal possibilidade. Trata-se de um projecto que, pela sua anormalidade, mais cedo ou mais tarde (na minha opinião, mais cedo do que tarde) desabaria em virtude das mais variadas causas, do mesmo modo que a ditadura fascista, mais cedo ou mais tarde, iria cair em Portugal ou do mesmo modo que o Feudalismo ou a existência de escravos, mais cedo ou mais tarde, iriam acabar. Tal movimento não existe, como é óbvio, de um modo metafisicamente necessário mas sim naturalmente necessário. Não, como na natureza, em virtude de leis, mas por uma natural aspiração dos povos à liberdade, à justiça e a um aperfeiçoamento moral. Claro que, de acordo com um cenário absolutamente imprevisível poderemos voltar a ter ditaduras na Europa. O mundo já mostrou ser dado a surpresas e Stefen Zweig que o diga pelo modo como viu chegar a Grande Guerra ou o mundo inteiro no dia 11 de Setembro. Mas o ímpeto para retomar o processo de uma normalidade legitimada racionalmente, continuará a prevalecer e não de um modo contingente. Sendo assim, devemos a Winston Churchill a liberdade mas de um modo contingente, apenas porque foi ele um dos principais protagonistas da resistência naquele momento. Mas não tivesse ele existido, tivesse ele morrido antes da guerra ou tivesse perdido a guerra, não seria por isso que não viveríamos agora numa Europa livre. Claro que os factos, os pormenores, seriam outros completamente diferentes, com as suas múltiplas verdades contingentes. Mas, no essencial, não seria muito diferente.

19 janeiro, 2018

V DE VINGANÇA

O Deus das Moscas [fotograma]

[Também aqui]

Como não entra nas contas um livro de Pablo Neruda que me ofereceram no Natal ainda eu mal sabia ler, o meu verdadeiro baptismo poético foi com um livro de António Ramos Rosa que comprei numa feira do livro do Cine-Clube de Torres Novas. Pouco depois veio o crisma com a Poesia Toda de Herberto Helder, numa feira do livro da Zona Alta, no edifício onde é hoje a GNR e que me custou 600 escudos (uma fortuna), mas que mal folheei percebi logo que não poderia não comprar. Hoje serei, vá, um razoável leitor de poesia, ao ponto de, até com certo orgulho, ser capaz de dizer à segunda ou terceira tentativa nomes de poetas que habitualmente só se consegue à quarta ou quinta, como Wislawa Szymborska, Marina Tsvetáieva ou Ryszard Kapuściński, embora com aborrecidos efeitos secundários como atirar perdigotos à cara de quem tiver o azar de estar à minha frente.

Falo de livros mas a alvorada da minha sensibilidade poética começara antes. Não, não foi com João Villaret numa roufenha TV a preto e branco mas já em pleno período revolucionário numa parede da ladeira dos Canitos que eu fazia quatro vezes por dia entre casa e a escola. Nessa para mim hoje mítica parede repousou durante anos esta lustrosa pérola poética, digna herdeira do nosso Cancioneiro Medieval: Otelo Saraiva de Carvalho/Que lindo nome tens tu/Tira o v de Carvalho/E mete o resto no cu. Ler quatro vezes por dia esta pérola numa idade tão importante na formação espiritual de um ser humano, só poderia ter um indelével impacto não só na minha sensibilidade literária como nos meus elevados valores. E teve. Graças àquele trecho literário percebi o que já sabia por via de uma esmerada educação mas sem disso ter consciência: poder exprimir, sem chã grosseria e ausência de pudor, o clássico desejo com que homens zangados ofendem a honra masculina dos seus interlocutores. 

Uma ausência de pudor cada vez mais gritante (também em sentido literal) nos jovens de hoje que, por tudo e por nada, estejam onde estiverem e à frente de quem estiverem, invocam com grande estridência o apelido do Fidel Castro português mas já sem o dourado V que naquela parede funcionava como guardião do respeito e da ordem. Claro que dantes se diziam asneiras e os mais velhos continuam a dizê-las. Aliás, se elas existem é para serem ditas, sobretudo em momentos dramáticos da vida como entalar o dedo numa porta, riscar o carro ao sair da garagem ou acabar de saber que o Jonas se lesionou. Eu mesmo, homem polido, fraquejei há dias ao ver com um esgar de horror vir parar às minhas calças um gorduroso pedaço de lula que teimava em não sair da espetada. Mas também por saber onde estava e com quem estava. Estivesse noutro local e tendo na mesa ao lado duas simpáticas velhinhas da Conferência de S. Vicente de Paulo e o dique não teria aberto as suas comportas para libertar o catártico vernáculo que nos ajuda a libertar da dor de existir em certas ocasiões. Por isso, a imagem que me vem à cabeça quando oiço os nossos jovens a falar sem escrúpulos, seja onde for e ao pé de quem for, são ululantes bárbaros a destruir os civilizados e moralmente engenhosos diques romanos, para deixar passar as fétidas águas do vernáculo, uma espécie de Ribeira do Nicho para ouvidos limpos e educados que acabam assim também desgraçadamente empestados.

17 janeiro, 2018

BONECAS DE CERA DERRETIDAS


Ainda hoje, e onde menos se espera, pode sentir-se a diferença entre o antigo Portugal pobre, rural e analfabeto e um outro mais urbano, rico e educado. Vi essa diferença hoje no modo como as capas dos jornais anunciam a morte de Madalena Iglésias. Nas do Correio da Manhã e do JN, jornais mais populares e lidos por camadas menos ilustradas da população, a notícia passa praticamente despercebida. O Correio da Manhã, como é seu timbre, preferiu valorizar os faits divers do costume e tão ao gosto popular, dando grande destaque ao Porsche de um jogador de futebol e a um funeral em Tondela. Já o Público ocupa metade da capa com uma fotografia da cantora. O relevo dado pelo jornal I é mesmo esmagador, enchendo 2/3 da sua capa. O DN não vai tão longe mas ainda assim dá-lhe um generoso destaque, merecendo mesmo um texto de Ana Sousa Dias. Ora, como explicar tamanho contraste?

Acontece que Madalena Iglésias, menina da rádio, da televisão, dos singles, dos espectáculos, dos festivais, vivia a muitos milhares de quilómetros de um Portugal sem luz eléctrica, sem televisão, sem rádio, feito de trabalho e de pobreza e cujo único consolo cultural era dado por ranchos folclóricos ou por alguns cantores mais populares que acediam a descer ao porão da sociedade, lá longe das luzes da ribalta. Quem eram os milhares de portugueses que, em 1969, esperavam em festa Simone de Oliveira, após ter cantado em Madrid, uma mítica Desfolhada que lhe valeu um penúltimo lugar?  Claro que não era a crème de la crème da sociedade, pouco dada a tão efusivas manifestações no espaço público. Mas era uma mediana elite, em crescente processo de terciarização, que tinha televisão em casa, que comprava singles ou LP's conforme as posses ou o grau de melomania, e cujas pessoas se juntavam ao serão (o ano passado foi na tua, este ano é na minha) para acompanhar as noites do festival da canção ou da Eurovisão. Isto, enquanto outra parte do país dormia com as galinhas (metaforicamente) ou por cima dos porcos ou das ovelhas (literalmente) depois de duros dias de trabalho, ou uma outra, que embora pudesse apreciar, fazia-o com alguma distância social e cultural.

Anos depois, uma parte do país que fervilhava com as canções do festival, urbanizando-se e cosmopolizando-se ainda mais, passou a olhar para essas canções com desdém e sobranceria, etiquetando-as de "nacional-cançonetismo", substituindo-as por novos ventos musicais, tanto estrangeiros como nacionais. Daí que naturalmente já ninguém hoje se reconheça nesse registo musical. Acontece todavia que já temos uma histórica margem de segurança que nos permite olhar para estes cantores e canções com algum respeito cultural misturado com alguma nostalgia. As canções eram musicalmente pobres, as letras uma verdadeira desgraça mas também é isso que lhe dá hoje um certo encanto, um pouco na linha daquele sentimento de condescendência com que olhamos para as crianças ou para povos culturalmente menos desenvolvidos como aborígenes e assim, cuja ingenuidade chega a ser tocante. Até porque a história faz verdadeiros milagres no que à recuperação de tendências mortas diz respeito, havendo hoje até cada vez mais uma valorização do retro ou vintage. Em termos simbólicos há um momento decisivo em Portugal, o concerto em que Vitorino, cantor de intervenção, tem a seu lado o romântico Tony de Matos para cantar com ele. E não por acaso também existem hoje várias versões de velhas canções, rejuvenescidas com sonoridades mais actuais, mas restituindo-lhe o encanto que genuinamente, e sem complexos, somos capazes de lhes reconhecer. Aconteceu agora em Portugal com Madalena Iglésias, como aconteceu há dias em França com France Gall cuja Poupée de Cire está para ela como Ele e Ela para a primeira. Também nós morremos um pouco com as suas mortes, é uma parte do nosso mundo que também morre. Bonecas da nossa infância e juventude que desaparecem como aquelas que verdadeiramente desapareceram de caves e sótãos entretanto limpos e renovados. Mas só alguns o sentirão. 

16 janeiro, 2018

CLAREZA E DISTINÇÃO


Regresso ao filme "Le Diable, Probablement", de Robert Bresson. O que este rapaz acaba de dizer ao psiquiatra é muito mais do que uma simples frase. É uma ideia muitas vezes, e orgulhosamente, assumida por um certo tipo de pessoas que se desviam do que vulgarmente se considera normal, convencional, seguido pela maioria, enfim, o senso comum. Gurus, visionários, líderes carismáticos, religiosos ou políticos, que defendem as suas absurdas concepções do mundo, fazendo da sua fraqueza precisamente a sua força, isto é, a posse de uma superior verdade que poucos conseguem alcançar. Embora noutro contexto social, político e cultural, ainda recentemente, nos anos 60 e 70 do século passado, uma famosa corrente da psiquiatria defendia ser o esquizofrénico, não um doente mas uma pessoa com um sentido da realidade muito mais apurado. Um desses psiquiatras, dizia mesmo não ser o esquizofrénico um doente que falhou socialmente pela sua dificuldade em se adaptar à sociedade mas, bem pelo contrário, uma pessoa com sucesso precisamente por ter conseguido não se adaptar à sociedade, sendo esta, sim, afectada com a sua moral burguesa. Provavelmente não será o esquizofrénico nem uma coisa nem outra e neste caso estamos apenas a lidar com casos clínicos individuais que não representam qualquer perigo para a sociedade. Preocupante, sim, é a tendência de muitos para se deixarem seduzir por ideias absurdas, encarando-as como uma revelação cuja posse os torna especiais mensageiros de uma ordem nova que desejam aplicar para bem do mundo e da humanidade. Ideias absolutamente claras e que os tornam naturalmente distintos perante todos aqueles, a esmagadora maioria que apenas deseja ter uma vida normal, que não vêem um palmo à frente dos olhos.

15 janeiro, 2018

ACTO REFLEXO



Esta imagem não é uma fotografia mas o fotograma de um filme, querendo isto então dizer que há um contexto temporal que passo já a explicar. Trata-se de um filme de Robert Bresson, Le Diable, Problablement, no momento de um comício de jovens revolucionários. Um deles sobe ao palco para discursar e a primeira coisa que diz, arrebatado, é: "Eu proclamo a destruição!". Grande entusiasmo, palmas, gritos de apoio na multidão. E continua o jovem arrebatado: "Todos podem destruir!". De novo grande entusiasmo, palmas e gritos de apoio na multidão. E prossegue, sem esmorecer o arrebatamento: "É fácil...Nós podemos incitar centenas de milhares de pessoas com slogans". Enfim, sem surpresa, voltamos a ter grande entusiasmo, palmas e gritos de apoio na multidão. Entretanto, um jovem, com ar céptico e de quem se sente distante de todos os outros, pergunta:" Mas destruir o quê? E como?" É então que surge o tal rapaz que vemos no fotograma, dando a sua resposta às dúvidas do amigo.

De facto, a condição mais importante no acto de destruir, é não pensar, não saber, decidir rapidamente, a fim de não cair na tentação de não agir. Acontece aqui socialmente o mesmo que num contexto neurológico com o acto reflexo. Temos no nosso sistema nervoso central dois centros coordenadores: o encéfalo (que inclui o nosso cinzento córtex cerebral cujo tamanho nos separa orgulhosamente de uma galinha) e a medula-espinal. A medula-espinal serve para coordenar acções que têm de ser rápidas. Se pegarmos numa coisa a ferver, não temos muito tempo para decidir se devemos ou não retirar a mão. É retirá-la o mais depressa possível, de um modo reflexo e automático: sem pensar, sem reflectir, sem ponderar vantagens e desvantagens, isto é, sem deliberar. Daí não precisar de ir lá acima à massa cinzenta do córtex. O problema é quando acontece algo do género em acções políticas que visam uma atitude destrutiva, total ou parcial, seja de direita ou de esquerda, face à realidade vigente. Como o rapaz céptico do filme é bom estarmos conscientes da existência de dirigentes e de multidões que, como galinhas estúpidas, agem perante a realidade apenas orientadas pela medula-espinal. E não é também verdade que uma galinha a cacarejar é o que há de mais parecido com um slogan? Anatomicamente, não é grande a distância que vai da medula espinal ao córtex. Mas há todo um abismo que separa a reflexão do simples reflexo.

14 janeiro, 2018

IDEOLOGIAS FELIZES



Embora a memória esteja sempre condicionada pelo modo como cada pessoa filtra o passado à sua maneira, há neste passado um conjunto de factos consumados que não permite (tirando alguns casos patológicos), a liberdade de lembrar o que não existiu ou a liberdade de esquecer o que existiu. Se eu nunca almocei no Gambrinus não me posso lembrar de lá ter almoçado. Se me lembro de ter almoçado na Tia Alice é porque, de facto, lá almocei. Do mesmo modo, também não me poderei esquecer se casei ou não casei, se tive ou não filhos, se fui ou não à universidade, se estive ou não em Nova Iorque, se fiz ou não uma selfie com Marcelo Rebelo de Sousa. Em suma, os factos podem ser filtrados mas um facto será sempre um facto e um não facto será sempre um não facto.

No caso deste rapaz cujo pai foi assassinado, acontece uma coisa diferente: olhar para o passado, não como foi mas como teria sido. E se, como vimos, o que aconteceu ou não aconteceu está irreversivelmente limitado por fronteiras factuais, já pensar no passado como poderia ter sido é abrir a porta à mais pura e livre imaginação. Um filho que nunca riu com o pai depois deste ter escorregado numa casca de banana, uma vez que nunca aconteceu o pai ter escorregado numa casca de banana, nunca poderá  recordar o dia em que riu com o pai por ter escorregado numa casca de banana. Não ri e sabe que nunca poderia rir pois nunca tal aconteceu. Mas um filho de cujo passado roubaram o pai pode livremente lá meter tudo o que bem entender até ao infinito: terem jogado à bola no parque aos sábados de manhã, as leituras de histórias antes de adormecer, as viagens, as idas ao Mcdonald´s, o apoio do pai na bancada nos dias em que o filho jogava nos infantis, as macacadas de ambos na praia. Não se trata de memória mas antes de uma memória vicariante que tenderá para a mais pura felicidade, ainda que se trate igualmente de uma felicidade vicariante. Este rapaz nunca irá pensar no pai como alguém que entrava em casa sem olhar para ele, que o castigava por tudo e por nada, que nunca ia ver os seus jogos ou que nunca lhe leu uma história antes de adormecer. Não, irá pensar no pai com uma felicidade vicariante como compensação de uma felicidade que teria sido efectiva no caso de ter sido possível.

Embora até agora só tenha falado de passado, o que verdadeiramente me interessa tem que ver com o futuro. Mais concretamente, o processo pelo qual a imaginação, também com uma liberdade infinita graças à inexistência de fronteiras factuais, projecta o que ainda não existe. Das três dimensões temporais, o futuro é a única que não está condicionada por factos, exceptuando os óbvios, como o de todos irmos um dia morrer ou de não podemos estar ao mesmo tempo a almoçar no Gambrinus e na Tia Alice. E tal como o rapaz espanhol está protegido pela inexistência do que foi para poder imaginar o que bem entender, também há ideologias visionárias cuja  fértil imaginação está protegida pela inexistência do que ainda não é. Podemos livremente imaginar que hoje poderia existir uma terra do leite e do mel se o processo histórico tivesse sido diferente. Todavia, pelos testemunhos vindos do passado, sabemos com toda a certeza que tal terra nunca existiu. Mas quem poderá vir do futuro para nos dizer que tal terra nunca irá existir? Ninguém. Logo, a nossa imaginação, a nossa liberdade visionária irá ter sempre as portas escancaradas para continuar rumo ao infinito, dando origem a uma vicariante felicidade ideológica intrinsecamente protegida pela ausência de factos.

12 janeiro, 2018

CASAL GARCIA


Sinceramente, tenho que dar razão a Schopenhauer quando diz que homens e mulheres, ao sentirem o desejo de acasalar, estão, como marionetas, a ser instrumentalizados pela natureza para que venham a ter filhos. Qual a diferença entre um homem e uma mulher que acasalam, esta engravida e deixa descendência, e duas aves, dois peixes, dois insectos ou dois mamíferos que acasalam, a fêmea engravida e deixa descendência? Nenhuma. Claro que o processo é diferente mas a essência é a mesma: somos indivíduos, desejamos e agimos em nome individual mas estamos apenas a servir a nossa espécie. Apaixonamo-nos, acreditando ser em vista da nossa felicidade individual mas isso não passa de uma armadilha para fazer com que a espécie sobreviva, tal como acontece com qualquer outra. Se isto for verdade, não ter deliberadamente filhos parece ser um acto de resistência individual, a expressão da liberdade de um indivíduo que se recusa a medir as suas acções pelos interesses de uma abstracção. Como diria Søren Kierkegaard, outro filósofo da mesma época, a multidão é uma mentira e ser indivíduo, assumir-se como indivíduo, passa por lutar, não sem algum romantismo, contra o esmagador poder da multidão. Porém, no que diz respeito a deixar descendência, a coisa torna-se complicada. Se as pessoas deixarem de ter filhos para assim assumirem a sua individualidade, a espécie acaba e acabando a espécie deixa de existir pessoas para assumir a sua individualidade. Sendo assim, ter filhos parece ser um imperativo não só natural como moral, não tendo nós outro remédio senão aceitar o poder tirânico da natureza e a nossa submissão a essa vã abstracção que é a espécie, deixando-nos de caprichos metafísicos sobre uma liberdade individual que, ao contrário do que possa parecer, nos torna cada vez menos, não só o que somos mas também  o que devemos querer ser. Cada vez que nasce um filho há um casal que acaba de entregar a sua carta a Garcia, cumprindo assim a sua, biologicamente nobre, missão, dando-se tanto por satisfeitos como no primeiro e prazenteiro passo, com ou sem cigarro no final, dessa procriação.

11 janeiro, 2018

ANOMIA SEMÂNTICA

Alguns alunos ficaram surpreendidos depois de lhes ter explicado a noção de altruísmo/altruísta. Já tinham ouvido a palavra mas associavam a qualquer coisa de negativo. Uma rapariga disse mesmo julgar que chamar altruísta a alguém seria chamar estúpido ou algo assim. Entretanto, por curiosidade, perguntei se alguém sabia o que significa estultícia ou considerar alguém estulto. Como esperava, ninguém sabia. Aproveitei então para perguntar se associavam a palavra a algo positivo ou negativo. Todos associaram a algo positivo, tendo arriscado sinónimos como inteligência ou elegância. Há um lado triste em tudo isto: se a língua portuguesa é uma pátria, custa ver assim tanta gente apátrida. Mas não deixa também de haver um lado cómico nesta espécie de anomia semântica. Se a anomia propriamente dita é terrível pelo modo como ameaça a ordem social, esta anomia semântica pode ser vista como versão cómica das distópicas transformações da linguagem que encontramos no "1984". Se, nos antípodas de um livro ou filme (como a excelente adaptação de Michael Radford) cinzento, opressivo, claustrofóbico, dermos com uma realidade onde as pessoas chamam altruístas umas às outras para se ofenderem e chamam estultas umas às outras para se elogiarem, tal será digno da mais hilariante das comédias.

10 janeiro, 2018

UMA SEMANA DEPOIS

Há uma semana e picos entrámos num novo ano. Um ano novo no qual se entra sempre com a sensação de um novo começo, de um novo e fresco ponto de partida, como um jogo de futebol que se inicia com o seu virginal 0-0, ainda que se trate de um Barcelona-Torres Novas, e independentemente de todos os resultados anteriores, tanto os bons como os maus. Daí os desejos e votos expressos para o novo ano, o renascer da esperança, o optimismo pela libertação de males que ficam para trás com o velho e moribundo ano que dá o último suspiro. Uma semana depois as pessoas descobrem que afinal nada mudou, descobrem que os anos não existem, não passando de uma formalidade temporal para que o tempo cronológico siga o cíclico tempo astronómico dos 365 dias que a Terra demora a dar a volta ao Sol, quando, no fundo, não passa de uma linha contínua rumo ao infinito. Basta uma semana, uma simples e singela semana para perceber que não existem começos nem fins, que a vida segue continuamente como sempre seguiu e sempre seguirá, umas vezes para cima, outras vezes para baixo, quase sempre nem para um lado ou para o outro.

08 janeiro, 2018

PÉ TORTO

Alfred Eisenstaedt

Um leitor medieval não pode olhar para a Ilíada do mesmo modo que um grego. Um leitor do século XVII não pode olhar para a Divina Comédia como um medieval, nem Shakespeare pode ser lido (ou visto) da mesma maneira por um leitor (ou espectador) do seu tempo e um outro do século XIX. E por uma simples razão: quem vive depois viu coisas e sabe coisas que não foram vistas nem sabidas por quem viveu antes, fazendo com que o que se lê tenha um significado condicionado tanto pelo que se viu e se sabe como pelo que não se viu nem se sabe. Daí que não possamos ler hoje um romance como Middlemarch como uma pessoa do século XIX, o século em que foi escrito.

Há tempos, recorri aqui ao Middlemarch para mostrar o modo implacável como a intelectual Dorothea Brooke atinge a sua irmã Celia, pessoa centrada nas coisas mais vulgares e mundanas da vida. A frase "Há muita coisa que só é verdadeira para o entendimento das mentes mais vulgares" diz tudo. Recordo que a agreste atitude de Dorothea resulta do facto de a irmã embirrar com o futuro cunhado, Mr. Casaubon, um austero e feio clérigo mas completamente embrenhado em assuntos espirituais, tão valorizados por Dorothea. Porém, a narradora do romance não dá ponto sem nó, oferecendo também ao leitor, numa bandeja, o contrário: as fragilidades e limitações de uma pessoa tão espiritual como Dorothea. Vejamos três breves passagens:

"Era isso que tornava Dorothea tão infantil e, na opinião de certos juízes, tão tonta, apesar de toda a sua reputada inteligência: como provava, por exemplo, o facto de agora se lançar, metaforicamente, aos pés de Mr. Casaubon para lhe beijar os antiquados atacadores, como se ele fosse um papa protestante".

"A fé de Dorothea supria tudo o que as palavras de Mr. Casaubon deixavam por dizer: que crente tem ouvidos para discernir uma tolice ou uma perturbante omissão? O texto, seja de um profeta ou de um poeta, expande-se para acolher tudo o que nele quisermos introduzir, e até os seus erros gramaticais se tornam sublimes".

"Miss Brooke era sem dúvida muito ingénua, não obstante toda a sua alegada inteligência. Celia, cujo intelecto nunca ninguém julgara poderoso, percebia muito mais rapidamente a vacuidade das presunções alheias. Em determinadas circunstâncias, ter poucos sentimentos parece ser a única protecção contra tê-los em excesso".

O que significa ler, em 2018, estas três passagens de um livro escrito em Oitocentos? O que sabemos nós que George Eliot não saberia para que adquiram um significado diferente para nós? Atenção, não estou a falar de pessoas vivendo em planetas diferentes. Há coisas que nós sabemos que ela também já saberia. Mas é impossível ler estas três passagens sem pensar em muitas tragédias ocorridas do século passado, com a cumplicidade de pessoas como Dorothea Brooke. Pessoas que, com ingénua perversidade, puseram os ideais acima dos factos, a utopia acima da realidade, desejaram construir de raiz uma natureza humana, endireitando à força o "lenho retorcido do qual nada de direito se pode fazer" de que fala Kant, enfim, pessoas que, com os mais elevados e nobres argumentos, idolatraram monstros sanguinários ou outros que não fizeram mal a ninguém mas cujas ideias absurdas escritas com intelectual profundidade ajudaram a legitimar monstros sanguinários. Sim, "há muita coisa que só é verdadeira para o entendimento das mentes mais vulgares". Mas também há muita que só é verdadeira para o entendimento de certas mentes que se julgam superiores e se ufanam da sua superioridade. Serão "verdades" muito diferentes mas podem ambas igualmente matar ou fazer grandes estragos em vítimas inocentes. Por muito grande que pareça o pé direito que vai do mais chão senso comum ao mais elevado telhado das ideias, a distância é muitas vezes bem pequena.