18 setembro, 2017

BRUNO VARELA OU O HERÓI ROMÂNTICO


Embora mais por piada inspirada por um título literário, fala-se bastante da angústia do guarda-redes antes do penalty. Porém, se há momento em que um guarda-redes jamais terá razões para sentir angústia é antes de um penalty, o único golo cuja responsabilidade jamais lhe será imputada. Sabemos que há golos tão fantásticos que não dão qualquer hipótese a um guarda-redes. Mas haverá sempre alguém a dizer que poderia ter feito mais, estar melhor colocado na baliza, enfim, qualquer coisa. Já no penalty o guarda-redes está intrinsecamente protegido pela ideia de um golo natural e previsível. A angústia do guarda-redes é outra, mais vasta e metafísica, explicada pela sua natureza trágica e que lhe confere o estatuto de herói romântico. Num excelente livro chamado O Herói e o Único - O Espírito Trágico do Romantismo, o espanhol Rafael Argullol apresenta vários tipos de herói romântico: o nómada, o suicida, o enamorado, o sonâmbulo, etc., mas esqueceu-se de um: o guarda-redes. Guarda-redes que partilha a mesma natureza de grandes arquétipos trágicos como Antígona, Édipo, Ájax, Hamlet, Macbeth ou Lear, que revelam a extrema solidão do homem que enfrenta o «Destino agigantando a sua desnuda individualidade», e que, acrescento eu, atinge o seu paroxismo nesse instante distópico que é o frango, fazendo instalar a desordem no plano racional elaborado para a equipa pelo demiurgo que se senta no banco.

Para um positivista pitosga que só vê factos à frente, uma equipa de futebol são 11, mas, no fundo, são 10+1 ou 1+10. Esta é que é a realidade, como diria, no seu jeito oracular, Octávio Machado. Todos os jogadores  de campo atacam e defendem e, apesar de teoricamente cada um deles ocupar uma posição no terreno, podem movimentar-se por todo o campo, significando isto que surgem como colectivo ou massa, realidade consubstanciada numa mesma cor de camisola partilhada por todos. Durante um jogo, todos esses jogadores, sem excepção, cometem erros: golos inacreditavelmente falhados, jogadores comidinhos pela velocidade de outros, livres directos mal marcados, passes errados, cantos inócuos, faltas cometidas sem necessidade, jogadores que não saltaram o que deviam para evitar um golo de cabeça, enfim, defesas que parecem manteiga. Mas nunca se diz que uma equipa perde um jogo por causa de um jogador individualmente considerado, mesmo que se falhe um golo de baliza aberta. Será criticado, chamar-lhe-ão «nabo» mas, no implacável tribunal dos adeptos desiludidos, nunca irá sair do campo na condição de vítima sacrificial. Mesmo situação tão dramática como um auto-golo tem atenuantes, pois, apesar da gravidade da consequência, como gesto técnico deficiente está no mesmo plano de todos os outros ao longo do jogo: colocou mal o pé ou a cabeça na bola, estava pressionado por um adversário que o obrigou a errar ou ainda um infeliz ressalto do qual não teve culpa. Mesmo o jogador que falha um penalty na final de um mundial ou de uma Liga dos Campeões beneficia de uma indulgente compreensão pois sabe-se que mais cedo ou mais tarde alguém irá ter de falhar. Foi aquele, mas se não fosse teria que ser forçosamente outro, ou seja, o erro vai mesmo existir, estando só cinicamente à espera do seu autor.

Mas depois temos o guarda-redes, essa individualidade única e solitária no seu território, como Zaratustra na sua montanha, carregando o peso do mundo às costas. Solitário, por um lado, por ser alguém circunscrito a esse território, assistindo, com uma distância teórica, ao movimento da bola pelo campo, intervindo apenas quando a bola se aproxima. O que lhe dá um estatuto ontologicamente negativo: enquanto os outros participam na construção do golo, podendo todos eles marcá-lo (o que acontece cada vez mais no futebol moderno, onde já surgem defesas isolados na baliza contrária), o guarda-redes apenas existe para o negar. Vista a coisa sob uma hegeliana ciência da lógica, os jogadores de campo estão no domínio do ser, enquanto o guarda-redes está no domínio do não-ser, da pura negatividade. Claro que há uma harmoniosa totalidade nesta relação dialéctica entre o ser dos jogadores de campo e o não-ser do guarda-redes, mas este emergirá sempre solitariamente na sua identidade, contraditória face à dos outros.

Depois, porque o seu erro não é um erro qualquer: não é o erro de «um jogador» que erra mas o erro «do jogador» que não pode errar. Quer dizer, poder, pode, e tanto pode que erra, mas a situação é mais complexa do que parece. Ao contrário do que pode parecer, o erro de um jogador de campo não faz parte do domínio da contingência mas da necessidade. Há contingência, sim, pois não se sabe onde e quando vai errar, havendo situações em que errou quando poderia não ter errado e situações em que não errou quando poderia ter errado. Mas quando o jogador entra no campo já sabe que vai cometer erros, o erro faz parte da própria essência do jogo, o que até leva alguns filósofos a defender a tese segundo a qual vence a equipa que comete menos erros. Já o erro do guarda-redes é marcado por um plano moral. Claro que é domínio do «poder ser», e, neste aspecto, um guarda-redes, tal como os outros, sobe ao relvado limitado pela presença do «erro radical». Mas um é o domínio do «poder ser», outro será o do «dever ser». Quando Deus criou Adão e Eva, sabia bem o que estava a fazer: dois seres finitos, frágeis, atirados ao mundo. Porém, não deixou de os avisar, impondo uma condição. Daí que, se uma equipa de futebol tivesse sido acabada de criar por Deus, o guarda-redes seria o Adão da equipa, o único que vive o conflito trágico de quem é atirado para a baliza para poder errar mas sem a liberdade para o fazer. Entretanto, quando o erro apresenta a bíblica dimensão do frango, acrescenta-se à solidão inerente ao seu posto, a vertigem de uma brutal Queda sem redenção. O frango que dita uma derrota representa uma mácula de tal modo irredimível no final dos 90 minutos que, houvesse futebol na Idade Média, e Dante teria atirado o guarda-redes frangalheiro para o nono círculo do Inferno, ao qual seriam poupados todos os outros.

Quando uma equipa sofre o golo que dita ou pode ditar a derrota, vê o mundo desabar. Quando esse golo é um frango protagonizado por aquele em quem confiaram para defender as suas redes, vêem o mundo desabar ainda mais dramaticamente mas, tal como referi atrás, do mesmo modo que o guarda-redes assiste afastado ao desenrolar como elemento exterior, no momento do frango todos os outros 10 assistem, unidos e como elementos exteriores, à Queda do seu guardião. Guardião que vê o mundo desabar mas, como se isso não bastasse, vê-se também a desabar com o mundo. E nem chega a ser assassinado pela consciência implacável dos adeptos. Antes disso, já dentro da sua cometeu suicídio.

17 setembro, 2017

NOMES BRANCOS

José Paulo Ferro | Do livro "Roll Over, Adeus Anos 70"

Estava no balcão dos queijos do Intermarché quando surge a Noémia, uma rapariga do meu tempo de escola, que não via há anos. Fiquei contente por vê-la mas também impressionado com um cabelo tão branco como o das avozinhas das histórias infantis e do qual fiz logo um espelho onde vi reflectido o inexorável peso da idade, obrigando-me a ganhar consciência de como estamos todos a ficar velhos. Claro que se trata de um facto certo e sabido, até porque também tenho espelho em casa e um par de pernas que fazem com que a diferença entre subir e descer a ladeira do Bairro dos Pobres seja cada vez mais como subir e descer o Paralelo 38. Mas ser um facto certo e sabido é uma coisa, outra é ver aparecer a Noémia com os seus cabelos brancos como o das avós das histórias infantis.

Mas ainda mais do que os seus cabelos brancos, o que me fez sentir ainda mais velho foi o seu nome, perceber que faço parte de um tempo em que havia raparigas que se chamavam Noémia. O que me levar ao seguinte exercício: fazer um levantamento dos nomes dos meus colegas de turma do secundário, quase tudo raparigas por se tratar de uma turma de Humanidades. Nomes que, outrora, tal como os cabelos, foram pretos, castanhos ou louros (não havia nenhuma ruiva!) e que com o tempo se tornaram brancos como os cabelos das avós. Quanto aos rapazes, para além de mim, havia dois Vítor, um Joaquim e um Fernando. Três nomes que deixaram de existir há várias gerações. Mas é quando se chega às raparigas que o choque de irrealidade se torna  brutal. Só Fernandas, um dos nomes mais sonantes de então, eram umas cinco ou seis. Há quantas décadas não nasce em Portugal uma rapariga que se vai chamar Fernanda? Se houvesse agora em Portugal um Karl Ove Knausgard que fosse escrever uma carta à filha que vai nascer, a possibilidade de esta vir a chamar-se Fernanda seria tão remota como a do Benfica ser campeão este ano. Depois, havia nomes como Cândida, Joaquina, Edite, Judite, Custódia, Emília, Filomena, Laura, Céu, Fátima, Lina (duas), Albertina, Irene, Dália, Cremilde ou Dina. Isto na minha turma pois fora desta ainda tinha amigas chamadas Piedade, Felisbela, Cesaltina, Lurdes, Olga, Natália, Amélia, Celina, Rosário, Dulce, Elsa, Isilda, Rosalina, Celeste ou Idalina. Mesmo nomes que, de certo modo, resistiram ao desgaste do tempo, nomes como Paula, Isabel, Luísa, Teresa, Cristina ou Margarida, deixaram de ser comuns. Há quantos anos não tenho uma aluna chamada Paula, Teresa ou Luísa? Nomes que não sendo brancos como a neve, se tornaram pelo menos grisalhos.

Eu olho para estes nomes e sinto-me a fazer parte de um museu onde ficámos todos como animais embalsamados. Ainda hoje fico impressionado com um animal embalsamado cujos dentes arreganhados fazem com que parecça vivo. Ora, com toda esta brancura onomástica passa-se o mesmo, só que no sentido inverso. Enquanto os animais estão mortos e bem mortos mas fazem-nos cair na ilusão de estarem animados por um sopro vital e que a todo o instante saltem da prateleira e comecem a correr, nós estamos vivos e bem vivos mas olha-se para estes nomes e parece estarmos em repouso numa prateleira, dando-nos um certo ar fantasmagórico, o que até seria excitante se viéssemos do século XIX em vez do século XX. O que iria eu sentir se estivesse a acampar na Costa da Caparica, ao lado de uma tenda com estrangeiros que entretanto me dissessem vir da Prússia? E um estudante que tivesse acabado de chegar a Portugal para fazer Erasmus, vindo da República de Weimar? Ou fazer amizade no comboio com alguém que, ao trocarmos moradas, escrevesse "Constantinopla"? Embora reais, pensaria tratar-se de fantasmas com uma etérea passagem pelo presente. Ora, é também isto que sucede connosco por causa dos nossos nomes. Somos reais, quer dizer, andamos, respiramos, falamos, mas viemos todos de um mundo que já não existe. Como os cabelos pretos da Noémia.

13 setembro, 2017

RIR COM RIR SE PAGA



Eu gosto de John Cage e as minhas prateleiras não se queixam com falta de música contemporânea. Não sou, portanto, um inveterado conservador em matéria musical. Mas mesmo que não gostasse, iria sentir um desconfortável arrepio se por acaso visse este vídeo sem a apresentação inicial e a reacção do compositor no final. O que veria, nesse caso, seria o compositor a tocar a sua música enquanto o público vai rindo como se de palhaços no circo ou de uma stand up comedy se tratasse. Um compositor escarnecido e humilhado no tribunal do gosto do cidadão comum. Porém, ouvindo o que diz o apresentador e, no fim, vendo o riso satisfeito do músico, percebe-se que, apesar do escárnio, não existe humilhação. É verdade que, rindo, o público mostra não perceber uma música que, ao contrário, por exemplo, desta, não foi feita para rir.  Mas o compositor também sabe ao que vai, sabe que público é aquele e como vai reagir.

Mas o que me traz aqui não é a ignorância do público em geral, no qual me incluo, face a muito do que se faz  na arte contemporânea, por muitos programas ou folhetos informativos que se consultem sobre o que se vê. Uma arte muito pensada e com um nível de elaboração intelectual que a torna inacessível, acabando o público por sentir o peso da sua ignorância em matéria de arte. Considero, porém, tal ignorância normal e até saudável, se pensar em tanto bluff, disparate e anormalidade que se vê por aí, o que, felizmente, não acontece com toda a arte. Em todos os ramos, da música à arquitectura, passando pela pintura, escultura, teatro ou dança, continuamos a encontrar produções de excelência.

O que desejo salientar é o facto desta situação específica servir para traduzir a relação de muita arte contemporânea com o público em geral,  fazendo tudo para, em nome da criatividade e de uma elevada ousadia estética, se criarem rupturas, legitimando assim um gueto artístico, uma minoria que assim se auto-constrói como elite e que olha com superioridade e até desprezo para o público em geral. Eu tenho todo o respeito por John Cage mas tanto o seu riso como a própria cumplicidade com o riso dos espectadores, não me apaziguam.  As pessoas riem-se dele, divertem-se com o que estão a ouvir mas ele também se ri do riso delas, da sua ignorância face ao que estão a ouvir. Eu, e juro que não tenho a mania da perseguição, ao ver, por vezes, certas exposições onde me sinto a pessoa mais estúpida do mundo, apesar dos artistas não estarem lá, é também esse riso que consigo ouvir, escarnecendo da minha ignorante e primária estupefacção.

12 setembro, 2017

SCANDISK

Marc Riboud | Arredores de Chartres, 1923

Durante séculos, era ao padre que as pessoas abriam a sua alma no segredo do confessionário. Alma que, metamorfoseada em mente ou psique, passou a revelar-se no divã de um psiquiatra. Hoje, entrega-se o disco rígido ao tipo que arranja os computadores. É nele que, actualmente, sem culpas, recalcamentos ou penitências, está, em bytes, a alma de uma pessoa.

10 setembro, 2017

PAULINA AO PIANO NA FESTA DO AVANTE



Numa quinta do Minho, uma fidalga viúva vive sozinha com o  seu filho Tomás, de 15 anos, prestes a ir para a universidade. O rapaz, que é poeta, está apaixonado por Paulina, uma jovem leiteira da quinta, pobre e analfabeta, a quem jura amor eterno. Desesperado por deixá-la, parte para Paris para cursar Medicina. Anos depois, regressa já homem feito, médico, a mente refinada por anos de convívio com a elite cultural parisiense e... doido para se atirar para os braços de Paulina, que nunca esqueceu e continua sua eleita para ocupar o leito nupcial. Quem sabia da história só podia temer o pior: passados os ingénuos devaneios de juventude, como gerir agora o fosso social e cultural entre dois adultos sem nada em comum para partilhar nas horas vivas e mortas da vidinha de todos os dias? Acontece que a Paulina que Tomás vai encontrar é agora uma elegante mulher sentada ao piano, cantando uma ária com uma bela e trabalhada voz. A mãe de Tomás, logo que este partiu para Paris, e certa de que o filho não iria quebrar a promessa, pega em Paulina e leva-a para Lisboa para lhe dar toda a educação própria de uma menina burguesa, e evitando assim um drama mais do que anunciado.

O conto de Júlio Dinis ao qual pertence esta história, chamado «As Apreensões de uma Mãe», acaba da melhor maneira, com felicidade para dar e vender. A sua moral, porém, é pessimista. A história acaba bem porque Paulina deixou de de ser uma simples camponesa para passar a ser uma elegante e educada burguesa. Não fosse isso e cá estaria a pirâmide social a fazer os seus estragos na relação entre dois seres humanos que foram para lá do mero estatuto de actores sociais, entrando na esfera da intimidade pessoal. Os mundos upstairsdownstairs podem viver pacífica e respeitosamente, mas terão sempre as escadas a separá-los e a delimitar os seus estatutos e códigos sociais na mansão Bellamy. Permanecesse ela camponesa e a relação rapidamente estouraria, eis a triste moral da história embora esquecida no meio de uma felicidade que caiu ad hoc da cabeça de uma sensata mãe preocupada com o destino do filho.

Pessimismo, portanto. Mas é caso para dizer, como o faz o senso comum quando quer dar o ar de uma certa graça filosófica, que quando se fecha uma porta, logo se abre uma janela, havendo afinal lugar para de novo sorrir. E qual é a janela? A janela da mobilidade social, toda ela aberta para um jardim de esperança. Se uma pobre e analfabeta leiteira se transforma numa burguesa sentada ao piano à hora do chá, isto significa que todas as pessoas, tendo a sua oportunidade, podem subir as escadas da mansão Bellamy. Eis a lógica do Estado Social, permitir que todas as Paulinas deste mundo se possam sentar um dia ao piano, casando com qualquer médico também deste mundo, ou, melhor ainda, e neste caso algo de impensável no mundo novecentista de Júlio Dinis, ver as próprias Paulinas com estetoscópio ao pescoço.

Sim, é verdade, a mobilidade social funciona como grande virtude social-democrata e de uma democracia avançada que busca níveis mais elevados de igualdade e justiça social. Só que isto também coloca um problema à esquerda, sobretudo comunista, que fica assim presa no seu próprio labirinto, no modo como gere a relação com a parte downstairs da casa. Percebe-se que no tempo de Marx e Engels, houvesse a necessidade de injectar doses maciças de auto-estima na classe operária, preparando-a para a luta de classes. Se a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, a classe dominada precisa de criar os seus próprios valores, as suas próprias necessidades e objectivos. Daí toda a retórica comunista pré-revolucionária, e depois soviética, à volta do orgulho operário e camponês, toda a deferência face às «classes trabalhadoras» como povo eleito rumo à socialista Terra Prometida. Mas o que fazer quando, graças à mobilidade social, quem está em baixo, isto é, dominado, passa a ter como grande objectivo passar para a parte de cima? Experimente-se perguntar a qualquer operário, motorista, caixa de supermercado ou cabeleireira o que desejam para os filhos? Que, em virtude de uma forte consciência de classe, mantenham orgulhosamente a tradição familiar? Não. O grande objectivo de qualquer família, muitas vezes com sacrifício, é lutar para que os filhos tenham uma vida melhor do que os pais, é ver um filho «engenheiro» ou «doutor» a subir as escadas da mansão, sendo isso motivo de orgulho para toda a família, e sendo aquele tanto maior quanto mais humilde for esta.

Não nos deixemos iludir pela esmagadora beleza poética do quadro de Vermeer. Uma coisa é a sua beleza intrínseca, outra o seu significado social. A sua beleza é a mesma das fotogénicas pobres casas de pedra de aldeias onde já ninguém quer viver mas que atraem turistas, sendo algumas até compradas e restauradas para uns fins-de-semana ou dias de férias para umas patuscadas com os amigos. Nós gostamos de ver aquela mulher, o rosto, os braços, o peito farto que alimentou uma ninhada de filhos, as roupas, mas ninguém quer ser aquela leiteira nem deseja aquele trabalho para um filho. Ela, no século XVII, sim, poderia estar conformada com o seu destino e ter orgulho no seu trabalho. Nasceu em baixo e em baixo sabia que iria sempre viver. Hoje, porém, tudo seria diferente. Claro que há hoje uma dignidade social num operário ou agricultor, a qual não existia no tempo de Dickens, Vítor Hugo, Gorki ou Soeiro Pereira Gomes. O almoço do trolha é bem mais apetecível e o Vagão J, entretanto, transformou-se em Intercidades, ainda que em 2ªclasse. Porém, ao contrário de um curso para ascender socialmente, ser «trabalhador» será sempre um recurso. Mesmo que se goste de o ser, é-se-o por falta de várias coisas para não o ser. Ou seja, a consciência de classe será cada vez mais pudica por se saber que se é trabalhador apenas por culpa própria. Os partidos do centro há muito que o perceberam. O Bloco de Esquerda finge que não percebe pois tem muito a perder com o seu eleitorado de gente urbana e socialmente mimada e que adora ser burguesa. O PCP, esse, teima em não querer perceber mas percebê-lo também só poderá significar ter a consciência do seu fim.       

09 setembro, 2017

BECO SEM SAÍDA



Alguém precisa de explicar à menina que, a continuar assim, não vai deixar de andar baralhada. A sua dúvida pressupõe aquela ideia geral de que valores como liberdade, igualdade, justiça, verdade, conhecimento ou felicidade são interdependentes e associam-se num todo harmonioso. No seu caso específico, a liberdade e a felicidade. Mas não está sozinha. Trata-se de uma ideia tanto comprada a nível individual como a nível político, como se vê no pensamento utópico que projecta sociedades perfeitas nas quais se excluem os conflitos que fazem inevitavelmente parte das sociedades normais e imperfeitas em que nos coube viver.

O filósofo e historiador das ideias Isaiah Berlin passava a vida a dizer que «Liberdade para os lobos significa muitas vezes morte para os carneiros». Claro que podemos sonhar com um mundo onde lobos e carneiros gozem de liberdade absoluta no quadro de uma sociedade justa onde todos podem ser felizes. Mas esse mundo não existe. Se deixarmos os lobos à solta, lá se vai a igualdade, a justiça e a felicidade de muitos. Mas se também desejarmos forçar a igualdade, restrições à liberdade terão de se impor. Mais. Enquanto filhos dos gregos e dos romanos damos valor à justiça, como cristãos introduzimos a misericórdia e o perdão no mundo. Mas então, dirá Maquiavel, como conciliar isto perante alguém que cometeu um crime horrível?  Como diria um qualquer filósofo português, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. E será que conhecimento traz necessariamente felicidade? Não será muitas vezes o contrário, isto é, o conhecimento de uma verdade a trazer infelicidade, significando a ignorância um estado de tranquilidade? E liberdade e felicidade serão assim tão interdependentes? Será que todos os europeus são mais felizes do que todos os oprimidos norte-coreanos, só porque são livres e os segundos não? Será que com o 25 de Abril os portugueses passaram automaticamente de um estado de infelicidade para um outro de felicidade? E uma pessoa que tenha 5 opções pela frente é só por isso mais feliz do que se outra que tenha simplesmente que fazer o que não pode não fazer, ou o simples facto de ser mais feliz faz com que tenha mais opções e seja mais livre?

Não estou a querer dizer que liberdade e felicidade são incompatíveis. Apenas que não são necessariamente compatíveis e interdependentes. Concluo, assim, que sendo tão grande a complexidade da vida, esta não se compadece com perguntas tão estreitas e fechadas como as da menina, levando-a a bater  num muro intransponível e cujo resultado, como não pode deixar de ser, é ficar com a cabeça a andar à roda.

08 setembro, 2017

A MÃO

Brassaï

Em  1899 está o dr. Sigmund Freud a publicar, em Viena, A Interpretação dos Sonhos, livro mais perigoso do que a obra do Marquês de Sade e o programa de Manuel Luís Goucha juntos. Dois anos depois, com 21 anos, a menina Alma, ainda sem Mahler no B.I. mas o Schindler de seu pai, está apaixonada por Alexandre von Zemlinsky, seu professor de música, homem fisicamente de fugir mas intelectualmente superior. É a sua segunda relação amorosa num currículo algo complexo, depois de Gustav Klimt, que perdeu a cabeça por ela mas, querendo esta chegar ao virgem ao casamento, teve apenas direito a uns fugazes beijos sem consequências de maior, digamos assim.

A Viena de Alma é a Viena de Freud mas também de Klimt, Kokoschka, Kraus, Stefan Zweig, Musil, da família Wittgenstein, enfim, de Mahler. Uma Viena de  aristocratíssimos salões literários que rivalizavam com os de Paris, e de uma burguesia que procurava a cultura como forma de ascensão social. Alma, rapariga de boas famílias, foi, desde muito cedo, refinadamente educada no campo da música, da pintura, da literatura, das línguas, da filosofia, tendo depois ao longo da vida escolhido maridos e amantes de acordo com tão superior desígnio. Tudo, porém, tem um limite, e se a luz brilha na tão afrancesada razão ou nos candelabros dos cultos salões vienenses, também a haverá em muito fogo que arde sem se ver, como diria, neste caso, não o poeta, mas um bombeiro de outros incêndios. No tal Verão de 1901 e apaixonada por Zemlinsky, escreve no seu diário:

«Desejo loucamente os seus beijos, não esquecerei nunca o contacto da sua mão no mais profundo de mim como uma cascata de chamas! Uma tal felicidade inundou-me! Podemos na verdade ser completamente felizes! Existe a felicidade completa! Aprendi isso nos braços do meu bem-amado. Com uma pequena [palavra ilegível] mais, teria subido ao sétimo céu. Mais uma vez, tudo o que lhe diz respeito me é sagrado».

São conhecidos os problemas de natureza sexual entre Alma e Mahler ao longo do seu atribulado casamento. As mãos do compositor podiam ser perfeitas para dirigir uma orquestra mas, na íntima penumbra do lar, tudo leva a crer serem um verdadeiro desastre, para além da sua inépcia para interpretar os desejos da mulher. Para Mahler, qual Pigmalião moderno, Alma não passava de uma menina inteligente, destinada a viver numa espécie de Olimpo cultural e artístico, rodeada de arte, livros, música e imponente arquitectura. A Verdade é que Mahler, ainda que pensando conhecer bem a sua consciência e personalidade, nunca chegou a conhecer as verdadeiras profundezas de Alma. Saberia ela não estar casada com um homem qualquer: Gustav não era Gustav mas Gustav Mahler. Todavia, para ela, no mais profundo da sua inacessível e secreta alma, nunca terá passado de um homem superficial.

Não sabemos, e com que pena, qual a palavra ilegível que, para Alma, servia de chave para abrir as portas do sétimo céu. Admito que haverá sempre mistérios por desvendar nesse obscuro  e misterioso continente chamado mulher, que haverá sempre mais uma palavra por descobrir. É assim e pronto e tem de se viver com isso. Outra coisa é ser, como Gustav, esse distraído e desajeitado homem que vivia para a música,  absolutamente analfabeto.

07 setembro, 2017

ARCHÊ

Dorothea Lange


O mundo nasce ou morre consoante o predomínio do Amor ou da Discórdia
                                                                                                                                    

Há muitos anos, ouvi um astrofísico dizer, julgo que prémio Nobel, que o grande sonho de qualquer cientista é poder vir um dia a exprimir toda a complexidade do universo numa fórmula tão simples que dê para estampar numa T-shirt de praia. A procura desta simplicidade radical leva-me até à desconcertante simplicidade com que se exprimiam os filósofos pré-socráticos, como é o caso de Empédocles, o autor desta frase. Uma simplicidade tão estranha e distante segundo os actuais padrões científicos e filosóficos mas a fazer lembrar aquela lucidez arcaica que só as crianças e os poetas têm o privilégio de conseguir alcançar.

06 setembro, 2017

CAFÉ CURTO


Há duas razões que tornam dramático o regresso ao trabalho depois das férias. Uma material, outra formal. Material, pois há coisas boas que podemos fazer só porque estamos férias, havendo más que somos obrigados a fazer por não estarmos. Por exemplo, poder andar de calções e chinelos todo o dia ou, em sentido contrário, enfrentar engarrafamentos diários entre a casa e o emprego. E quanto a isto não há volta a dar. A formal, por sua vez, remete para a nossa percepção subjectiva do tempo, havendo aqui, porém, alguma volta que pode ser dada.

Entrar de férias faz olhar para o tempo como um conjunto homogéneo de dias abertos que nos dá uma sensação de autonomia e liberdade, em contraste com o resto do ano, desgraçadamente visto como um conjunto de dias fechados que nos faz sentir presos a uma realidade da qual não podemos escapar. Daí voltarmos ao trabalho como um escravo para as galés depois de andar um mês fugido. Porém, e por muito boas e diversificadas que sejam as férias ou por muito mau e monótono que seja o trabalho, não deve ser este o modo de olhar para tempo. Sem dúvida que é mesmo muito bom ter todos aqueles dias de férias. Acontece que um dia de férias é apenas um dia que vem depois de outro dia de férias e antes de outro dia de férias. Sim, são dias intrinsecamente bons só por serem de férias e vistos como perfeitos quando em bloco, mas a ligação entre todos eles torna relativo o peso de cada um. O tempo das férias é assim como um café americano: uma chávena enorme para se ir bebendo devagarinho, durante muito tempo. É bom bebê-lo mas todos os goles são iguais, apenas goles que se sucedem sem cada um deles ter um grande impacto, bebendo-se até, muitas vezes, distraidamente, enquanto se faz outra coisa qualquer.

Já o tempo do trabalho é completamente diferente. Enquanto o tempo das férias não é interrompido por dias de trabalho, o tempo do trabalho é interrompido por dias de férias que são os fins-de-semana e feriados. Dir-se-á ser estúpido comparar um mês inteiro, seguidinho, de puro ócio, com uns borrifos entre duas semanas de trabalho. Mas aí é que está! Chegar a 6ªfeira, sabendo que nos dois dias seguintes não se vai trabalhar, isto é, uma ilha de ócio rodeada de trabalho por todos os lados, não é o mesmo que estar no 17ª dia de férias, sabendo que não se vai trabalhar no 18º e no 19º, tal como acontecera no 15º e no 16º. Daí que um dia de ócio no fim-de-semana já não seja como beber um café americano mas um café curto ou italiana. Bebe-se depressa mas a grande concentração de café permite 4 ou 5 segundos de um prazer mais forte e pregnante. Digamos que nos dias de férias o café, apesar da sua qualidade, está mais aguado, enquanto no fim-de-semana o café é sentido com grande impacto. Entretanto, se um ano tem 52 semanas e tirarmos, vá, 5 semanas de férias, ficamos com 47 semanas de trabalho, logo, 47 fins-de-semana. Se um fim-de-semana tem 2 dias, isto vai dar 94 dias durante o ano em que não se trabalha, sem contar com os feriados, os quais, diz-me o calendário, com um optimismo que vale mais do que dez livros de auto-ajuda, são, este ano e o próximo, todos maravilhosos. Em suma, são o triplo, repito, o triplo, dos dias de férias. E sem serem dias distraidamente contínuos como nas férias ou nos goles do café americano mas verdadeiras italianas, verdadeiros shots de café como centro do nosso prazer.

Agora que escrevi isto, espero conseguir, hoje, finalmente, dormir sem pesadelos e, amanhã, andar sem sentir palpitações, dor de estômago, dor de cabeça e dor de cotovelo por causa dos que começaram agora a gozar férias no preciso momento em que eu as acabo. Fim-de-semana já depois de amanhã, pois então, o mesmo é dizer, um café curto para a mesa, se faz favor.

05 setembro, 2017

AS MÃOS DE ORLAC


Há muito que assim é. Abro um chocolate com a ideia de apenas comer dois ou três quadrados (triângulos, no caso de ser Toblerone) mas só consigo parar quando a circunstância de já o ter comido todo a isso me obriga. Digo a mim mesmo que desejo parar, que preciso de parar, mas acabo sempre caído no local do crime com a mesma inexorabilidade de uma pedra que se estatela no chão depois de largada. Ora, isto é terrível e desanima qualquer iluminista com fé na capacidade racional do ser humano para escolher livremente o que faz ou deixa de fazer. O que eu sinto nestas situações (igualmente dramáticas são as amêndoas da Páscoa ou as merendeiras por altura dos Santos) é o triste destino de Orlac. As Mãos de Orlac é um romance de Maurice Renard com várias adaptações cinematográficas. Não li o livro mas, daquelas, conheço a magnífica versão de Robert Wiene. Rapidamente: um grande pianista e excelente pessoa, Paul Orlac, sofre um acidente, ficando com as mãos destruídas. A sua mulher implora ao médico para tentar recuperá-las e o que se lembra este de fazer? Transplantar as mãos de um terrível assassino que acabou de ser condenado à morte. Informado sobre o que aconteceu, Orlac fica então submetido ao terrível poder das suas mãos, passando a ser mais ele a pertencer às suas mãos do que estas a ele.

Pronto, é isto, as minhas mãos são como as mãos de Orlac, parecendo um daqueles sonâmbulos que caminham de braços estendidos, atraído como um íman, até ao chocolate, e com o meu pobre e abúlico espírito a assistir desesperadamente a tudo isso. Mas a história de Orlac não pára aqui. Vem-se a descobrir que o tal assassino, afinal, não o era, sendo condenado injustamente. O assassino era outro, tendo manipulado pistas para incriminar o anterior dono das actuais mãos de Orlac. Ora, sabendo que as suas mãos não eram, afinal, as de um assassino, Orlac volta a ser a pessoa que era antes. Vejamos, as mãos são as mesmas, antes e depois. O que mudou foi a sua crença e expectativas a respeito delas, significando isto que não foram as mãos mas a mente a dominar a sua acção. Ora, o mesmo se pode passar entre mim e o chocolate. Talvez eu não esteja a ser dominado por uma força exterior à minha natureza de ser racional mas a agir em função do que é a minha crença e expectativa relativamente ao acto de comer o chocolate inteiro. Será que eu não conseguiria parar de o comer, sabendo que iria morrer por causa disso? Ou ficar três dias de cama, doente? Ou uma simples dor de barriga? Jamais.

Eu como o chocolate inteiro pois para além de um grande prazer à medida que o vou comendo, sei que, como acto isolado, não me traz consequências adversas. E tanto assim é que, apesar de salivar com a ideia de poder comer um chocolate todos os dias, não o faço. Iria ter esse prazer diário mas também sei que as consequências negativas dele resultante iriam sobrepor-se ao meu prazer. Há muitas pessoas que, mesmo sabendo que uma acção pode trazer imediatamente situações adversas, não deixam de as praticar. Por exemplo, conduzir a alta velocidade numa estrada perigosa, ter uma doença grave e uma alimentação de risco, uso e abuso de drogas ou álcool, não parar de jogar num casino. Nestes casos, sim, como se pensava inicialmente a respeito de Orlac, a pessoa está refém das suas «mãos». Todavia, na maioria das acções, encontramos um quadro de racionalidade que faz perceber, ainda que intuitivamente, se se está a agir bem ou mal ou, ainda que mal, se a ultrapassar um limite, o que, no caso de não ser ultrapassado, significa não ser a acção assim tão má quanto pode parecer. Por falar nisso...

04 setembro, 2017

MATÉRIA PRIMA

Cecil Beaton

Hoje, durante uma palestra, ouvi duas vezes a expressão «língua materna». O que diria sobre isso a "Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género"? Só há mater, isto é, óvulos e útero e entretanto, nada de sementinha para a nossa língua portuguesa? Com tanto orwelliano revisionismo histórico que por aí circula, ainda vão pôr o Fernando Pessoa a dizer que a sua mátria é a língua portuguesa.

02 setembro, 2017

BELO HORRENDO


Nunca fui à América mas uma boa razão para isso seriam as cores florestais na Nova Inglaterra durante o Outono. Se no meu imaginário castelo é Escócia, pub é Dublin café é Viena ou Trieste, natureza é Nova Zelândia ou Ilhas Faroe, termas é Budapeste, mosteiro é Geórgia ou Arménia, road trip é Route 66 e sopa da pedra é Almeirim, floresta outonal é Nova Inglaterra. Ontem, ao atravessar a serra de Aire, passei por uma zona florestal ardida entre Mira de Aire e Alvados, cujas cores me fizeram lembrar uma outonal floresta da Nova Inglaterra, dando por mim a sentir um prazer estético. Mas a área pré-frontal do meu cérebro logo me disse que não poderia apreciar aquela paisagem, que aquilo não era a Nova Inglaterra mas uma estrada portuguesa onde ocorreu mais um daqueles típicos incêndios de Verão portugueses que fazem a felicidade dos jornalistas que, não tendo a oportunidade de andar pela Síria ou pelo Iraque, compensam com «cenários dantescos» onde entrevistam «populares» em pânico e lágrimas. Daí passar logo do prazer à estranheza e da estranheza rapidamente à repulsa.

Isto fez-me pensar no despropósito de uma visão utilitarista da beleza, ao contrário do que se passa na moral. Se um homem se atira ao rio para salvar uma criança com a ideia de obter uma recompensa monetária dos pais, o seu acto não tem valor moral. Mas a sua consequência justifica-o, ficando a criança e os pais agradecidos. Ora, eu também poderia dizer: «Quero lá saber do motivo por que estou a sentir prazer em apreciar este pedaço de floresta com tão belas cores!», neste caso, as brasas do fogo em vez do frio do Outono, pois o que importa é o meu prazer estético. Mas não digo: é artificial, falta-lhe autenticidade, espontaneidade, naturalidade. Os meus sensores parecem ser aqui os mesmos que activo para os poderes encantatórios do kitsch, para uma falsa confusão entre o que é verdadeiramente belo e aparentemente belo ou falsamente grandioso Ou os mesmos sensores que me fazem sentir desconfortável perante um pintura falsificada ainda que imite na perfeição o original. Os meus olhos vêem o mesmo em ambas, mas ter a consciência de que uma deles é falsa muda tudo na minha relação com ela. No meu caso presente foi também isso que se passou. Eu vi uma floresta outonal mas a minha consciência de imediato me disse não se tratar de uma floresta outonal mas uma floresta queimada. E a consciência sobrepôs-se à ingenuidade do olhar, transformando de imediato o belo em sinistro.

Kant apresenta o belo como símbolo da moralidade. Já a minha sedução inicial pela beleza de uma floresta queimada pode simbolizar a sedução por todo a beleza usada para esconder ou dissimular falsidade ou corrupção, seja material, moral ou psicológica. Uma beleza que, aproveitando-se da imediata e ingénua adesão dos olhos ou dos ouvidos, ofusque igualmente as vulneráveis consciências, como acontece no célebre Canto XII da Odisseia com as vozes hipnóticas das demoníacas sereias. Os tempos são outros, eu não vinha de barco de Tróia a caminho de Ítaca mas de carro a atravessar a Serra de Aire. Mas, por muito modernos que possamos ser, os feitiços são imortais, seduzindo-nos através da beleza sem que nos apercebamos dos males que se escondem como é o caso desta bela floresta queimada. Os símbolos podem mudar, seja uma sereia grega ou uma portuguesíssima floresta queimada. A realidade, essa, continuará eternamente a ser o que sempre foi.


31 agosto, 2017

O JARDIM SEM FADAS


Quando se matriculam no 12ºano, os alunos têm de escolher duas opções. Sendo Psicologia uma delas e eu professor da disciplina, no ano anterior costumam perguntar-me que tipo de assuntos lá se abordam. Eu enumero os temas principais mas acabo por fazer um bocadinho de batota, salientando assuntos como os sonhos, o dejá vu, o comportamento dos psicopatas, as ilusões ópticas, as fobias. Não estou a mentir, de facto, são assuntos que passam pelas aulas mas apenas enquanto pequenos farrapos temáticos que se despacham em 10 ou 15 minutos. Mas também sei que são os assuntos que mais os entusiasmam e as suas reacções não enganam, deixando perceber o mistério, o enigma, o fascínio do desconhecido em que estão envolvidos.

Mas enigma, mistério e fascínio do desconhecido que não é mais do que um resultado da sua ignorância. A explicação para tais assuntos está mesmo à mão de semear mas a ignorância tem o dom de mistificar o que a razão compreende de um modo claro e distinto. Hoje, a explicação para muita coisa que é vista como misteriosa, mais até do que mental (software), é neurológica e bioquímica (hardware), sendo essa que irão aprender nalguns dos casos. E é claro que gostam de aprender, achando sempre interessante a explicação. O que  não anula, todavia, e isso vejo eu todos os anos, a desilusão pelo modo, insisto, tão claro, distinto, racional, como são explicados. Não é a mesma coisa regressar ao jardim, sabendo mais de botânica mas sabendo também que as fadas já lá não moram.

30 agosto, 2017

MENINOS E MOÇOS



A imagem não é grande coisa mas é a melhor que consigo arranjar desta Cena de Aldeia, de Augusto Roquemont e que pode ser vista com olhos de ver no museu Soares dos Reis. O centro do quadro é um chafariz de Guimarães, tendo ao lado um passo da Via Sacra. Sem temer cair no exagero, toda a cena parece uma versão minhota de um arcádico quadro de Poussin, conferindo, neste caso, à ruralidade nortenha um verdadeiro estatuto de locus amoenus, um perdido e já irrecuperável paraíso, num mundo onde a cidade, com os seus ritmos, as suas ocupações e sobretudo as suas idiossincrasias associadas à Queda, vai ganhando cada vez mais ascendente. Tudo é paz e serenidade bucólica nesta cena, onde o trabalho, o prazer e a espiritualidade formam um todo harmonioso, sem contradições e dissonâncias. Porém, e ficando já registada a graça da adversatividade com que inicio a frase, no mesmo dia em que vi o quadro, calhou ler no JN duas notícias de crimes ocorridos em aldeias do norte de Portugal, um deles, envolvendo vizinhos com questiúnculas relacionadas com terrenos, a outra por causa de desentendimentos familiares cujo motivo entretanto esqueci. Infelizmente, não se trata de uma mera e triste coincidência, traindo pelas costas o virgiliano bucolismo da cena sugerido pelo pintor. 

Augusto Roquemont, filho de um príncipe alemão, veio parar a Portugal por mero acaso, depois de ter estudado em Paris e feito a sua formação artística em Itália: o pai, militar, estando cá a apoiar a causa miguelista, chama-o em 1828 para se tornar seu secretário particular. E por cá ficou até morrer, sempre ligado a famílias da alta burguesia nortenha. Não surpreende, por isso, ver uma cena rural apresentada deste modo entre o idílico e o pitoresco. O pintor nada tem que ver com o povo que aqui apresenta, o pintor não vive nesta aldeia, por isso, mais do que um retrato fiel do quotidiano que gira à volta deste chafariz, o que temos é uma idealizada construção urbana de uma cena de aldeia cuja depuração a transforma numa caricatura. Aliás, em perfeita sintonia com o movimento  romântico (igualmente urbano) da sua época, bastando lembrar a Viagem do dandy Garrett, que sai de Lisboa para entrar na província profunda, com o meu deslumbramento exótico de um explorador que penetra cada vez mais no desconhecido território africano.

Augusto Roquemont morreu em 1852, como morreram o seu mundo burguês e o mundo rural por si retratado. Todavia, mudando a burguesia e o mundo rural, mantém-se aquela urbana e universitária esteticização do povo, embora por razões diferentes, tanto à esquerda como à direita, associando-o a uma espontaneidade, autenticidade, pureza, genuína ligação às raízes, que teima em resistir aos avanços de um universalismo social e cultural. Mas basta viver numa aldeia ou, para quem não lá vive, ler diariamente o Correio da Manhã ou o Jornal de Notícias, para logo se desvanecer esta imagem folclórica do bom povo. Não quero dizer que ao sair da cidade se vá encontrar um país de homens bêbedos a bater nas mulheres, de crianças ranhosas à bulha ou a atirar pedras aos gatos, de vizinhos a matarem-se com enxadas e caçadeiras, de mulheres deprimidas a incendiar florestas ou, numa visão mais escatológica, pastores analfabetos satisfazendo a libido com inocentes ovelhas. Se uma caricatura utópica do povo não faz sentido, uma caricatura distópica, ainda fará menos. Pretendo apenas registar o facto de o povo continuar a ser alvo de uma mistificação, a qual, ao libertá-lo de características sociais, psicológicas e morais que supostamente infectam o artificial e desumanizado mundo urbano, revela uma superioridade e paternalismo antropológico que faz da aldeia um Zoo habitado por gente em vias de extinção e que deve ser protegida da ameaça urbana. 

29 agosto, 2017

O NEGRO CONTINENTE


Nos meus tempos de juventude eram muito populares uns livros de capa preta dedicados aos grandes mistérios da humanidade. A coisa ia desde o grande clássico dos clássicos, o incontornável Triângulo das Bermudas, às pirâmides do Egipto, passando pelo calendário Maia, Stonehenge, ilha da Páscoa, efeitos geométricos perfeitos em terrenos agrícolas, ilhas encantadas, o monstro de Loch Ness, visitas de OVNIS, surgindo ainda os Templários pelo meio. A colecção era tão popular que havia jovens que não lendo mais nada (vá, alguns mais intelectuais liam as Selecções do Reader's Digest), não resistiam a devorar tamanhos enigmas, apanhando eu por tabela com os seus excitantes resumos. O meu desespero era tal que chegava a desejar ser raptado por extra-terrestres só para desaparecer dali (mas voltar a aparecer noutro sítio qualquer, não criando outro mistério por resolver).

Há dias fui dar com alguns desses livros quando vasculhava as mesas de um alfarrabista. Reparei que andam à volta das trezentas páginas, sendo também um mistério como se consegue escrever tanto sobre tais assuntos. Os mistérios, porém, não acabaram nestas «oeuvres au noir», tendo descoberto um outro livro que, pelo título, «Os Grandes Mistérios da Sexualidade», é bem capaz de transformar uma simples cama numa síntese entre o Triângulo das Bermudas e o tesouro dos Templários. Entretanto, não nos iludamos com a cor da capa, não preta mas a caminhar mais para o cor-de-rosa, fazendo pensar que, como os labirintos, tratarem-se de singelos e delicados mistérios, mais vocacionados para meninas, enquanto os outros, mais graves e sérios, para meninos. Nada disso, vendo-se logo pela sua volumetria. Se os pretos têm em média cerca de trezentas páginas, já a sexualidade não brinca em serviço, merecendo oitocentas e tal páginas de mistério cujo peso é naturalmente proporcional ao peso do livro.

Podemos pensar que tal profusão se deve ao facto de se tratar de um livro escrito nos anos 40, com a ciência ainda a gatinhar sobre o assunto, vendo-se mistérios onde nós já conseguimos ver coisas claras e distintas, como acontecia com os trovões ou os tremores de terra noutras eras, associados ao mysterium tremendum do sobrenatural e que o digam os lisboetas de 1755. A brincar a brincar já lá vão quase oitenta anos e muito se avançou desde então. Mas não. Não, e antes pelo contrário. Fosse o dr Norman Haire ainda vivo, voltando a escrever agora sobre o assunto, de certeza que em vez das quase novecentas páginas escreveria o dobro, tendo mesmo que dividir a obra em dois volumes. Não é leviana e especulativamente que o digo mas protegido por uma evidência empírica: o modo como somos diariamente abordados por capas de revistas, artigos de jornal, sites, entrevistas, programas de televisão, consultórios, artigos científicos sempre com mais descobertas (hoje é a vez de o JN informar já haver explicação científica para os amores de Verão), a literatura, o cinema e até o teatro, obriga-nos a pensar que se há assunto onde os mistérios nunca se desvanecem, ao contrário dos outros, já limitados pela lúcida separação entre ciência e pseudociência, é a sexualidade.

Apesar de hoje já serem evidências do senso comum o facto de a masturbação não provocar doenças (não obstante métodos que podem pôr em risco a integridade física do/a praticante) ou de beijar não engravidar, a sexualidade continua tão fértil como um útero nos dias do mês em que está para aí virado. Explicações sobre as melhores posições para fazerem um casal feliz, parecem não ter fim; o clítoris, essa enervada miudeza, continua teoricamente a inquietar. Diz a Wikipédia que «Nele se concentram os nervos que produzem o prazer sexual na mulher. Até ao momento é a sua única função conhecida». Repare-se bem: «Até ao momento», fazendo-nos temer o que ainda pode aí vir; o famoso ponto G continua tão misterioso como as pirâmides egípcias e sul-americanas todas juntas mais a esfinge, havendo intermináveis discussões sobre a sua localização, e até quem negue a sua existência, que não passará de um mito, tal como o bichinho de Loch Ness; a idade para iniciar a vida sexual e a frequência desta continua a ser alvo de debate científico, religioso e ideológico; enfim, outros mistérios como os desvios da normalidade, as deficiências do amor, a complexa relação dialéctica entre os preliminares e o acto propriamente dito, a relação entre a mecânica bioquímica e os desempenhos físicos e emocionais do homem e da mulher, o nível de sanidade mental associado a certas fantasias sexuais, criatividade ou tara?, os alimentos mais afrodisíacos, continuam a dar que pensar, sempre com mais informações e contra-informações.

É mais ou menos consensual o facto de a sexualidade feminina ser mais complexa e misteriosa do que a masculina, começando no corpo e acabando na alma. Daí Freud considerar o universo feminino um continente negro que poucos se atreviam a explorar. Hoje, continua-se a explorar, mas continua a ser negro. Como estes tempos de correcção política não estão para exclusividades e discriminações, e querendo dar um sinal de boa vontade, concluo ser a sexualidade humana, e não apenas a feminina, um continente mesmo negro e cujos mistérios parecem não ter fim. Livros como o do dr Norman Haire podem querer vir iludir-nos com a cor das suas capas. Todavia, sabemos bem qual deveria ser a sua verdadeira cor, ao contrário dos outros de antigamente, os quais, entretanto, com a sua puerilidade pseudocientífica, se tornaram cada vez mais rosados.

28 agosto, 2017

O BOLO


Esta fotografia não tem nada de especial, serve apenas para acompanhar uma notícia sobre o Manchester United-Leicester do último fim-de-semana, mostrando em grande plano o treinador da equipa vencedora. Enfim, uma fotografia igual a tantas outras. Trata-se, porém, de uma fotografia com uma enorme dinâmica dialéctica que vale a pena não deixar passar. Deixemos o treinador para olharmos para a bancada, vendo o que vêem os olhos dos espectadores. Isso mesmo: vê-los a ver. E o que vêem eles? Se repararmos nas trajectórias daqueles muito olhares, e vale a pena dar atenção a cada um deles, logo percebemos que são imensos os alvos, sendo mais o que os separa do que os une. E mesmo quando se dá o caso de olharem na mesma direcção, também logo percebemos serem diferentes as suas reacções. Esta fotografia é, deste modo, um espelho do que é a nossa sociedade democrática e liberal. Vivemos juntos mas isso não implica darmos atenção ou entusiasmarmo-nos com as mesmas coisas. Vivemos numa sociedade livre na qual cada um olha para o que mais lhe interessa, gostando e entusiasmando-se como coisas de que outros não têm de gostar e com elas se entusiasmar. Mais coisa, menos coisa, é isso que significa ser livre num sentido social e político.

Entretanto, regressemos ao treinador, para agora percebermos que o que ele vê não coincide necessariamente com o que os outros vêem, havendo mesmo olhares num sentido contrário ao seu. Aquele homem dirige os destinos da equipa que levou aquelas pessoas ao estádio mas o seu olhar, sendo fundamental e até mais importante do que todos os outros por ser o treinador, não deixa de ser apenas mais um olhar. E já agora, vejamos a relação entre a posição do seu corpo e a trajectória do seu olhar. O treinador não está monoliticamente fixado numa posição, vendo apenas o que está à sua frente, como acontece às mulas que usam palas laterais. Toda a postura do treinador é também ela dialéctica, isto é, caminha para a frente mas sem deixar de atender ao que está para trás, o que significa também não estar preso a uma visão do campo inerte, tendo antes que pensar e decidir em função das contingências, dos acasos, dos microscópicos detalhes que muitas vezes resolvem os jogos.

Mas não nos deixemos iludir com todo este banho de individualismo, liberdade e contingência. Apesar dos olhares dissonantes, convém lembrar várias coisas. Primeiro, se ali estão é porque gostam todos gostam de futebol. Segundo, se estão todos naquela bancada é porque são adeptos do United, unidos por aquele emblema. Em terceiro lugar, não nos deixemos iludir: o que está mesmo a acontecer naquele momento? Poderia apostar que o jogo está parado, talvez uma lesão, uma substituição, uma bola que foi para fora, dando azo a toda aquela dispersão de olhares. Ora, tal não acontece quando ocorre um contra-ataque perigoso, a marcação de um canto, um penálti, um perigoso livre-directo ou, quando nos minutos finais, a sua equipa massacra para tentar virar um resultado ou é massacrada a defendê-lo. Nestas situações, convergem os olhos, convergem os batimentos cardíacos, convergem as emoções, convergem os desejos e objectivos. Em suma, podemo-nos distrair individualmente quando a ocasião o permite mas quando se trata de assuntos mais importantes, como é o caso de ver a nossa equipa ganhar, remamos todos para o mesmo lado.

O mesmo se deveria passar social e politicamente. Podemos ter projectos de vida individuais, sensibilidades políticas distintas, códigos morais flexíveis, subjectividades várias. Mas há valores, interesses e objectivos que são comuns e que devem ser defendidos por todos, independentemente do que nos separa. Se acontece o contrário, isto é, uma excessiva atomização social, com cada grupo e sensibilidade completamente auto-centrada, é a própria sociedade, de que tanto gostamos, que fica em risco e, por inerência, todos nós, ou quase todos nós. A dialéctica é uma riqueza mas se queremos um bolo sólido e firme para podermos cortá-lo em seguras fatias para distribuir individualmente, precisamos de um bom forno cuja regulação deve seguir a receita e não o que cada um inventa, sob pena de se transformar num crumble para ser depois comido com os dedos.

23 agosto, 2017

CHAMAR NOMES AO PASSADO


Apesar da solenidade arquitectónica que espalha um perfume imperial sobre a capital francesa, o Arco do Triunfo não deixa de ser um monumento cómico. A história é assim um bocadinho como os romances de Kafka. Tanto podemos olhar para ela e sentir o acre odor do drama, como, ao carregar noutro botão, rir às gargalhadas, que parece ser o que acontecia por vezes com o escritor checo quando escrevia os seus romances. E como eu o entendo, tendo até pena de que os Monty Python nunca tivessem adaptado ao cinema um romance como O Castelo

O Arco do Triunfo, e atenção mesmo à semântica para não se perder o efeito cómico na perfunctória rotina do nome, foi mandado erguer em 1806 por Napoleão para comemorar as grandes vitórias militares do seu império. Entretanto, estava ele a ser construído e os franceses a irem já de vez embora de Portugal, a morrerem à fome na neve russa, a sofrer grandes desgraças em Leipzig e Waterloo e o próprio corso com a mania das grandezas imperiais a fazer contas à vida na ilha de Elba, as quais ficarão de vez resolvidas na insular pasmaceira de um minúsculo grão de areia perdido no oceano, quando ainda se ouvia o eco dos risos dos vencedores, em Viena. Em suma: em 1804 está Napoleão a auto-coroar-se imperador, em 1806 manda erguer o Arco do Triunfo, em 1812 está de mala feita rumo ao pavilhão dos derrotados. Tudo isto, só para dizer que a história é mesmo uma coisa complicada, um bocadinho assim como aqueles fogos que nunca se sabe para onde estão virados por causa da imprevisibilidade dos ventos, para desespero dos bombeiros.

Pelas mesmas razões, é igualmente cómica a primeira página desta edição do passado mês de Julho do moçambicano O Sol. Não pelo jornal em si mas pela publicidade à glamorosa sapataria Just Man. Também não pela loja mas pelo nome da avenida onde se situa. Eu, como Zaratustra, gosto mais de rir do que de chorar, ficando assim até agradecido a quem um dia resolveu dar o nome à avenida, fruto do ar do tempo. Mas não deixa de ser um aviso para todos aqueles que, com as circunvoluções demasiado insufladas por esse ar, vão logo a correr mudar os nomes de cidades, ruas, avenidas, escolas ou pontes. Quando foi dado o novo nome a esta avenida, os chineses eram pobrezinhos como os moçambicanos, homenageando o senhor que a baptizou. Acontece que os chineses,  e cá está a história a fazer das suas malandrices, fartaram-se de ser pobrezinhos e de se inspirar no senhor que deu o nome à avenida, resolvendo enriquecer. Hoje, os moçambicanos continuam orgulhosamente pobres mas têm uma sapataria rica numa avenida que tem o nome de quem fazia questão de continuar a manter os chineses pobres e a inspirar a pobreza de outros. Sim, é um bocado confuso, mas não deixa de ser cómico como o castelo de Kafka.

Podemos ter três visões sobre a relação da história com a onomástica no espaço público: uma reaccionária, uma conservadora e uma revolucionária. Começo pelas pontas. A reaccionária seria começar agora a querer dar nomes de pessoas, factos ou datas em memória de um passado que se foi de vez, inspirado numa nostalgia que, podendo ser pessoalmente legítima, é publicamente absurda. Não concordo, mas aceito quem pense que Portugal só lá vai com dois ou três Salazares e que é no seu exemplo que se deve inspirar. Tudo bem, mas ter agora o descoco de dar início a um abaixo-assinado para dar o seu nome a uma rotunda de Torres Novas, seria de um reaccionarismo bacoco, o qual até rima com descoco. Mudando agora de registo, sabemos que os revolucionários são pessoas impacientes e com uma péssima relação com o lento movimento dos ponteiros, tanto em relação ao futuro como em relação ao passado. Um dos passatempos preferidos dos revolucionários é puxar o botãozinho do relógio que permite acertar o calendário e os ponteiros, para andar rapidamente com eles para fugir depressa do passado e também depressa chegar ao futuro que tanto anseiam. Isso fez com que, por exemplo, os depois derrotados revolucionários franceses que antecederam o depois derrotado Napoleão, chegassem a mudar o calendário só para fazer esquecer o passado, assim mais ou menos como um computador que foi formatado para limpar de vez os vírus. Ou com que na Rússia soviética, S. Petersburgo passasse a chamar-se Leninegrado e Volgogrado, Estalinegrado, ou que em Portugal Salazar fosse transformado em 25 de Abril, fingindo que o passado nunca existiu e que o presente passa a ser propriedade de quem acaba de lá chegar, assim como a criancinha que é dona da bola e que faz o que quer dela. Depois há ser conservador. Ser conservador, como bem explica João Pereira Coutinho no seu pequeno mas excelente livro Conservadorismo, não é o mesmo que reaccionário. Como dirá Anthony Quinton, um reaccionário não passa de um «revolucionário do avesso», isto é, em vez de revolucionar para a frente para chegar a um risonho e luminoso futuro que não existe nem pode existir, deseja revolucionar para trás, regressando a um passado igualmente risonho e luminoso que nunca existiu.

Ser conservador é outra coisa. O passado é isso mesmo: passado, devendo ser protegido de modas fugazes. Lenine e Estaline são duas personagens que fazem parte de um regime que durou algumas décadas, enquanto o rio Volga continua a ser um grande rio russo e o maior da Europa, e Pedro, um grande nome que ficou preservado das irónicas contingências da história. Daí aquelas cidades voltarem aos seus anteriores nomes, anulando-se a impaciência revolucionária de quem só tem olhos para um futuro que um dia se irá transformar num triste passado. Mas se uma nova rua ou praça tivessem sido inauguradas com esses nomes, é com esses nomes que deviam ficar. Até porque o que em tempos foi terrível pode com o tempo ganhar um encanto vintage. Eu não tenho qualquer nostalgia do dr. Salazar. Mas gostaria bem mais que a ponte 25 de Abril tivesse o seu nome, assim como uma espécie de produto da loja Vida Portuguesa, da Catarina Portas. «Ponte Salazar» teria assim o mesmo encanto antigo de uma lata de atum Tenório, da pasta medicinal Couto, do restaurador Olex, de um sabonete da Ach. Brito, das línguas de gato Paupério ou daqueles brinquedos de madeira e lata que antigamente se vendiam nas feiras. Atenção, eu gosto do 25 de Abril. Mas o 25 de Abril teria sempre que acontecer, sendo assim uma espécie de supositório enfiado no rabo de Portugal para limpar o organismo, após prescrição histórica. Mas pronto, fez-se, acho muito bem que se tenha feito e que se tenha dado o seu nome a muita coisa que ainda não o tinha ou que fosse meio deslavado. Agora, mudar nomes antigos é tão lesivo como deitar abaixo casas antigas ou deitar fora um Trabant, um capacete nazi, uma farda da mocidade portuguesa ou as canções do António Calvário.

Os nomes são também uma aula de história e pensar neles não significa querer que a história ande para trás mas apenas ter consciência dela. Aliás, não deixaria de ser uma ironia histórica ver hoje o nome de um político paroquial, provinciano, tacanho e fuinha como Salazar, associado a uma bela ponte de uma capital vibrante, moderna, cosmopolita, aberta. Como já se deve ter percebido, não acho boa ideia terem dado, por um infantil e revolucionário impulso, o nome de Mao Tse Tung a uma avenida de Maputo que, por sua vez, se chamava Lourenço Marques. O que está feito, está feito. E agora que o tem, assim deve permanecer, como memória de um tempo, acabando também, ironicamente, por ter o mesmo glamour vintage de um Trabant, de um capacete nazi, de uma farda da mocidade portuguesa ou das empolgantes canções revolucionárias chinesas como «A Longa Marcha» ou «Navegar os Mares Depende do Timoneiro». Tudo coisas que, vistas bem as coisas, podem dar vontade de chorar. Mas perante as quais, como num romance de Kafka, há que, também, tantos anos depois, saber rir.

21 agosto, 2017

ANTÓNIO, ANTÓNIO

[Grupo de turistas portugueses, aproximando-se perigosamente da Fontana di Trevi, vindos da Piazza Navona, depois de terem estado a comer gelados na Giolitti]


Comprei há dias o livro "Itália- Práticas de Viagem", de António Mega Ferreira. Não, apesar do título, como manual prático para uma putativa viagem ao país de Silvio Berlusconi mas pelas várias e interessantes referências à cultura italiana, a qual prezo bastante. Num dos capítulos dedicados a Roma, o autor parte de uma fotografia onde se vê Pasolini, nos anos 60, sentado na esplanada do Caffè Rosati. Percebe-se o fascínio de Mega Ferreira por esta fotografia, que decorre do seu também indisfarçável fascínio pelo realizador e escritor comunista. Explica depois ser o café, já naquele tempo, um ponto de encontro de intelectuais de esquerda, ao invés do Canova, mesmo ali ao lado, frequentado pelos de direita. Daí nunca ter entrado no Canova, sendo sempre o Rosati o seu eleito para "tomar um café e um delicioso panino de prosciutto cuoto", desde que lá entrou pela primeira vez em 1979.

Há muitos anos que sigo o percurso de Mega Ferreira, homem que respeito intelectualmente, não precisando desta sua referência ao Rosati para saber que é um homem de esquerda. Não deixa por isso de surpreender o que escreve logo na página 12, quando lamenta o incómodo de ter que se misturar com os turistas que vêem em Itália um parque de diversões e sem olhos para a Itália secreta que só pessoas como o autor do livro conseguem ver: "(...) aconselha-se o semicerrar dos olhos até que a poluição visual se dilua, uma espécie de exercício mental de «limpeza» das vistas, ignorando-se as mulheres gordas, os homens barrigudos e as crianças malcriadas, concentrando o olhar apenas naquilo que vale a pena ser visto". O cenário, assim descrito de modo tão escatológico, é de profundo horror, fazendo-me até lembrar, não, e ao contrário do que se possa pensar, o Coronel Kurtz do Apocalypse Now, mas o meu estado de espírito, já lá vão 30 e tal anos, ao sair da sessão da meia-noite do Quarteto depois de ter visto, e vai em italiano para tinir mais suavemente na minha hegeliana bela alma, "Brutti, Sporchi e Cattivi". Mas fará sentido tamanho horror perante o moderno Petit Tour dos pobrezinhos e remediados em viagem de ida e volta da Ryanair?

Juro, mas juro mesmo, que percebo a chatice de não poder chegar a Itália em operático registo viscontiano para depois, como Aschenbach ou Brodsky, flanar melancolicamente pelos canais de Veneza, com o rosto febrilmente afagado pelo siroco; vaguear literariamente pelos cafés de Turim, com o fantasma de Nietzsche por perto e apenas o sussurro das folhas de um jornal ou de quem conversa baixinho perante dois macchiati; andar pelas ruas de Milão apenas rodeado de elegantes descendentes das condessas Serpieri ou dos Falconeri de outrora, com os seus actuais e impecáveis vestidos e fatos italianos comprados no Quadrilátero; já em Florença, abrir a janela do quarto sobre a cidade para depois entrar em Santa Croce e, como Stendhal, ouvir as extáticas palpitações do seu coração; ouvir o silêncio da Piazza del Campo, em Siena, ou os sagrados murmúrios dos mosaicos de Ravena, como teria ouvido Montaigne; entretanto, ter nos braços o mesmo Coliseu que outrora se despiu perante Goethe como uma bela e casta mulher que só se despe para os íntimos e apaixonados olhos do seu amante ou ter a Fontana di Trevi só para si e uma valquíria loira, embora com estridência mais meridional do que wagneriana, mais próxima até das gordas turistas que Mega Ferreira não suporta, do que da profunda e complexa mitologia escandinava; enfim, vaguear sossegadinho  pelas esculturas do museu em Nápoles ou em Pompeia, como a Bergman, sem ter que esperar de 5 em 5 minutos que acabem de fazer as selfies para o Instagram ou Facebook.

E não pode, por causa da poluição visual originada por tanta mulher gorda, homem barrigudo e criança malcriada. Mas isto coloca um problema. Se o povo não sai de casa para ficar a ver telenovelas, reality shows, debates desportivos ou passar horas no Facebook, é estúpido e ignorante. Se já sai mas para viajar até ao café para beber umas minis e comer tremoços enquanto discute A Bola, ignorante e estúpido é. Apesar de a estupidez e a ignorância serem qualidades que não dignificam a população de um país que teve poetas como Sá de Miranda e Camões, tomo a liberdade de presumir que, para Mega Ferreira, será bendita e piedosa estupidez e ignorância, por ser daquela que não perturba os seus arrebatamentos estéticos e intelectuais sempre que pousa os pés em Itália. A chatice é quando o povo evolui social e economicamente e, com dinheiro no bolso para andar de avião, resolve ir todo contente para o Coliseu fazer selfies ou fotografias em frente à torre de Pisa a fingir que sustém a sua queda com um dedo, incomodando a aristocrática sensibilidade do intelectual português perante tão bela jóia do Renascimento que bem gostaria de ter apenas ninfas botticellianas a embalar-lhe a alma num bucólico fim de tarde toscano.

Não digo "aristocrática" inocentemente. Tudo aquilo que atrai Mega Ferreira em Itália tem um selo aristocrático ou burguês. Tudo o que é palácio, pintura, escultura, igreja, torre ou até os poemas de Rilke no castelo de Duíno sobre o golfo de Trieste, deve-se à riqueza dos Sforza, dos Gonzaga, dos Este, dos Medici, dos Borgia, dos Orsini, dos Strozzi, dos Pazzi, dos Montefeltro, dos Borghese ou, por último, mas mesmo nada menos importante, do papado. São eles, com o seu poder, a sua ambição, a sua vaidade e, nalguns casos, como diria o Harry Lime de O Terceiro Homem, com bastante mau feitio. Mas também com o seu gosto artístico, que fazem com que, desde há muito, Mega Ferreira vá todos os anos a Itália. Não tenho a menor dúvida de que ao passar pelas praças, pelos estátuas, pelos cafés, pelas livrarias, pelos museus, pelos palácios, pelas igrejas e seus interiores ou até pela própria paisagem italiana, Mega Ferreira consiga ver e sentir coisas que os antigos aristocratas e burgueses cultivaram e que passam completamente ao lado das gordas e dos barrigudos. Porém, não vendo e sentindo essas, verão e sentirão outras. Os filhos e netos dos pobres de outrora (incluindo chineses) que poluem a Itália de Mega Ferreira, obrigando-o a semicerrar os olhos e a impedi-lo de usufruir quase privadamente dos tesouros que esperam por si, podem não ter a mesma experiência estética e intelectual do ex-administrador do CCB, mas isso não os impede de apreciar à sua maneira a catedral de Florença ou a Piazza della Signoria. Seja como for, o que depois se faz ou deixa de fazer com esses bens fica ao critério e liberdade de cada um. Também nas bancadas de um estádio não há só lugar para quem perceba muito de futebol mas igualmente para quem só veja a cor das camisolas. Num concerto de música clássica há melómanos que podem estar horas a falar sobre o que acabaram de ouvir e quem apenas goste de ouvir sem nada saber do compositor e da sua música. Dois garotos do 9ºano que namoram nos jardins da Gulbenkian jamais verão o que lá vê um arquitecto paisagista mas nem por isso deixam de apreciar o lugar e serem lá felizes. Com a a paisagem urbana e cultural italiana sucede o mesmo, e quem é de esquerda só pode ficar feliz com o acesso do povo a bens culturais em vez de ficarem em casa a ver telenovelas, debates desportivos e no Facebook a despejar likes nas fotos de quem saiu de casa para ir a Itália fazer fotos para serem vistas por aqueles que ficam em casa a ver telenovelas, debates desportivos e no Facebook a despejar likes.

E porquê de esquerda? Não é agora o momento certo para discutir o que é ser de esquerda ou de direita. Mas uma maior equidade, conseguida à custa de uma maior redistribuição da riqueza, é uma das bandeiras que melhor definem a esquerda. O que, em termos práticos, significa melhores condições de vida para todos, permitindo que, hoje, os filhos e netos de quem viveu na pobreza e num gueto social, tenha acesso aos mesmos bens que antes eram apenas acessíveis às elites ou classes médias mais abonadas. Ora, não se pode ser de esquerda e ao mesmo tempo abominar a evolução social dos filhos e netos dos pobres de outrora, graças à qual podem usufruir dos bens exclusivos que a história acabou por democratizar, tornando-os acessíveis a todos. Por isso, sendo um homem de esquerda, e tão de esquerda que até nem entra num café frequentado por gente de direita, em vez de semicerrar os olhos para intimamente abominar a companhia de quem, décadas atrás, estava condenado a ficar em casa a ver telenovelas e programas desportivos ou fazer turismo até ao café da esquina para beber minis, Mega Ferreira deveria sentir júbilo e orgulho pelo progresso social conseguido desde o fim da II Guerra Mundial na Europa e nas últimas décadas em Portugal.

Já agora, e só para terminar, o que pensará fazer Mega Ferreira quando chega a Itália, dos milhões de gordas e barrigudos italianos, estúpidos e ignorantes, que votam em Berlusconi e, à noite, assistem a uma das mais absurdas programações televisões da Europa? Impedi-los de sair de casa para irem trabalhar, às compras, ao café, ao futebol ou dar umas voltas pelas ruas, porque poluem a bela e erudita Itália, perturbando a experiência estética e intelectual do português que gostaria de poder sempre lá aterrar em viscontiano registo operático? Talvez mandá-los para Portugal em voos charter da Ryanair, desde que não ultrapassassem o perímetro da Baixa/Chiado e outras glamorosas zonas habitacionais da capital como a Lapa ou Campo de Ourique, ou cafés frequentados por intelectuais de esquerda, para poderem elucubrar sobre as suas ideias de esquerda sem serem perturbados pelo povo. Assim juntavam-se todos e só se estragava uma casa.

20 agosto, 2017

O TEMPO SUSPENSO



Dizia eu que, graças à fotografia, pintura ou desenho, a visão é, de todos os sentidos, o que mais facilmente conserva coisas desaparecidas e às quais podemos depois aceder. Mas calhou ver há dias Cristiano Ronaldo a festejar mais um golo, o que me levou a pensar no modo como os jogadores festejam golos ao longo de décadas, e que hoje podemos ver graças, não à fotografia ou pintura, mas à posse da imagem em movimento. Há diferença entre o que se pode conhecer numa imagem estática e o que já exige uma imagem em movimento. Eu vejo o fabuloso retrato de Leonardo Loredan pintado por Bellini e posso dizer que vejo o verdadeiro rosto do doge de Veneza. Olho os rostos de Rossini, Baudelaire ou George Sand imortalizados por Nadar e possuo-os como se estivessem à minha frente na sala de espera de um consultório. Vejo uma natureza morta de Caravaggio ou um arranjo floral de Heinrich Kühn e sei que é possível repeti-los agora com frutos e flores ainda vivos. E vendo a fotografia de uma rua de Paris durante a Comuna, fico a saber como era uma rua de Paris durante a Comuna.

Mas uma coisa é vermos edifícios, cidades, paisagens naturais, pessoas, peças de vestuário, interiores de casas, hábitos quotidianos como os que nos são deixados numa tela de Bruegel, Vermeer ou Hogarth, outra será ver jogadores de futebol a festejarem a marcação de golos. Sei que não é fácil mas tentemos imaginar que o cinema ainda não foi inventado. Como iríamos perceber o modo como Eusébio, José Torres, Coluna, José Augusto, Puskas, Pelé, Bobby Charlton, Beckenbauer, Cruijff ou até Maradona o faziam? Pensemos no actual movimento típico de Ronaldo: corrida veloz de braços abertos, ganhando depois balanço para um salto seguido de uma pirueta, até finalmente posicionar o corpo tenso para o libertador grito final, transformando cada relvado numa margem do Ipiranga. Trata-se de um festejo que só uma imagem em movimento poderá revelar, nunca através da congelação de um ou vários dos muitos instantes que compõem toda uma encenação estudada ao pormenor, ao contrário do que acontecia com os velhos festejos de outrora os quais eram resultado de uma idiossincrasia gestual e corporal espontânea. Nenhum daqueles jogadores o comemorou daquela maneira, não por uma questão de moda, que as há (por exemplo, jogadores brasileiros irem para a bandeirola de canto dançar samba), mas pela impossibilidade histórica de o fazer. E não me refiro apenas ao contraste espontâneo/estudado. Ainda hoje há formas de festejar espontâneas, sendo porém impensáveis alguns dos movimentos corporais daqueles velhos jogadores. Alguém dá hoje os saltos de Gerd Müller ou de Eusébio enquanto correm, esticando o braço direito para cima como se estivessem a dar murros no ar ou a libertarem-se de um pedaço de fita cola na mão? E os saltos de José Torres ou José Augusto como se estivessem numa cama elástica? Não menos interessante, é a diferença temporal entre a marcação do golo e o momento da comemoração colectiva em que os jogadores parecem abelhas numa colmeia, notando-se a tendência moderna para fazer render o mais possível a demarcação individual do jogador que marca o golo. Não podermos ver esse movimento mas apenas o instante congelado, surge assim como uma espécie de amputação de uma parte da realidade, à qual chegamos apenas por um exercício de imaginação reconstitutiva.

Ora, o que é válido para o simples festejo de um golo, é válido para todo e qualquer tipo de movimento do corpo. Por exemplo, nós lemos um romance do século XIX onde o escritor descreve o aplauso das pessoas que assistem a uma ópera, pessoas que se cumprimentam ou que se encontram num velório. Bater palmas, cumprimentar ou estar num velório são actos mais complexos do que parecem e para o entender basta pensar no modo como ainda hoje as pessoas o fazem consoante o seu contexto social. Não se batem palmas em S. Carlos como numa festa de aldeia. O movimento fúnebre dos corpos num funeral de classe média alta não é o mesmo que vemos num funeral de gente humilde. E para além do cumprimentar, poderíamos ainda falar dos actos de comer, andar, sentar, ler, falar, rir e mil e uma situações que impliquem um movimento do corpo. O cinema nasce em 1895 e, a partir daí, ainda que muito toscamente durante décadas, começamos então a poder ver a vida em movimento. Antes disso, e por muito realistas que sejam a fotografia ou a pintura, resta-nos apenas uma irrecuperável e fantasmática versão daquela. Ver pinturas ou fotografias sobre partes da vida onde há movimento, lembra-me os corpos calcinados de Pompeia ou um filme de ficção científica que vi há muitos anos, em cuja acção ocorre uma suspensão do tempo, tendo as pessoas ficado estaticamente na posição de acordo com o que estavam a fazer no momento. Como é o caso de Pelé nesta fotografia.

17 agosto, 2017

PATRIMÓNIO OLFACTIVO DA HUMANIDADE

A Festa de Babette [Fotograma]

Dos cinco sentidos, a visão é o que mais se assemelha ao acto de agarrar com a mão, de prender, sendo por isso o que melhor pode conservar sensações que vão desaparecendo ao longo do tempo. Graças à pintura ou simples gravuras, continuamos a ver coisas há muito desaparecidas, coisas tão diferentes como uma cidade medieval, peças de vestuário, um instrumento agrícola, uma burguesa sala holandesa do século XVII ou mesmo simples práticas do quotidiano como jogar às cartas ou um baile camponês no século XVI. Com os outros sentidos, bem mais evanescentes, tudo se torna mais complicado. Por exemplo, o olfacto. Nós podemos ver milhares de pinturas ou fotografias antigas reproduzindo os mais variados ambientes mas perdemos os cheiros que faziam parte da vida quotidiana de milhares de pessoas que vemos nessas pinturas e fotografias.

Mas também já estive, num museu, perante um artefacto composto por bombas de borracha iguais às das antigas buzinas, cada uma associada a um cheiro. Apertando cada uma delas saíam por uns um tubos cheiros como o da canela, da madeira, de livros antigos, da relva acabada de cortar e outros. Seria interessante, no caso de ser cientificamente possível graças a um qualquer processo químico, construir um património olfactivo da humanidade, reunindo o maior número possível de cheiros existentes numa dada realidade social e histórica. Por exemplo, quando se deixar de publicar livros e estes forem todos velhos, será possível dar a conhecer um cheiro que entretanto desapareceu como é o de um livro novo. São imensos os cheiros que já se perderam, como são imensos os que se irão perder um dia. Lembro-me de entrar num Lidl de um país estrangeiro e de sentir exactamente o mesmo cheiro que sinto quando entro no Lidl de Torres Novas. O Lidl tem, portanto, um cheiro próprio, sentido por milhares de pessoas ao longo de vários anos e que um dia irá desaparecer. Não é que o cheiro do Lidl seja assim tão importante para memória futura. Mas é um cheiro que existiu em dada altura da história e cuja identidade é tão individual e única como o do Chanel nº5 ou da lenha a arder, e que foi conhecido por muitas pessoas que irão ser vistas através de fotografias num registo puramente histórico. Um dia, haverá pessoas a ver fotografias de um Lidl ou de um folheto do Lidl mas que nunca chegarão a conhecer o cheiro do Lidl. Hoje, ainda existirá o cheiro de uma vacaria, de um chão de madeira acabado de encerar ou do sabão azul, mas quantas pessoas já nascem, vivem e morrem sem nunca terem chegado a conhecer qualquer um deles? Todas as casas têm um cheiro próprio. A casa onde vivo tem um cheiro próprio. Não é mau mas também não é bom. Não faço ideia por que o tem, de onde vem. Será com certeza uma conjugação de vários factores. Mas é um cheiro único que não conheço em qualquer outra casa, o cheiro de uma casa portuguesa da primeira metade do século XXI. Cada carro tem igualmente um cheiro tão próprio como a voz ou o rosto do seu dono. Se, numa prova cega, nos dessem frascos com os cheiros de casas ou carros que conhecemos bem, seríamos capazes logo de os identificar.

Seria pois interessante organizar museologicamente o património olfactivo através de diferentes arquivos temáticos: casas e carros de pessoas comuns, supermercados, transportes públicos, mercados, comidas, ruas, jardins ou mil e um objectos que podem ir de uma toalha de banho com vestígios de protector solar a um a candeeiro a petróleo. Pode parecer uma tarefa algo espúria ou caprichosa, mas só a quem alimenta aristotélicos preconceitos face a sentidos considerados menos nobres. Graças às gravuras da época, conhecemos hoje, visualmente, um animal há muito extinto como o dodô. Mas como seriam os sons do dodô, o sabor do dodô, a sua textura, o seu cheiro? Seriam porventura menos reais do que a sua figura dada à nossa visão? Só porque não se vê, um cheiro não é menos real do que uma cor ou uma forma. E por que não haveria de ser excitante podermos aceder ao cheiro de uma sala holandesa do século XVII ou de uma cozinha francesa do século XIX, tal como lá chegamos através da pintura? Claro que há uma nobreza teórica na visão que faz com que não seja por acaso eleito o sentido mais importante e, de todos, o último a sacrificar. Mas para percebermos como é empobrecedor conhecer a história sem nariz basta pensar no que seria viver, hoje, sem ele, e no que iríamos perder do mundo e da vida sem ele. Se, um dia, pudermos corrigir essa lacuna, será um grande feito para a humanidade, metendo o nariz onde também somos chamados, retirando à visão a exclusividade do conhecimento.

16 agosto, 2017

ADMIRÁVEL MUNDO VELHO


Peguei, há dias, num dos muitos livros de Stefen Zweig que faziam parte da biblioteca do meu pai, neste caso, a biografia de Américo Vespúcio. Não venho falar do livro mas apenas do tempo em que foi escrito e, pouco depois, traduzido e editado em Portugal.

A página com a ficha técnica do livro revela o seguinte:


STEFAN ZWEIG

AMÉRICO VESPÚCIO

TRADUÇÃO DO

DR. JOSÉ FRANCISCO DOS SANTOS

PROFESSOR DO LICEU MARTINS SARMENTO


Entretanto, o livro começa da seguinte maneira:

«De quem tirou a América o nome de América? A esta pergunta responde hoje, prontamente e sem hesitação, qualquer miúdo da escola: de Américo Vespúcio.»


Como é assombroso pensar hoje no que terá não pensado o dr. José Francisco dos Santos, professor do Liceu Martins Sarmento, ao traduzir esta frase, que eu, José Ricardo Costa, professor do Agrupamento de Escolas Artur Gonçalves, não pude deixar de pensar!

O livro foi escrito em 1941. Traduzido e editado cá em 1942. Uma pessoa que tenha nascido num desses anos tem hoje 75 ou 76 anos. A história é voraz e não falta muito para já não existir uma única pessoa viva no ano em que o livro foi escrito ou traduzido em Portugal e, mais tarde, uma única pessoa que tenha conhecido alguma pessoa viva num desses anos.