25 maio, 2017

ROTERDÃO


Uma pessoa prepara-se para comer a sopa, prova, diz que está quente e espera um pouco. Parece uma contradição, pois sendo suposto comer a sopa quente não faz sentido parar de comê-la por ser assim que está. Sabemos, porém, que dizer que a sopa está quente, significa estar demasiado quente para ser comida. Uma coisa é o sentido de "quente" associado à natureza da sopa, outra é quando adquire um sentido pragmático, significando o facto de não se poder comê-la, tratando-se, portanto, já não de um juízo descritivo mas normativo. Quando era criança, dizer que umas calças estavam rotas tinha os dois sentidos. Umas calças rotas eram umas calças rotas mas também era o mesmo que dizer que já não se poderiam usar. Pensei ontem nisto ao reparar em várias alunas na sala de aula com as calças rotas, algumas delas, mais do que rotas, com rasgões que são verdadeiras crateras. Não foi só ontem que descobri a moda das calças rota e rasgadas mas o facto de estarem a fazer um teste tornou-me mais ocioso e consequentemente, mais elucubrativo.

Para todas aquelas raparigas, o sentido físico, ou descritivo, de "roto", não só não está pragmaticamente associado a uma impossibilidade de uso como, bem pelo contrário, aumenta ainda mais tal possibilidade, uma vez que é por estarem rotas que desejam usá-las. Entretanto, dei comigo a pensar no que faria se me desse para ir para a escola também com calças rotas ou enormes crateras. Eu detesto calças rotas e não consigo imaginar-me com elas vestidas. Mas se gostasse? Para já, antecipo um enorme sucesso entre os alunos, transformando-me rapidamente em herói. Acontece que entre professores, funcionários, pais dos alunos (enfim, não todos, pelo que posso constatar) e sociedade em geral, a recepção não iria ser favorável. Porém, não haveria nada de errado nisso uma vez que o sentido de "roto" ou "rasgado" deixou de significar uma normativa impossibilidade de uso para passar a ser um conceito de moda com o respectivo sentido estético. E tanto assim é, que numa sala de aula coexistem alunos com calças rotas e sem calças rotas, não enquanto estados normativamente contraditórios mas apenas esteticamente distintos, tal como usar sapatilhas ou sapatos de vela. 

Um certo dia, entrou na sala um aluno com uma T-shirt que tinha umas letras garrafais a dizer "FUCK YOU", servindo de lírica legenda a uma mão cujo dedo do meio surgia epicamente erguido, talvez movido pelo poder sugestivo da palavra. Eu não disse nada mas admito que não me senti confortável ao vê-lo na minha aula com aquela T-shirt. Só no fim me ocorreu a ideia de que não deveria tê-lo deixado entrar na aula naquela condição mas também fui pudicamente assolado pelo desconforto de usar a minha autoridade num tempo em que a liberdade individual e uma espécie de ideologia juvenil tem um valor quase sagrado. Porém, muito diferente de um código de vestuário sem qualquer carga moralmente ofensiva, ainda que discutível, sendo o mesmo princípio válido para mim enquanto professor. Mas uma coisa são os princípios, seja ao nível da lógica, da ontologia ou da moral, outra é a realidade. E a realidade diz-me o seguinte: eu posso gostar de calças rotas, tenho todo o direito de gostar de calças rotas, de gostar apenas de pessoas com calças rotas e de só comprar calças aos meus filhos se forem rotas. Sei ainda que os alunos iriam ficar entusiasmados por me verem de calças rotas. Mas a escola, sendo uma instituição, tem os seus próprios códigos (que, aliás, não são estáticos), os quais não se compadecem com a liberdade e o gosto pessoal de cada um dos seus elementos, o que me obrigaria a abdicar da minha liberdade para respeitar aquilo que são regras básicas do senso comum. Mas se a escola é uma instituição para quem lá trabalha, não deixa também de ser uma instituição para quem lá estuda, querendo isto dizer que se não faz sentido os professores irem trabalhar de calças rotas e rasgadas, também não o deveria fazer para quem vai estudar. Agora, que se fala tanto na ideia de "comunidade educativa" (conceito que, confesso, me dá voltas ao estômago), tal igualdade comunitária deveria ser levada mesmo a sério, impedindo de entrar na escola alunos que se vestem de uma maneira que não é permitida em praticamente todos os locais de trabalho.

24 maio, 2017

UNTER DEN LINDEN AO VIRAR DA ESQUINA

Unter den Linden, 1900

Há várias coisas de que não gosto em Torres Novas mas uma das que gosto é ser uma cidade que parece uma aldeia ou uma aldeia que parece uma cidade. Eu tenho um rio que não é o rio da minha aldeia mas tenho as tílias da rua da minha escola, agora, na Primavera, que me fazem não pensar em cidades que existem para além delas: Bath, Edimburgo, Berlim, Trieste, Baden Baden, Dubrovnik, S. Francisco, Quioto, Sydney, Buenos Aires ou Marraqueche. Passar todas as manhãs por baixo delas, respirando o seu aroma até entrar na escola, faz perceber que uma cidade está longe de ser apenas o lugar onde se trabalha e se dorme. Todas as cidades têm coisas que foram inventadas para a felicidade das pessoas que lá vivem. Na minha, tenho as tílias da avenida do sítio onde trabalho, que não fazem pensar em nada. Passar debaixo delas de manhã cedo, é só passar debaixo delas de manhã cedo. E isso é tudo.

23 maio, 2017

ABRAÃO EM MANCHESTER

Caravaggio

«Não confio em pessoas que sabem exactamente o que Deus quer que elas façam.» 

Susan B. Anthony (1820-1906)

22 maio, 2017

A ADVERSIDADE DOS PRELIMINARES


Estou com um problema que passo a explicar. Eu nunca gostei dos romances de José Saramago. Tentei ler vários, mas só com dois deles consegui chegar ao fim e com grande esforço e resistência. Acontece que, após mais uma tentativa, li recentemente um outro do qual não só gostei como gostei mesmo muito. Tanto, que fiquei logo com vontade de o reler e de o inscrever na lista dos "Meus livros". O problema agora é este: Saramago é umas das minhas literárias birras de estimação mas escreveu um dos livros que mais gostei de ler. Doravante, como posso dizer que não gosto de Saramago? Mas também como dizer que gosto quando, excepto aquele, só consegui terminar dois livros e mesmo assim foi o que foi?

Imaginemos agora uma pessoa que adora os Beatles, tem os seus discos todos e até posters no quarto. Entretanto, perguntando-lhe qual a sua canção preferida do grupo inglês, diz ser o Helter Skelter, aquela que o levou a apaixonar-se pelo grupo, a que ouve mais vezes, a que escolheria para levar para a ilha deserta num MP3 só com espaço para uma canção. Ora, quando pensamos nos Beatles não é propriamente essa canção que surge como exemplo paradigmático da sua música. Porém, é tão legitimamente parte dos Fab Four, como Yesterday, Hey Jude, Penny Lane ou Let it Be. Só mais uma situação: o meu carro preferido é o Porsche 911 Carrera e o roxo uma das cores com que mais embirro. Ora, como irei reagir se vir o meu carro preferido pintado de roxo? Gosto ou não gosto do carro? O que acontece no meu espírito é "Gosto, mas,,," ou então "Não gosto, mas...".

O imbróglio surge porque a realidade tem uma natureza intrinsecamente adversativa (há sempre um "mas") que deveria levar-nos a definir as coisas por propriedades, mais centrados em acidentes particulares do que em necessárias generalidades, mas somos constrangidos a pensar com etiquetas dicotómicas como "gosto/não gosto", "bom/mau", "bonito/feio", "útil/inútil. Porquê? Porque há 2500 anos que somos gregos, há 2500 anos que vamos alimentando a nossa necessidade de ordem, unidade e coerência e também sentido prático na maneira de percepcionar as coisas. Imaginemos um homem e uma mulher durante um jantar em que é suposto seduzirem-se por entre as velas acesas. Chegado o momento de falar de literatura para mostrarem que são muito cultos e inteligentes, ela pergunta com ar meio lânguido, meio desafiador: "E... Saramago? Gosta de Saramago?" Ora, se ele responder, entre tosses, "Bem...pois... sim...enfim...quer dizer...por um lado...mas por outro..." o mais certo é os níveis de estrogénio e progesterona da interlocutora irem por aí abaixo, tendo que elegantemente disfarçar um primeiro bocejo. Em tudo, as pessoas querem, exigem, precisam de um sim ou não inequívoco, de auto-estradas mentais que lhes dêem segurança e não de atalhos e veredas onde se podem perder.

Diz Umberto Eco, por acaso não num livro chamado Kant e o Ornitorrinco mas num outro chamado A Vertigem das Listas, que pensar por propriedades é próprio de uma cultura primitiva sem capacidade de elaborar abstracções e hierarquias de géneros e espécies ou então de uma cultura muito à frente que goste de pôr em causa  definições dadas como garantidas. Ora, nós nem somos primitivos, presos a uma lógica do concreto, com os olhos dispersos no meio da multiplicidade das coisas, nem gostamos de andar a baralhar definições ou a virar de pernas para o ar a nossa rígida estrutura mental. Gostamos de simplificar, de tornar tudo objectivo e rápido. No fundo, também somos movidos por uma espécie de testosterona ou progesterona mental que nos faz olhar para o pensamento adversativo como um excesso de preliminares sem fim à vista.

21 maio, 2017

O PARADIGMA ENCONTRADO

Richard Avedon

Diz-se que a Europa está velha e cansada, que perdeu a capacidade de sonhar, de se reinventar, de pensar utopicamente, sentindo-se no ar um "eclipse do messianismo", tanto religioso como político, que a leva a cair num cinzento torpor. Um bocadinho assim como aqueles velhos casais já sem nada para fazer ou dizer e que vão diariamente assistindo à sua própria decadência. Que a Europa está velha, disso não há qualquer dúvida, não devendo, porém, ser isso motivo de vergonha mas de orgulho. Já cansada me parece uma constatação francamente exagerada. Onde muitos vêem cansaço, rotina, apatia, ruas sem saída, eu consigo ver um enorme sucesso, a conquista de grandes resultados. Sonhar? Mas sonhar com quê? Com a democracia? Mas nós já temos a democracia. Com uma sociedade sem escravatura? Sem operários e camponeses miseráveis a viverem e bairros imundos? Com educação e saúde para todos? Com liberdade religiosa, de imprensa ou de opinião? Com a emancipação da mulher? Com direitos para as crianças e serem protegidas por lei? Com uma cultura acessível para todos, seja por decreto-lei ou pelo próprio desenvolvimento da tecnologia? Com sindicatos como parceiros sociais? Com um estado de Direito? Mas como sonhar com tudo isso se abrimos os olhos para a Europa e vemos tudo isso. Isso e muito mais coisas que ainda há 200 anos eram, então sim, do domínio dos sonhos mais cor-de-rosa.

O que acontece com a Europa (ou o chamado "Mundo Ocidental") é o seguinte. Nós descobrimos o paradigma certo. Não se trata de um acaso histórico, de uma moda, de um devaneio ideológico-filosófico em regime experimental, mas do modelo mais justo, mais progressista e mais resistente às adversidades. Não significa isto que esteja tudo bem com a nossa estimada democracia liberal, que não haja problemas para resolver e que, assim sendo, fecha-se a loja pois a história chegou ao fim. Em primeiro lugar, a história nunca chegará ao fim pois onde houver dois seres humanos (que não precisam de ser um senhor e um escravo), a história irá continuar e sempre de modo imprevisível. Depois, mesmo havendo erros, problemas por resolver, anomalias e perplexidades várias, parece ser dentro deste paradigma que queremos continuar a viver e encontrar as soluções, ainda que num país como o Brasil.

Já foram feitas revoluções para implementar novos paradigmas dentro dos quais se pudesse erradicar definitivamente os problemas, construindo uma sociedade acima do meramente possível e do princípio da realidade. Sim, foram, mas não vale a pena lembrar a desgraça que foi.  A nossa «política normal», pelo contrário, é mais humilde, limitada e geneticamente imperfeita, ao contrário de ideologias eugénicas que visavam sociedades perfeitas. Mas é a única com efectivo poder para gerir a realidade em função dos seus condicionalismos. Não é um projecto romântico? Não, não é. Excita torrentes e ímpetos ideológicos em libidinosas consciências? Também não. Faz-nos sentir no meio de uma daquelas extáticas subidas ao céu da pintura barroca? Nem pensar. Até por isso deveríamos não falar em cansaço, sentindo antes, em vez disso, uma orgulhosa, embora prudente serenidade. Os outros, esses sim, cansam-se depressa, nascendo e morrendo velozmente no meio dos seus destroços, enquanto a velha Europa, com ou sem  bengala, ou até mesmo com alguns tropeções que podem originar entorses. lá vai dando os seus passeios de domingo, sem ter de se preocupar muito com o que vai acontecer na segunda-feira de manhã.

20 maio, 2017

ALBRECHT DÜRER- CRISTO ENTRE OS DOUTORES


Lucas não nos diz grande coisa sobre o encontro de Jesus, ainda criança, com os doutores. Do que verdadeiramente interessa, apenas isto: “Volvidos três dias, encontraram-n’O no Templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos quantos O ouviam estavam estupefactos com a Sua inteligência e as Suas respostas”.

Ainda assim, como de resto em inúmeros episódios bíblicos breves, há muitas representações artísticas deste encontro, os quais se limitam a exprimir literalmente o sugerido no texto: um debate, uma conversa, uma discussão entre um jovem e um grupo de adultos. Mas o que Dürer faz é diferente: ninguém fala, discute, argumenta. Nada acontece, apenas uma amálgama de rostos e de mãos. Não há comunicação, interacção, perguntas, respostas. Jesus está bem no meio dos doutores mas, ao mesmo tempo, ausente, com um olhar evasivo. Os doutores, por sua vez, exprimem diferentes estados: desconfiança, perplexidade, arrogância. Mas nada de diálogo. Arriscaria dizer que, ao retratar os doutores, o pintor alemão estaria a pensar naqueles cães que encontram um outro e começam a farejá-lo para o estudar. O que os doutores fazem é apenas farejar aquele jovem imberbe, de olhar limpo e expressão inocente. Onde estão aqui as referências dadas por Lucas? Ninguém ouve ninguém. Jesus não faz perguntas, não responde, não revela a sua inteligência. O mesmo se passa com os doutores. Estará o pintor Dürer a deturpar ou desprezar grosseiramente o que se encontra em Lucas para fazer um exercício completamente livre?

Não, pelo contrário. O que Dürer pretende mostrar é o que verdadeiramente se passou naquele momento entre Jesus e os doutores: nada.  Ora, não mostrando nada do diálogo, do debate, das perguntas e respostas, acaba por mostrar o mais importante: dois níveis de realidade jamais coincidentes. Se pudéssemos geometrizar esta imagem, reduzi-la o mais possível a uma pura abstracção, em vez desta aglomeração de rostos iríamos ficar com duas linhas paralelas que, por muito próximas que se encontrassem, jamais se iriam encontrar. Jesus representaria uma linha, os doutores a outra linha, separadas até ao infinito. Frente a frente mas distantes, como dois países vizinhos mas cuja fronteira delimita claramente dois sistemas, duas línguas, duas culturas. Não há aqui qualquer diálogo entre Cristo e os doutores porque, apesar de Lucas sugerir um diálogo, Dürer entendeu, e muito bem, tal não existir. Ou haver apenas uma aparência de diálogo. Os doutores reflectem, pensam, estudam, analisam, tentam decidir, tomar opções. Têm nas suas tortuosas cabeças séculos de sabedoria que parece querer soltar-se dos livros entreabertos. Mas na cabeça daquele menino nada disso existe. Naquela cabeça sucedem-se apenas estranhas parábolas, metáforas cuja evidência reduz a pó todos aqueles quilos de sapiência e erudição.

Cristo não precisa de pensar. E não precisa de pensar pois, como muito bem entendeu Pascal que, por sinal também era matemático e, tal como aqueles doutores, possuía a sapiência própria do seu tempo, o coração tem as suas razões que a razão jamais entenderá. Pois, por muito que se esforce, a razão jamais entenderá o essencial, aquilo que só se compreende quando nada se quer explicar, pois o que melhor se compreende é precisamente o que não precisa de ser explicado. A simplicidade das metáforas e parábolas de Cristo só fazem sentido para os pobres de espírito que pensam com o coração. Os doutores são demasiado complicados, tortuosos e o reino deles não é o do límpido céu mas o pedregoso e sinuoso reino da Terra, no qual será sempre preciso pensar para se poder sobreviver e não se perder. No reino dos céus vive-se, no reino da Terra sobrevive-se. E quem vive num dos mundos nada terá para dizer a quem vive no outro, pois não existem dicionários para traduzir a língua do céu para quem vive na Terra, e a língua da Terra para quem vive no céu.

Eis, pois, porque nesta cena montada por Dürer, o verdadeiro ar que se respira é o silêncio, a incomunicabilidade. Se virmos bem, ainda há dois pares de mãos que se chegam a tocar, ou seja, há ali um vislumbre de contacto, de comunicação, de um pequeno e subtil diálogo gestual. Mas não passa de uma ilusão. Se virmos mesmo bem, percebemos que as mãos do menino estão mais em contacto entre si do que com as mãos do doutor. E as mãos do doutor, ao mesmo tempo que parecem caminhar para as mãos de Jesus, como se quisessem agarrá-las, acabam por falhar a aproximação. Até porque o doutor olha em frente. Como se nem desse sequer pela presença do jovem que ali se encontra. E  o mesmo acontece com todos os outros. Poderíamos cortar esta tela em sete partes distintas. E ficaria tudo na mesma. Poderia ser uma cena de um filme de Antonioni.

18 maio, 2017

CEGUEIRA LOGOCÊNTRICA

Alfredo Cunha

Nunca um católico me provocou, me criticou ou me tentou converter, mostrando qualquer tipo de superioridade face ao meu ateísmo. Dizendo isto, talvez pareça estranho eu vir agora dizer que compreendo aqueles que ridicularizam a fé e o sentimento religioso, sobretudo o de cariz mais popular. Mas compreendo e por duas razões. Uma delas é eu próprio já ter feito o mesmo. A segunda, ligada à primeira, por facilmente se cair na tentação de um sentimento de superioridade positivista, sustentado numa ligação entre a experiência e razão, a qual ilumina o mundo, tanto físico como humano, em oposição às trevas da crença, da superstição, da ignorância.

Compreendo mas não posso aceitar. É verdade que continuo a não perceber a fé e a relação com o sobrenatural mas percebo o seu valor e utilidade para milhões de pessoas, mesmo que vá contra a minha noção de verdade, já para não falar na liberdade de cada um em acreditar no que bem entender. Daí a minha visão crítica dos que criticam e atacam manifestações de fé, seja cristã, seja mais especificamente católica ou mais especificamente ainda mariana, ao mesmo tempo que são incapazes de atacar manifestações de fé em culturas sem qualquer ligação com a nossa. Alguém imagina um desses críticos, tentando, algures na Amazónia, no meio de uma tribo africana ou até mesmo numa viagem à Índia, Marrocos ou Irão, demover as pessoas das suas crenças e rituais? Não só não o fará como até poderá encarar com algum encanto etnográfico tais manifestações e tentando respeitar a sua cultura.

Como explicar então esta tolerância e compreensão face a tais manifestações de "ignorância" e "obscurantismo"? Ora, parecendo bonitas e nobres, não deixam de ser perversas. Nós toleramos a crença ou o ritual de um índio da Amazónia e não aceitamos a crença ou o ritual de um católico porque a nossa cultura é sentida como superior, encarando-se como mácula tudo o que ponha em causa tal superioridade. Já para o índio da Amazónia devemos olhar como se olha para uma criança que acredita no Pai Natal ou em fadas, aceitando-o com uma condescendência paternalista. Uma cegueira logocêntrica que não deixa ver o facto de haver fragilidades universais que, independentemente da cultura, estão na origem do mesmo tipo de crenças e necessidades às quais todos nós temos direito.

17 maio, 2017

O PODER DA REALIDADE



"When things move, I get interested" Garry Winogrand

Num excelente livro sobre Espinosa, o filósofo francês Gilles Deleuze apresenta-o como alguém que propõe um novo modelo: o corpo. "Não se sabe o que pode um corpo", eis a famosa frase da Ética, obra onde o corpo é pensado e valorizado de um modo como até então ainda não se tinha visto. E remata com Nietszche para mostrar todo um território que, embora debaixo dos nossos olhos, está ainda por explorar e valorizar: "Espantamo-nos diante da consciência, mas o que é surpreendente é, acima de tudo, o corpo". E pronto, chega de citações.

Estive a rever as fotografias de Garry Winogrand e sem querer lembrei-me de Espinosa. Neste caso, não para dizer que "não se sabe o que pode um corpo" mas para dizer que "não se sabe o que pode a realidade". Winogrand é um fotógrafo da rua, mas não da mesma rua, e só para dar alguns exemplos, de Doisneau ou Elliot Erwitt, irmãos na construção de um humor encenado, de Lewis Hine ou Dorothea Lange, Weegee, Walker Evans, fotógrafos que vão à procura de um tipo específico de actores sociais, ou de Cartier Bresson, Brassäi ou do nosso Gérard Castello Lopes, em cujas fotografias de rua encontramos, para além do "instante decisivo", uma indisfarçável depuração estética. É verdade que existe "instante decisivo" em Winogrand mas trata-se de um "instante decisivo"mais humilde, no sentido em que se dirige para um domínio ainda mais sub-atómico e invisível do real, um domínio que aparentemente não existe para ser visto.

Uma reacção imediata perante a sua fotografia poderá ser "Caramba, mas que raio há aqui de tão especial e digno de ser visto?", reacção normal por vermos apenas o que estamos habituados a ver, sendo escandalosamente familiares. Dará até vontade de dizer a clássica frase perante a simplicidade de muitas pinturas modernas: "Grande coisa, isto também eu fazia!". Mas as coisas são um pouquinho mais complicadas. Se qualquer pessoa sair para rua e começar a disparar a torto e direito, o resultado não será muito provavelmente interessante pois não basta fotografar o que aparece espontaneamente para que tal aconteça. Para que o "instante decisivo" aconteça, é precisa uma feliz e única conjugação de elementos, ainda que simples e aparentemente desinteressantes. Diz Winogrand que se interessa por tudo o que mexe. Mas há mexer e mexer. No seu caso, trata-se de registar momentos únicos, num espaço e tempos certos, impedindo a sua submersão na espuma dos dias. O que pode a realidade? Nunca se sabe o que pode a realidade. Julgamos conhecê-la mas estamos já tão viciados nela que deixamos de a ver. E o que o fotógrafo faz é precisamente obrigar-nos a ver o que já deixámos de ver e a fazer-nos sentir ainda espanto com o que pode a realidade, como seu infinito fluxo que torna inesgotável o seu poder. 

11 maio, 2017

O CHAPÉU DE CHUVA


Ontem telefonou-me o meu filho a pedir para ir buscá-lo à biblioteca, pois tinham-lhe roubado o chapéu de chuva e estava a chover torrencialmente. Pronto, não há crise, não passa de um chapéu, tive de sair de casa sem estar à espera mas é coisa que já lá vai. 

Já lá vai mas continua a interessar-me o que acontece na cabeça de uma pessoa no preciso momento em que está a roubar o chapéu de chuva de outra. O motivo não é difícil de perceber. Está a chover torrencialmente, a pessoa deseja (ou precisa mesmo) de sair da biblioteca, sabendo que, sem o chapéu de chuva irá ficar ensopada. Olha então para o recipiente repleto de chapéus de chuva que se encontra à saída e resolve pegar num para ir à sua vida, satisfazendo assim o seu desejo. Agora, há duas possibilidades. A primeira, é no momento em que rouba o chapéu estar tão concentrado em satisfazer o seu desejo que nem se apercebe de que por causa disso uma outra pessoa irá ficar sem poder satisfazer o seu, para já não falar no facto de o chapéu ser propriedade desta. A segunda, é ter consciência disso no momento em que rouba o chapéu.

Se for o caso desta segunda, o mais certo é ter acontecido o seguinte: vê uma multidão de chapéus no recipiente, sabe que os chapéus pertencem às pessoas com quem ele partilhou o mesmo espaço mas não relaciona o chapéu com a pessoa à qual pertence. Sabe que faz mal mas não sabe a quem está a fazer mal, o que facilita bastante a sua acção. Não significa isto que não ver o rosto da pessoa a quem se faz mal seja condição necessária para o fazer. As pessoas que apontam uma faca a outras para lhes exigir a carteira ou os carteiristas que no autocarro metem a mão no bolso das vítimas, sabem perfeitamente quem estão a roubar e não é por isso que deixam de o fazer. Quando o mal tem de se soltar, solta-se em qualquer circunstância e de qualquer maneira. Mas também é verdade que pessoas haverá que também só fazem o mal porque a vítima não passa de uma abstracção. Não meto as mãos no fogo por ninguém, mas sei que haverá pessoas que não iriam roubar o chapéu a alguém que tivesse estado sentado numa mesa em frente da sua durante várias horas, mas já o farão se o chapéu não tiver rosto, nome, voz, em suma, uma identidade.

Diz Adam Smith [The Theory of Moral Sentiments] que não dormiríamos toda a noite se soubéssemos que no dia seguinte iríamos perder o dedo mindinho . Porém, se houvesse um terramoto na China que engolisse 100 milhões de chineses, ficaríamos chocados mas, passado o choque, não seria coisa que nos tirasse o sono. O nosso dedo é o nosso dedo, 100 milhões de chineses são 100 milhões de chineses. A minha dor é real, vívida e afecta o meu bem-estar, enquanto 100 milhões de chineses não passam de uma vaga abstracção. Daí a pertinência do género de exercício feito por Balzac no Père Goriot ou por Eça em A Relíquia: se soubermos que, neste momento, a morte de um qualquer chinês lá na longínqua China nos iria resolver uma forte dor no dedo ou permitir ganhar milhões de euros, iríamos aceitá-lo? Muitas pessoas normais, isto é, pessoas incapazes de o fazer se vissem fotografias ou conhecessem pessoalmente o chinês que iria morrer, iriam aceitar. Sim, a morte de uma pessoa é uma tragédia mas a morte de milhões não passa de estatística. Ainda assim, há quem não se preocupe particularmente com essa distinção, desde que a tragédia de quem morre sirva os seus interesses e desejos. Porém, a maioria da humanidade é antes potencial cliente do perfil anterior. No caso de ontem, na biblioteca de Torres Novas, felizmente tratou-se apenas de um chapéu de chuva.

10 maio, 2017

A BLASFÉMIA


André Kertész

Blasfémia é coisa grave, sendo isso compreensível até para um ateu do descristianizado mundo ocidental que pode não se sentir ofendido mas compreende o facto de haver quem se sinta. Difícil de compreender já será uma acusação de blasfémia como esta, só por alguém considerar errada a interpretação de um versículo do Alcorão. Difícil, porque nos habituámos a ver o erro como estado normal de quem arrisca interpretar, explicar, pensar, entendidos como exercícios especulativos.

Uma pessoa defende a tese de que todos os cisnes são brancos. A partir daí, sempre que vê mais um cisne branco convence-se ainda mais que se trata de uma tese verdadeira. Observar o mundo torna-se assim num exercício de procura de mais e mais cisnes brancos que a confirmem. Vejamos agora outra pessoa que defende a mesma tese: todos os cisnes são brancos. Porém, sabe que observar mais um, dez, cem ou mil cisnes brancos não dá quaisquer garantias de que a tese seja verdadeira. Algures, poderão estar cisnes não brancos dos quais não há ainda registo. O que faz ele, então? Em vez de ir à procura de mais um cisne branco, que nada garante, vai fazer o possível para encontrar o cisne não branco, o qual, se for encontrado, dá-nos uma absoluta garantia: estávamos errados. Trata-se de um exercício auto-destrutivo ou masoquista? À primeira vista parece que sim, pois de acordo com o senso comum e uma intuição mais básica, quando alguém acredita numa coisa faz os possíveis para mostrar que tem razão. Neste caso, faz-se o contrário, a pessoa acredita que todos os cisnes são brancos mas depois vai tentar provar que está errado. A vantagem é inegável para quem procura a verdade: fazer com que as nossas ideias sejam postas à prova, fiscalizadas, confrontadas com critérios objectivos que estão acima das nossas crenças. Se estiverem erradas, deitamo-las fora, devendo nós ficar satisfeitos por nos livrarmos delas. Se resistirem às diferentes tentativas de falsificação isso pode ser um bom indicador, devendo assim continuar em cima da mesa, enquanto nada surja que as refute.

O que acabo de dizer é uma síntese muito rápida e elementar do falsificacionismo de Karl Popper, uma proposta de metodologia científica e não a identidade de uma cultura. Seria, pois, uma patetice dizer que este é o registo mais comum da nossa cultura ocidental. Mas é nesta mesma cultura ocidental, começando na Grécia Antiga, passando pela universidade medieval (muito mais estimulante do que nos quiseram convencer), continuando no nascimento da ciência moderna, dos diferentes iluminismos (vá, esqueçamos Robespierre, Marat, Lenine, Mao Tsé Tung ou Maria de Lurdes Rodrigues, esses filhos espúrios das Luzes) e mais tarde do pensamento liberal, que vamos encontrar a arte da discussão, do diálogo, do pensamento livre, de uma genuína procura da verdade, a qual inclui o erro como momento inevitável e até estimulante. Nós, europeus, somos filhos desta tradição, daí a nossa enorme estranheza perante aquela bárbara (tanto no velho sentido romano como no actual) acusação de blasfémia.

09 maio, 2017

DESOLADORA DOENÇA

Mimmo Jodice, Rosto de estátua, Erculano

«Que desoladora doença [fascheuse maladie] acreditar que estás tão certo que te convences a ti mesmo que ninguém pode pensar o contrário». Ensaios, Livro I, capítulo 56

Eu gosto de Montaigne. Lembra-me aquele Platão de vigor socrático a provocar sofistas sabichões, a juvenil frescura de uma dúvida metódica não contaminada por piruetas escolásticas que envelheceram Descartes. Não percebo por que razão se associa o cepticismo a crise. Eu associo o cepticismo a um eterno ponto de partida que nunca chega a um ponto de chegada. Isto não é crise. É viver de olhos sempre abertos.

08 maio, 2017

SELVAGENS E SENTIMENTAIS


As capas de hoje do Público e do Correio da Manhã formam uma estrutura geométrico-conceptual bastante interessante. A fotografia central do Correio da Manhã, em grande destaque, é dedicada à vitória do Benfica em Vila do Conde. No canto inferior esquerdo, quase despercebido, informa que Macron ganhou as presidenciais. A fotografia central do Público, em grande destaque, é dedicada à vitória de Macron nas presidenciais. No canto inferior esquerdo, quase despercebido, informa que o Benfica ganhou em Vila do Conde. 

Se um ser vivo inteligente e racional acabasse de chegar de outro planeta e a primeira coisa que visse fossem estas duas capas, iria ficar confuso sobre o sentido da realidade. Tal aconteceria por não saber que não se tratam apenas de dois jornais mas de dois jornais lidos por pessoas com interesses diferentes. Todavia, não estão condenadas a uma diferença radical. Muitos dos leitores do Público, ao irem ao futebol, transformam-se no que são os leitores do Correio da Manhã, tornando-se, como diria Javier Marías, selvagens e sentimentais. Os segundos, incluindo os leitores dos "Correios da Manhã" ingleses, alemães, italianos ou polacos, são mais desleais do que os primeiros. Quando se interessam por politica continuam a ser tão selvagens e sentimentais como o são num estádio de futebol. Tal pode ajudar a explicar a razão por que é perigoso o futebol mas também por que é a política ainda mais.

06 maio, 2017

FORA DE JOGO

Alfred Eisenstaedt

Acontece comigo e creio que acontecerá com a maioria das pessoas. Se estiver perante uma televisão com 500 canais e, por mero acaso, for parar a um jogo de futebol entre os 9º e 14º classificados do campeonato búlgaro, ou a um jogo de andebol entre duas equipas finlandesas de juvenis, irei considerar que não têm interesse absolutamente nenhum e mudo de canal ou desligo a televisão. Mas se por qualquer razão resolver continuar a ver qualquer um desses jogos, não serei capaz de o ver sem tomar partido por uma das equipas. Ao fim de dois minutos já estou a torcer pela minha equipa preferida, da qual nunca tinha sequer ouvido falar. Qual o critério? Podem ser muitos: gostar mais da cor da camisola, ter um nome mais simpático, achar o treinador com um ar simpático, ao contrário do do outro, com ar arrogante e cuja cara me faz lembrar um colega de trabalho que detesto, estar atrás na classificação e eu gostar de tomar partido pelos mais fracos. Enfim, a lista poderia continuar.

Há equipas portuguesas e estrangeiras cujas vitórias me põem contente e desiludido se perderem. Tal pode acontecer só porque calhou ter um dia passado numa cidade da qual gostei e onde fui muito bem tratado num restaurante. Eu gosto do Hannover 96 e do Werder Bremen porque tenho boas recordações de juventude dessas cidades. Não gosto do Bayern de Munique porque sempre me relacionei com alemães do norte, habituando-me a olhar para os do sul com um certo protestante e prussiano desdém. Eu gosto da selecção da Costa do Marfim só porque já lá tive família, recebi postais do país para a minha colecção, habituando-me a uma certa familiaridade com o nome "Côte d'Ivoire", ajudado talvez pelo facto de eu também me chamar "Costa". Desde que conheci um tipo do Mali que era uma jóia e simpatia de pessoa, que passei a olhar para o país de outro modo. Se o Mali jogar contra o Gana, a Zâmbia ou o Egipto, a minha escolha não irá ser difícil. Mas nem é preciso tal acontecer. Eu não tenho qualquer ligação à Holanda, Argentina, Uruguai, Suécia ou Argélia. Mas se houver jogos entre as suas selecções, irei sempre preferir umas a outras, vá-se lá saber no momento porquê. Quando era novo, num Holanda-Argentina torcia pela Holanda, hoje torcerei pela Argentina. Os países são os mesmos, tal como Benfica ou o Porto serão sempre os mesmos, independentemente das mudanças casuais que neles poderão ocorrer, para melhor ou pior.

Agora, o que se passa com isto é também muitas vezes o que se passa com as preferências políticas de grande parte das pessoas. Há pessoas politizadas e com uma consciência social e política consistente, sabendo bem porque preferem o partido ou candidato A em vez do partido ou candidato B. Porém, muito provavelmente não é isso que acontecerá com a maior parte das pessoas. Acontecerá com elas o mesmo que a mim quando vou parar a um canal onde passa um jogo entre os 9º e 14º classificados do campeonato húngaro: ou não querem saber e desligam, ou então tomarão partido pelos mais espúrios e elementares motivos.

03 maio, 2017

JINGLE ALL THE WAY


Há muito que sou uma vítima de earworms, essa repetição compulsiva de frases musicais que invade por vezes as nossas desprevenidas cabeças. Pensando assim de repente, a minha pessoal contaminação vai desde a voz do Joe Dassin a cantar o refrão de Champs Élysées aos primeiros acordes da 4ª Sinfonia de Brahms ou ao viciante ostinato da 7ª Sinfonia de Chostakovitch, passando pelo Kashmir dos Led Zeppelin ou One of These Days dos Pink Floyd. Por causa da complexidade neurológica e cognitiva do fenómeno, Oliver Sack prefere chamar-lhes brainworms. Percebo o sentido mas digo já que não me parece boa ideia. Se reduzirmos os earworms a brainworms, como é que vamos poder depois classificar o impacto mental de tantas ideias que não passam de uma repetição automática e compulsiva de lugares comuns, soletradas mecanicamente como frases musicais? Tal como na música, onde o poder sonoro da frase musical se cola à mente como uma lapa à rocha, também o inebriante e hipnótico poder das ideias a elas nos prende com grossas e rijas cordas, ideias que têm o mesmo valor de jingles publicitários que já não abandonam as nossas permeáveis cabeças. Daí considerar útil a distinção entre earworms e brainworms. Pode ser desagradável querermo-nos libertar em vão de um som, mas é inofensivo. Já com ideias coladas às paredes cariadas dos nossos pensamentos pode ser mais pernicioso. O software cerebral é frágil e o que não falta neste mundo são hackers com sofisticados vírus para nos infectar.

01 maio, 2017

ALEA JACTA EST


Tendo-lhe sido pedido um daqueles conselho para a vida, Grouxo Marx, perante tão séria e profunda questão, só poderia dar uma resposta hilariantemente marxista, embora dita, imagino eu, com sussurrante gravitas para poder torná-la ainda mais hilariante: «Examina sempre os dados».

Encaixa bem em todos aqueles (no fundo, todos nós) que, 2500 anos depois, ainda não entenderam o célebre fragmento onde Heraclito, com a sua obscura clareza, explica que o tempo é o reino de uma inocente criança movendo as peças de um jogo.

30 abril, 2017

OS PARALELEPÍPEDOS



Sinceramente, não vejo grande surpresa na resistência de Jean-Luc Mélenchon em indicar o seu sentido de voto a Macron, podendo com isso dar o seu pessoal e político contributo para derrotar uma candidata de extrema-direita, nacionalista e xenófoba. Para ajudar a entender a sua posição, irei recuar no tempo, até à Exposição Universal de Paris, de 1937, para me deter nos pavilhões da Alemanha e da URSS. Calma. Sei que não sou imune a desvarios mas não irei desvairar ao ponto de considerar Mélenchon um inveterado bolchevista e de projectar uma ditadura do proletariado em França, nem olhar para Marine como uma nazi clássica, suspirando por um Reich francês e divertindo-se a imaginar refugiados e emigrantes em vagões da SNCF rumo a câmaras de gás em Lille.

Eu só quero mesmo ficar-me pelos pavilhões como reflexo arquitectónico da visão do mundo e estrutura mental dos dois candidatos. Estes dois volumes em forma de paralelepípedo mostram ao mesmo tempo uma hierática e mesopotâmica solidez e verticalidade assim como uma simplicidade linear da qual estão ausentes quaisquer subtilezas decorativas. Surgem ali, na Paris dos anos 30, bem perto de outros pavilhões, como dois falos bem erectos para furar o mundo e engravidá-lo com a sua força e ambição. Não interessa se o mundo o deseja ou não ou se está preparado para engravidar deles. Mas que importância tem a vontade do mundo perante a objectiva racionalidade e o superior ideal daqueles projectos? Mélenchon não será bolchevista nem Le Pen nazi. Mas tanto às 4 da tarde, bem acordados, como sobretudo às 4 da manhã, mergulhados nos seus sonhos, nutrem ambos uma aversão pela democracia liberal, a democracia "dos interesses", revelando uma dificuldade óbvia em aceitar os seus limites, as suas contradições, o seu pluralismo, as cedências que todos terão de fazer para que partes opostas possam viver de acordo com o princípio da realidade, isto é, mais como um jardineiro que, de tesoura na mão, sabe bem como tornar o jardim razoavelmente habitável, do que como um botânico no seu escritório vivendo de teorias e de princípios.

No interior daqueles dois paralelepípedos, geometricamente perfeitos, é possível anular todas as contradições do mundo real como as que opõem liberdade e igualdade ou liberdade individual e interesses colectivos. É simples. Já Platão o havia feito na sua República, Rousseau com a sua Vontade Geral, Hegel com o seu Estado prussiano, indo esta tradição desaguar nos já bem recentes comunismos e fascismos do século XX. Basta confundir os interesses do indivíduo com os interesses do Estado ou do povo. Quanto mais forte e autêntica for a corrente mais fortes serão os seus elos, quantos mais presos os elos estiverem à corrente mais esta se fortalecerá para fortalecer ainda mais os seus elos. Não, não estou a imaginar Mélenchon ou Le Pen a projectar nos Campos Elísios aquelas ordenadas e espartanas massas humanas de Nuremberga ou Moscovo, perante os olhares triunfais de uma Führer de saltos altos ou de um Czar vermelho com casaco trotskista. Mas não me custa nada perceber a sua dificuldade em olhar para uma França, e quem diz a França diz outro país qualquer, sem atender à imperfeição do que é contingente, único, efémero, irrepetível, relativo, do "fluxo e refluxo das diferenças que fazem cada momento" (Isaiah Berlin), dos interesses de cada grupo social ou de cada indivíduo, em suma, a textura de que é feita a própria realidade, em vez de um projecto social e político sem espinhas.

Falta a Mélenchon e a Le Pen, o sentido da realidade enquanto critério de governabilidade, uma imaginação criativa que permite abrir o corpo do doente para que, mesmo sem o curar, possa viver com alguma qualidade e dignidade. Para isso é necessário ter mãos delicadas, paciência, estar mais preocupado em gerir, com sensatez, prós e contras, em vez de atirar o bisturi ao chão para deixar morrer o doente na esperança de o conseguir ressuscitar bem mais firme e hirto, graças a uns pozinhos demagógicos e populistas, enfiados pelo nariz adentro. Mélenchon e Le Pen podem odiar-se e verem-se como rivais mas são feitos da mesma massa, falam a mesma linguagem, vivem dos mesmos sonhos, rejeitam as mesmas chatices e imperfeições que os outros políticos, também eles sumamente imperfeitos e comendo um prato que nem é carne nem peixe, têm para gerir de segunda a sexta-feira. Mélenchon presumirá que Le Pen não irá ser presidente mas, fosse-o ela, e sentir-se-ia a viver no seu próprio mundo, num feliz regresso ao preto e branco do século XX, onde o velho Mani fez um enorme sucesso mas onde acabou por ser o centro a vencer, o mesmo centro que, com as suas imperfeições e erros, fez a União Europeia ou a moeda única. Uma vitória de Le Pen seria por isso, também, uma vitória de Mélenchon, a vitória de dois mundos ressuscitados, dois mundos feitos da mesopotâmica rigidez de dois sólidos paralelepípedos, bem mais sólidos do que o frágil e transparente vidro de que são feitos os modernos edifícios de Bruxelas e de outros capitais europeias mas nos quais grande parte da humanidade gostaria de poder viver e trabalhar.

29 abril, 2017

ACHADOS SEM PERDIDOS

Adelino Lyon de Castro | Sem Destino


É muito curioso o uso do verbo "perder" para referir, por exemplo, um filme que não se viu ou outra coisa qualquer considerada um bem, com valor, e que nos passou ao lado, por não conhecermos ou por falta de oportunidade para a ver. Mas será que, na verdade, se perde mesmo alguma coisa? Não, pois só se perde aquilo que se tem, nunca o que nunca se teve. Perde-se, sim, a carteira, um bilhete de autocarro que se comprou ou até um filho num centro comercial. Também uma pessoa que cegou perdeu a visão assim como as coisas que a visão lhe permitia ver. Mas não é correcto afirmar que se perdeu um filme que nunca se viu ou aquilo que nunca se teve.

Dir-se-á que a ideia de perder não é bem essa. Que "perder", neste caso, é perder a oportunidade de ver uma coisa que ganharíamos em ter visto. Não é factual, como no caso do livro ou da carteira, mas normativa: a pessoa não perdeu uma coisa que viu mas uma coisa que deveria ter visto. Ora, é neste sentido que dirão que se pode perder um filme: o filme que não podemos não ver, uma vez que não o ver tem a mesma carga negativa de perder um bem que se teve. Ainda assim, não me sinto convencido. E se os pais do realizador do melhor filme de 2016 não se tivessem conhecido? E mesmo tendo-se conhecido, dando origem à pessoa que realizou o melhor filme de 2016, mas tivesse este sido pintor, escultor ou apenas actor? E se mesmo como realizador não tivesse convencido o produtor a entrar com dinheiro para o filme? Ou se tivesse pensado noutro projecto qualquer? Neste sentido que há milhões de coisas que nunca chegaram a existir por não chegar sequer a existir as pessoas que poderiam tê-las criado. Ou porque tendo existido as pessoas, criaram outras, as que conhecemos, em vez dessas que poderiam ter sido mas acabaram por nunca chegar a ser. E será que Fritz Lang, Billy Wilder, François Truffaut ou Ingmar alguma vez sentiram a falta do melhor filme de 2016? É verdade que morreram muito antes de 2016 e, mortos, não podem sentir a falta do que quer que seja. Mas falo do tempo em que estavam vivos, do mesmo modo que, estando eu vivo agora, não sinto qualquer falta dos filmes que irão ser feitos em 2018 ou em 2026, no caso de ainda estar vivo na altura.

Nós vivemos num labirinto feito de milhões de salas por onde vamos circulando, das quais, porque somos finitos, só iremos conhecer algumas. O que existe em cada uma delas é contingente e, muitas vezes, a realidade de uma sala onde por acaso entrámos é completamente distinta da realidade de uma sala onde por acaso não entrámos. Não há uma lógica, uma racionalidade, uma organização prévia no labirinto. O caos sobrepõe-se à ordem, a contingência à necessidade, a indeterminação à previsibilidade. O que vamos fazendo ou deixando de fazer é puramente arbitrário e nada é mais importante do que nada. Daqui a 50 anos irão certamente ser escritos grandes livros que as pessoas da minha idade nunca chegarão a ler, não sentindo agora a sua falta, do mesmo modo que Eça nunca sentiu a falta do cinema francês ou Camilo a falta da música de Bela Bartok. Importante, sim, é fazer alguma coisa, fazendo do que fazemos o que é verdadeiramente importante. Tudo o resto faz parte de outras salas nas quais passarão muitos outros que não passarão nas nossas. Se, por qualquer acaso, ainda vier a ver o melhor filme de 2016, poderei ter razões para dizer que o ganhei. Se, por qualquer acaso também, não vier mesmo a vê-lo, jamais irei sentir que o perdi.

26 abril, 2017

MIL IMAGENS

[Yad Vashem, Jerusalém]

Vai haver um dia em que já não estará viva uma única pessoa das que morreram em Auschwitz e que poderia ter tranquilamente morrido de velhice no sossego do lar ou de um hospital se não tivesse existido nazismo nem holocausto. Nesse dia, para o qual pouca falta, Auschwitz passará a ser um simples dado histórico, desligado do nosso tempo, entrando no enorme conjunto dos dados históricos dos quais há muito nos desligámos. O EL PAÍS de hoje junta um sobrevivente do bombardeamento de Guernica com descendentes de alemães que nele intervieram. Irá também haver um dia em que já não existirão pessoas que sofreram o bombardeamento nem descendentes directos dos seus responsáveis, apenas descendentes de descendentes de descendentes. Também nesse dia os fervores morais que ainda suscita, transformar-se-ão definitivamente numa página de um livro de história, nalguns casos, num parágrafo, com um bocado de sorte acompanhada de uma imagem com casas destruídas, noutros ainda, numa simples nota de rodapé.

Dirá o DN, também de hoje, que Guernica, o quadro pintado por Picasso, continua actual. Ao dizer-se isto, alimenta-se a ideia de que a arte salvará a realidade do esquecimento. Guernica, o bombardeamento, pode ter sido há 80 anos mas cá está o quadro, sempre vivo, pujante, brutal, para nos inquietar, interpelar, fazer lembrar o horror da guerra, de qualquer guerra. Claro que Guernica, o quadro, continua actual, como actual continuará qualquer obra de arte que expresse o que nunca deixará de ser actual, como é o caso da guerra, uma eterna campeã de actualidade. Mas isso não passa de uma ilusão. O mundo das imagens , seja na pintura, no cinema ou na fotografia, pode interpelar-nos moralmente, fazer o seu cívico trabalho mas isso está muito longe de apontar para a verdadeira essência trágica de certos acontecimentos sórdidos como foram  o holocausto nazi ou o bombardeamento da pequena cidade basca. Como diria Nietzsche em A Origem da Tragédia, «O artista plástico está mergulhado na pura contemplação da imagens. A própria imagem de Aquiles encolerizado é para ele [artista plástico] apenas uma imagem, cuja expressão de cólera ele frui com aquele prazer onírico na aparência - de tal como que, por meio deste espelho de aparência, ele está protegido contra a unificação e fusão com as suas figuras».

Daqui a 50 anos, o bombardeamento de Guernica terá sido há 130 anos. Daqui a 50 anos, o holocausto nazi terá sido também à volta disso. O horror do quadro, como o horror de alguns filmes ou documentários que vimos sobre o holocausto, será cada vez mais um horror apolíneo: depurado, distante, estilizado, pacificado, para ser contemplado por uma alma que está protegida da realidade, como acontece face a qualquer acontecimento trágico mais antigo. E quando isso acontece é como se o acontecimento propriamente dito não se distinguisse de uma das muitas ficções que lemos em romances ou vemos em filmes. E quando isso acontece, voltamos ao ponto inicial, aquele em que tudo pode de novo voltar a acontecer.

25 abril, 2017

NUNCA, SEMPRE OU ÀS VEZES

Gérard Castello Lopes | Portugal,1987

Lembro-me bem do tempo em que se discutia bastante se teria ou não valido a pena o 25 de Abril. O cómico da discussão, vista com os nossos olhos de hoje, é o seu carácter normativo, isto é, avaliar, não o que "é" mas o que "deve ser". Hoje, sabemos ter-se tratado de uma discussão inútil e disparatada. E sabemos, porque a história, tal como a natureza, é uma grande mestra. Ninguém imagina uma discussão para avaliar as leis da natureza, por exemplo, uns, dizendo que o Verão deveria ser antes que a Primavera, outros, defendendo que assim como está é que está bem, primeiro a Primavera e só depois o Verão. Ora, a discussão à volta do 25 de Abril era da mesma natureza, só que demasiado cedo para o percebermos.

O 25 de Abril não foi uma coisa que fizemos mas uma coisa que nos aconteceu. Nem sequer foram os capitães que o fizeram, mas a própria história. E uma coisa que aconteceu porque tinha de acontecer. Não se tratou de uma coisa contingente como Mota Pinto ter sido Primeiro-Ministro e Magalhães Mota não o ser ou Melo Antunes ter sido ministro dos Negócios Estrangeiros e Rosa Coutinho não o ser, mas uma coisa necessária, uma coisa que não poderia não acontecer. Porquê? Porque a história não permitiria que Portugal continuasse a ter, na Europa dos anos 70, 80 ou 90, um regime como aquele, assim como uma guerra colonial, completamente desfasada do Zeitgeist. O dia, esse sim, é que poderia ter sido diferente, e em vez de 25 de Abril de 1974 ter sido  a 29 de Junho de 1975 ou, vá, a 14 de Fevereiro de 1976. 

É verdade que história não tem leis como as da natureza. O 25 de Abril não é assim uma coisa como a lei da gravidade ou a fotossíntese mas também não anda muito longe disso. Há, na história, coisas que são impossíveis de acontecer, outras que acontecem mas poderiam não acontecer ou que não aconteceram mas poderiam ter acontecido e, finalmente, outras que teriam mesmo que acontecer. Por exemplo, seria impossível na Idade Média uma revolução comunista como a de Outubro de 1917, tão impossível como Giotto pintar como Picasso ou Hildegard von Bingen compor como Stravinsky. Não aconteceu, mas teria sido possível, embora necessariamente efémero, um regime comunista em Portugal, se Mário Soares tivesse perdido a sua batalha em 1975 e Kissinger o quisesse. Mas já seria impossível um regime comunista em Portugal depois da queda do Muro de Berlim. Tão impossível de acontecer como necessário de acontecer foi o 25 de Abril.

Nós não passamos de marionetas comandadas por forças que não dominamos nem dependem de nós, fios que nos obrigam a fazer certos movimentos e a impedir outros. Claro que marionetas conscientes do que estão a fazer, voluntariosas e cheias de objectivos pelos quais lutamos, assim também mais ou menos como uma pedra que cai, pensando que cai porque quer e porque é esse o seu objectivo. Há coisas que fazemos ou não fazemos, não porque queremos ou não fazer, mas porque somos obrigados a fazer ou impedidos de as fazer. E o 25 de Abril foi um desses momentos necessários da história cujas marionetas foram os capitães de Abril. Daí que, mais do querermos, devermos mesmo dizer "25 de Abril, sempre!", sejamos nós da esquerda mais romântica, da direita mais reaccionária ou tão indiferentes como um índio da Amazónia. "Sempre" porque "necessário". Um "sempre" ontológico e não um "sempre" psicológico ou ideológico. Daí não valer a pena gritar (pedir) que seja 25 de Abril sempre, como ainda fazem alguns. Porque será sempre 25 de Abril como há outras coisas que nunca chegaram ou chegarão a ser, felizmente nalguns casos, infelizmente noutros. Com o 25 de Abril não faz sentido dizer que, felizmente, aconteceu. O que podemos dizer, isso sim, é não ter, infelizmente, acontecido mais cedo.

24 abril, 2017

MILAGRES


Nunca acreditei em milagres mas gosto da sua poética, na literatura, na pintura, no cinema, na fotografia ou até mesmo na história. Enquanto adulto racional que faço questão de ser, posso achar patética a crença numa coisa tão irracional como é um milagre e ter dificuldade em compreender como podem adultos racionais acreditar. Mas isso não lhe retira o seu impacto poético. Nunca me esquecerei da minha professora primária a falar de Lázaro, o homem resgatado da morte graças a um milagre. Um nome que ainda hoje é para mim muito mais do que um simples nome: é o maravilhoso do milagre, o mysterium tremendum, num tempo mítico muito anterior ao nosso tempo cronológico e funcional. Eu não acredito que Jesus Cristo fosse um deus ou que tenha feito milagres, nomeadamente ter ressuscitado depois de morto. Mas acho a história bonita e merecendo-me todo o respeito, até porque, já que ficou para a história assumindo o estatuto de deus, tem todo o direito a esse privilégio, inacessível para o comum dos mortais.

Porém, e mesmo sabendo que o sobrenatural faz parte do código genético de qualquer religião, tenho dificuldade em compreender como pode ser a atribuição de milagres condição necessária para um ser humano aceder à santidade. Desta vez foi uma criança brasileira que, ficando em muito mau estado após uma queda, de repente ficou boa porque o pai invocou Nossa Senhora de Fátima mais as duas criancinhas da Cova da Iria que, graças a este milagre, irão ser canonizadas. Quem diz as crianças da Cova da Iria, diz também D. Nuno Álvares Pereira, também transformado em santo graças a uma cozinheira de Ourém que se curou graças a ele, depois de ter queimado um olho a fritar peixe. Ou madre Teresa de Calcutá, associada já depois de morta à cura milagrosa de um brasileiro com vários tumores cerebrais.

Nada tenho contra o facto de a igreja católica transformar pessoas normais em santos. Não tenho nem tenho de ter, até porque nem sou católico. Porém, e não é certamente o meu caso, existem no mundo pessoas excepcionalmente boas, pessoas de uma extrema doçura que dedicam as suas vidas aos outros, que se sacrificam pelos outros, que põem a felicidade dos outros acima dos seus próprios interesses, em suma, pessoas com uma conduta moral e social que as destaca das pessoas comuns, as quais podem ser boas mas nunca tão boas como aquelas. Ora, se isto não é ser santo, então não sei mesmo o que possa ser, e está mais do que visto que para a Igreja Católica não saberei mesmo. O milagre de haver pessoas assim, num mundo tão imperfeito como o nosso, não chegará para a igreja católica, comprazendo-se antes com todo este fogo-de-artifício sobrenatural que alimenta mais o instinto primário e popular de querer ser salvo das doenças e outros males (ou seja, pensar nos seus próprios interesses) em vez de se concentrar e enaltecer pessoas que deveriam ser eleitas como modelos e referências morais para toda a humanidade, que precisa delas como de pão para a boca.

22 abril, 2017

EU SEM A MINHA CIRCUNSTÂNCIA




Não é difícil descrever a pintura de Antoine Watteau. Homem do seu espaço e do seu tempo, faz dela um mundo teatral cujos actores representam ambientes típicos da época: cenas de amor, galantes, idílicas, festivas, em luxuriantes jardins. Enfim, uma pintura hedonista que surge como um hino aos prazeres da vida e aos sentidos, em contraponto ao moralismo católico da Contra-Reforma.

Porém, se deixarmos as suas pinturas e entrarmos no mundo dos seus desenhos e esboços, tudo muda. É como se todas aquelas personagens saíssem entretanto do palco onde representam os seus papéis para entrarem no camarim para se desmaquilharem. Enquanto pisam o palco, percebemos que estão no século XVIII e não numa Florença renascentista, na tranquila e doméstica Holanda do século XVII, na impressionista Paris ou Londres do século XIX ou na decadente Viena ou Berlim do século XX. No camarim há apenas um ser humano, um ser humano entregue a si próprio, à sua própria e intransmissível identidade que, sendo de um espaço e de um tempo, a este resiste.

Há uma solidão na mulher do primeiro desenho que a afasta de todas as outras que, na sua pintura, representam diferentes tipos de cena. Ali está tão ensimesmada e afastada que deixa de fazer parte de qualquer espaço ou tempo. Uma imagem antiga mas ao mesmo tempo tão moderna que até poderia ser uma Edith Schiele de costas desenhada pelo seu amante. Apenas ela, e não solitariamente no jardim de um palácio, na sala ou num quarto desse mesmo palácio. Aí a sua solidão seria outra, uma solidão com pose, em grande estilo, uma solidão que nos interpelaria, dizendo "Olhem para mim, olhem para a minha solidão". Neste caso, ali de costas, ausente, nem sequer sabe que a olhamos e, nós, apesar de a vermos, não conseguimos identificá-la. Trata-se apenas de um corpo, um corpo que se debruça para um despojamento quase abstracto, longe de qualquer circunstância.

E que rosto é aquele, o da segunda mulher? De que século é aquele rosto? E o olhar? Aquele olhar não tem tempo, é um olhar que atravessa os séculos como Orlando. E o facto de ser um retrato e não uma pintura potencia ainda mais a intimidade da expressão e do olhar. Porque mesmo os retratos clássicos não estão livres de encenação, muita dela intelectualmente requintada, sem esquecer o contexto onde se insere a personagem e que lhe dá uma identidade histórica e social, a qual transcende a sua simples subjectividade e individualidade. Mas este desenho não é nada mais do que a representação pura de uma expressão e de um olhar. Uma expressão nua, de um olhar nu, sem apetrechos, sem um motivo, um ambiente, longe de uma pletórica narrativa povoada de personagens. O escritor Lobo Antunes costuma dizer que as suas crónicas estão para os seus romances como uma sonata para um sinfonia. Watteau, apesar da sua tão mundana pintura, era um homem frágil e distante. Não custa, pois, imaginar o grande sinfonista rococó, de lápis na mão, compondo melancolicamente estas sonatas visuais, longe de tudo e de todos, para serem vistas no silêncio da mais pura intemporalidade.

21 abril, 2017

O ARMAZÉM


O conceito de fim é um dos mais importantes da filosofia aristotélica. Para Aristóteles o fim de uma coisa é o seu maior bem. Uma cadeira tem um fim e é por causa desse fim que a procuramos. Se precisarmos de fritar um ovo a cadeira de nada nos serve. Uma cadeira serve para nos sentarmos e não para fritarmos ovos, limpar o pó, pintar, escrever ou pregar quadros numa parede. Até podemosubir para cima de uma para mudar uma lâmpada  mas não é certamente esse o seu maior bem. Vamos agora imaginar que as cadeiras tinham consciência de si. Graças à experiência, depois de verem as pessoas a sentarem-se nelas, iriam perceber o seu fim. Mas imaginemos uma cadeira acabada de fabricar e que fica esquecida num armazém. O que iria pensar de si ao olhar para si própria? Como poderia entender o seu fim se nem sequer sabe o que são pessoas ou o acto de sentar? 

Diz o mesmo Aristóteles que não faz sentido pensar «que um carpinteiro ou um sapateiro tenham uma função a exercer, mas que o homem não tem nenhuma e que a natureza o dispensou de qualquer obra». O que ele quer dizer é o seguinte: se o carpinteiro tem uma função, se o sapateiro tem uma função, por que não há-de ter o ser humano também uma função? Para Aristóteles, a natureza não brinca em serviço, um mundo fechado e ainda muito longe do universo infinito da ciência moderna que nasce algures pelo século XVII. Não é por acaso que na sua Física os corpos pesados estão em baixo e os corpos leves em cima, do mesmo modo que não é por acaso que os aristocratas estão em cima e os escravos em baixo.

Eu compreendo a preocupação do filósofo relativamente ao fim do homem. A chatice é que não podemos ver a vida como uma função como acontece com o sapateiro e o carpinteiro. Uma coisa é o ser humano enquanto carpinteiro, cabeleireira ou tratador de leões, outra é o ser humano enquanto ser humano. Eu sei o que devo fazer sempre que entro numa sala de aula para ensinar alguma coisa, como sei o que posso esperar da rapariga que me corta o cabelo ou do maquinista da CP. Mas o que tenho eu de fazer enquanto ser humano? Aristóteles, que era um homem simpático e bem disposto, achava que nós devemos é ser felizes. O grande problema é que para eu dar uma aula sobre Aristóteles tenho um programa e uma planificação. Para sermos felizes, pelo contrário, temos que jogar com a improvisação pois, que eu saiba, Aristóteles não escreveu nenhuma pauta para sabermos a música que devemos aprender a tocar. Daí a vida, neste aspecto, ser mais parecida com o jazz: muito improviso. Para uns será jazz mais clássico, para outros será mais free jazz. Nalguns casos o seu jazz é tão free que mais parece o Albert Ayler a tocar saxofone depois de ter bebido uma garrafa de uísque após duas noites sem dormir. O que eu queria mesmo era assim uma Arte da Fuga, de Bach, com a sua tão complexamente simples harmonia, dando-me bastante por satisfeito. Mas como isso não existe, não me livro de uma Fuga sem Arte. Que, em termos aristotélicos, equivale a uma fuga sem fim. Diz o George Steiner que We have no more beginnings. Fins, também não.

19 abril, 2017

A MARATONA

René Jacques

O que significa mesmo a expressão "No meu tempo"? "No meu tempo isto... No meu tempo aquilo"? Uma pessoa que invoca o "seu tempo" parece apresentar-se como um espectro que vai sobrevivendo num tempo que passou a pertencer a outros. Tal como uma alma penada que vive entre dois mundos, acredita que passou a viver num tempo aparente, pois o verdadeiro tempo foi aquele ao qual ficou eternamente presa e que já não existe. A pessoa, sim, existe, vive no mundo, ocupa-o espacialmente, mas a implacável passagem do tempo por ela transforma a sua existência, antes sólida, numa fragilidade gasosa e volátil. Observa o mundo, vive nele, participa dele mas, por outro lado, vai-lhe escapando, passando a vê-lo à distância. Isto pode ser explicado por associarmos a juventude à plenitude ontológica do indivíduo.

Quem diz "no meu tempo" vê o mundo mais ou menos como o primeiro atleta de uma estafeta 4x400. O atleta corre intensamente os "seus" 400 metros e quando chega ao fim, passa o testemunho a outro que começa a correr. Ora, tratando-se de uma equipa, o primeiro atleta continua a participar na prova. Mas já não participa activamente, o seu momento passou, fica apenas parado, esperando que a prova agora protagonizada por outros que lhe sucederam, chegue ao fim. Na vida real, isto acontece a partir do momento em que uma pessoa, atingindo uma idade avançada, presume que viu há muito o que a vida tem de mais importante: o futuro. O  "meu" tempo será o tempo em que se vê o tempo à nossa frente. Psicologicamente isto faz sentido. Mas ontologicamente não faz. Claro que o futuro aos sessenta ou setenta não é o futuro aos vinte ou trinta. Mas o tempo não nos conhece nem nos escolhe tal como nós, ilusoriamente, julgamos conhecê-lo e conquistá-lo para nós. Um dia é um dia, uma hora é uma hora, tenhamos vinte ou setenta anos de idade. E se numa estafeta há um atleta que tem de parar para outro avançar, na vida não tem de ser assim. O movimento de uns não tem de ser a estagnação de outros. A vida é uma pista onde todos correm ao mesmo tempo e na qual, enquanto a meta não é atingida, todos podem ganhar ou perder independentemente da idade. O chocolate comido por uma pessoa de setenta anos não é diferente do chocolate comido por uma outra de trinta anos. O tempo é, simultaneamente, de todos e de ninguém. Não se trata de uma estafeta em que o tempo de um não coincide com o tempo dos outros. Não, trata-se antes de uma maratona na qual todos correm ao mesmo tempo, apenas com a diferença de uns correrem mais depressa e outros mais devagar.

18 abril, 2017

TEMPO LIVRE



É bastante curioso o modo como o tempo condiciona a percepção de tantas coisas. Por exemplo, o facto de um videoclip musical ter quatro minutos, um anúncio publicitário durar cerca de um minuto e um filme entre os 90 e os 150 minutos.Quando se vai passar uma tarde a um museu a ideia é vê-lo todo ou quase todo, o que pode dar uma média de segundos por quadro, ou algo se for mais conhecido ou porque chamou a atenção. Ora, por que razão não se vai a um museu só para ver dois ou três quadros? Ou a um cinema para ver um filme que dure apenas 20 minutos? Isso não acontece porque não fomos habituados a ver uma pintura, ou uma fotografia como quem vê um filme, ou seja, estar duas horas a olhar para elas, ainda que tal se pudesse justificar, ou porque fomos educados a ver os filmes com base numa certa duração. Mas se podemos dar 7 euros por um pequeno livro que se lê num instante, por que razão não os podemos dar para ir a um cinema ver um filme de vinte minutos? Aliás, com a falta de tempo, isso até tornaria mais fácil uma ida ao cinema, ocupando uma menor parte do precioso tempo.

Em sentido contrário, também não estamos preparados para ver um filme de cinco horas num sábado à tarde mesmo que não se tenha mais nada de especial para fazer, pois torna-se demasiado longo para os nossos padrões. Quando eu era garoto e fiz a minha educação musical tive uma fase em que ouvi bastante Rock Progressivo. Hoje não tenho paciência para o ouvir mas reconheço a sua importância no modo como influenciou o meu sentido de duração musical que, mais tarde, viria a revelar-se importante na relação com outros géneros musicais, ajudando na altura a superar a minha habituação à lógica temporal do single, que era então o modelo prevalecente.

Kant fala do tempo como elemento meramente formal na nossa relação com os objectos sensíveis. Sim, claro que é formal. Porém, sendo formal, não consigo deixar de o sentir como uma coisa física, uma espécie de camisa de forças que se aperta ou alarga conforme as circunstâncias. Tal como uma dor de cabeça, que também não tem cor, cheiro, sabor ou textura, mas condiciona a nossa relação com um texto, um filme, uma pintura ou uma música, também o tempo, sendo formal, pode ser sentido por nós como realidade física constrigente e cuja dimensão pode ser regulada, alterada, corrigida, condicionando o prazer ou desprazer que sentimos perante um objecto que seja alvo da nossa percepção. Conseguir superar essa barreira do tempo, seja para mais, por exemplo, ver um filme longo, seja para menos, ir ao museu durante apenas 15 minutos para ver um quadro, aumentaria sem dúvida a nossa liberdade na relação que mantemos com as coisas, submetendo estas a uma estrutura rítmica que seja nossa e não àquela que nos querem impor.

17 abril, 2017

AS RÃS

Catalá Roca | Señoritas paseando por la Gran Vía

Falar de rabos pode parecer assunto de pouca elevação. Puro engano. A insuspeita história da filosofia é tão abrangente e versátil que nem os rabos ficaram de fora. Claro que ninguém imagina Platão, Descartes ou Kant a reverenciar conceptualmente a dimensão mais traseira do ser humano. Apenas um céptico o poderia ter feito de um modo mais desbocado, e se esse céptico for um homem chamado Montaigne lá no alto da sua girondina torre a assistir ao teatro das comédias humanas, já não surpreende então que nem os traseiros escapem. Alvejando aqueles que desejam elevar o ser humano a um nível que transcende a própria humanidade, diz ele com a sua jovial e inconfundível coloquialidade:

"Querem sair para fora deles mesmos e escapar ao homem. É loucura: em vez de se transformarem em anjos, eles transformam-se em bestas, em vez de se elevarem, afundam-se. Estes humores transcendentes assustam-me, tal como os lugares altaneiros e inacessíveis. [...] É uma absoluta perfeição, quase divina, saber usufruir lealmente do seu ser. Nós procuramos outras condições porque não entendemos o uso das nossas, e saímos para fora de nós por não sabermos o que aí há. Ainda que andássemos sobre andas, era com as nossas pernas que caminharíamos sobre andas; e mesmo que nos sentássemos no mais alto trono do mundo, seria sobre o nosso cu que nos sentaríamos [Et au plus enlevé trône du monde si ne sommes nous assis que sur notre cul]". Ensaios, III, capítulo 13.

O antigo presidente da Mairie de Bordéus não dá ponto sem nó, pois mesmo que aparente pairar apenas sobre a estratosférica dimensão antropológica ou ontológica da filosofia, à inócua bonomia do seu veneno não escapam as mais tangíveis realidades humanas em cujas imperfeições adora fazer pingar o corrosivo líquido. Por exemplo, quando noutras paragens dos seus Ensaios põe em causa a superioridade do ser humano face aos irracionais animais, ou a superioridade dos elegantes e afectados europeus face aos nus e selvagens índios da América do Sul. Ora, menos exemplar não será quando se trata de dissecar a superioridade moral, intelectual ou psicológica de certos humanos face a outros seres humanos, só porque mais social ou politicamente providos.

Como os chapéus, humores transcendentes há muitos, estando todavia muito longe de se esgotarem no místico anseio de elevar o homem àquilo que ele não pode ser, não tanto por não ter sido feito para o ser mas sobretudo porque foi feito para não o ser. Se há coisa que, para o filósofo, não somos nem podemos ser, é anjos. Não apenas porque, ao contrário, de serafins, arcanjos, querubins e potestades, fomos condenados às subterrâneas turbulências do sexo, mas também porque, estejamos sentados ou em pé, parados ou em movimento, a ler ou a dormir, a meditar dentro de um viçoso e bem lubrificado cérebro ou a enlouquecer numa desidratada mioleira que definha, ninguém o faz sem um traseiro pois em parte alguma do universo é suposto existir verso sem reverso. Somos todos iguais porque vamos todos um dia morrer, sejamos ricos ou pobres, inteligentes ou estúpidos, boas ou más pessoas, importantes ou invisíveis? Sem dúvida, vanitas vanitatum omnia vanitas. Mas somos todos iguais porque temos todos temos um rabo, e desse rabo não podemos passar ainda que nos sentemos no mais alto trono do mundo. Os reis têm um rabo, papas, cardeais e bispos rabo terão. Ao rabo também não escapam os mais nobres e os mais elegantes representantes da espécie humana e até os mais ínclitos pensadores o têm. Pode soar estranho, mas Platão, Descartes ou Kant tiveram os seus rabos e foi com esses rabos que tiveram de viver, embora, felizmente, não tenha sido pelos seus rabos que os seus dignos pensamentos saíram para ver a luz do dia, ao contrário do que acontece com tanta gente cujo pensamento só serve para obscurecer a luz do Sol e a pureza do ar com a ameaça da mais pestífera treva mental.

Há uma anedota inglesa que é mais ou menos assim «A guy walks into a bar with a frog on his head. The frog says to the barman: "How do I get this guy off my ass?» Anedota tão engraçada pode lembrar-nos de que, por muito importantes que nos sintamos, isso não chega para podermos estar livres do desprezo de uma rã cujo rabo se eleva acima da nossa cabeça. Rã essa, que do alto do seu rabo, até se podia chamar Rabelais.  

11 abril, 2017

O CALENDÁRIO



Estas duas gravuras do século XVI são irmãs siamesas. A primeira é de Richard Verstegan que, numa obra chamada O Teatro das Crueldades dos Heréticos do Nosso Tempo, deixa um registo da violência atroz dos protestantes sobre os católicos, neste caso, em Nîmes, e onde se poder ver um capitão protestante com um colar feito de orelhas de padres, um desses padres a quem foram cortadas as orelhas e o nariz, um padre morto e cujas entranhas vão ser misturadas com aveia para alimentar os cavalos. A segunda é de Jean Perrisin, que foi incumbido da mesma tarefa, apenas trocando a ordem das vítimas e algozes, vendo-se agora protestantes a serem massacrados por católicos.

Resolvi trazer estas gravuras, como poderia trazer uma outra relativa ao tristemente célebre massacre de Lisboa de 1506, por causa de uma questão que por aí anda a propósito do terrorismo islâmico: foi o Islão que se tornou violento ou antes a violência, latente ou manifesta, de muitos jovens muçulmanos, que se islamizou? Ora bem, o Islão não é violento nem se tornou violento. Dir-se-á haver passagens no Alcorão que tornam esta religião propícia à violência que tem deixado a sua marca de terror. Sim, há, só que influenciam tanto um agricultor marroquino, uma professora turca, um operário egípcio ou um comerciante sírio, como as passagens violentas do nosso Antigo Testamento um agricultor português, uma professora búlgara, um operário inglês ou um comerciante norueguês, todos eles cristãos. Uma religião é aquilo que as pessoas querem que seja e enquanto pessoas normais fazem dela uma experiência pessoal e social normal, pessoas com perfis desviantes, fazem dela uma experiência desviante sem que aquela tenha disso alguma culpa, tal como o futebol não a tem por haver hordas fanáticas que combatem em dia de Rio Tinto-Canelas, no estádio das Termópilas.

A violência é apenas uma entre muitas disposições naturais do ser humano e muitos são os seus rostos. Há a gratuita ou caprichosa enquanto desordem grave do foro psiquiátrico. Há uma violência momentânea que pode levar uma pessoa não violenta a sê-lo em circunstâncias excepcionais. Há pessoas intrinsecamente violentas e a quem basta um insignificante rastilho para o mostrar. Finalmente, existe uma violência motivada por causas, levando a que pessoas que podem não o ser nas suas vidas pessoais, sendo até dóceis e afectivas, e por crerem ferozmente numa causa pela qual desejam lutar, são capazes de todos os meios para atingir os seus fins. Falo de causas no seu sentido mais amplo, podendo incluir causas políticas, ideológicas, religiosas, ou até desportivas. Neste sentido, não há nenhuma causa que esteja imune a manifestações de violência, incluindo, como já vimos, o próprio cristianismo, uma religião do amor, da caridade, da compaixão.

O que está a acontecer com o terrorismo islâmico é uma mistura dos dois últimos tipos de violência, separadas ou associadas. Temos, por um lado, pessoas que não são pessoalmente violentas mas que, ao serviço de uma causa, se tornaram cirúrgica e racionalmente violentas, explicando a necessidade e bondade dessa violência com o rigor e clarividência argumentativa de um silogismo aristotélico. Fazem exactamente o mesmo que muitos católicos e protestantes do século XVI, revolucionários franceses do século XVIII, anarquistas do século XIX, ou já no século XX, patriotas sérvios, comunistas, republicanos e monárquicos portugueses, republicanos e falangistas espanhóis, nazis, revolucionários portugueses das FP-25, alemães da RAF, italianos das BV, independentistas bascos ou irlandeses. Por outro lado, temos pessoas que já por si são violentas, com um perfil de marginalidade e delinquência e que aplicam essa violência ao serviço de uma causa que veio dar um sentido metafísico e identitário às suas vidas, tantas vezes com grande falta dele.

Haverá um antídoto para este tipo de violência? Há, e não passa por acabar com as religiões, as ideologias, os países, o desporto: uma disposição céptica em relação às suas próprias crenças. Ser céptico não significa duvidar de tudo, deixar de ter crenças, deixar de agir porque em nada se acredita. Um cepticismo moderado traduz-se numa modéstia militante que faz com que nada seja dado por garantido, onde as crenças existem mas mantendo-se sempre uma atitude prudente e provisória em relação a elas. Pode-se acreditar em X mas mantendo sempre aberta a possibilidade dessa crença deixar de o ser por podermos estar errados, dizendo "parece-me que" em vez de "Sei que". Ou ainda acreditar em X mas também não fazer de X uma questão de vida ou de morte, de tudo ou nada, dando-lhe apenas uma importância relativa, como diria um estóico romano como Séneca. Uma pessoa pode acreditar ser melhor a república ou a monarquia, um estado mais liberal ou um estado mais social, o catolicismo ou o protestantismo, ou até acreditar que o seu país é maravilhoso mas não ter de matar ou de morrer por causa disso pois a vida e outros valores estão acima disso.

Infelizmente, não se trata de um antídoto que possa ser receitado por um médico para ser tomado três vezes ao dia durante um mês para tornar a pessoa imune a uma violência associada a causas. Não podemos chegar agora ao Iraque, à Síria ou às periferias de grandes cidades europeias onde milhares de jovens estão disponíveis para matar, para fazer uma campanha de sensibilização céptica. O antídoto é sobretudo histórico e cultural. No mundo ocidental, a proclamada morte de Deus (sintomático este título na capa do Correio da Manhã de hoje:" SEMANA SANTA-Páscoa leva milhares a correr para as praias") e a relativização e desmistificação de grandes modelos ideológicos, sociais e políticos, tantas vezes criticadas por estarem na origem de uma falta de rumo e de sentido, têm sido um excelente antídoto. Se, entretanto, coisas horríveis de natureza social e política se fizeram no século XX, em países cristãos como a Alemanha, URSS, Angola, Moçambique, Chile, Argentina ou Bósnia, foi precisamente pelo poder de sedução de alguns desses modelos. Já a religião tornou-se um exemplo, ao que parece definitivo, de inoculação, no mundo ocidental. Estas duas gravuras, hoje, tornaram-se absurdas, porque entretanto as pessoas, deixaram de ser religiosas ou, não deixando de o ser, passaram a ver e a viver a religião de outra maneira, longe de qualquer experiência apocalíptica, escatológica, milenarista, monista, cuja lógica acabou por contaminar a política como nos já referidos exemplos.

O que está a acontecer entre nós, que vestimos a camisola do Ocidente, e alguns muçulmanos é um problema de calendário e de linguagem. Nós matámos Deus, ainda que sem tomarmos bem consciência disso, deixando de compreender e aceitar grande parte do que foi biblicamente revelado e institucionalmente imposto ao longo de séculos, enquanto eles ainda estão nestas gravuras do século XVI, motivados por uma revelação que os torna privilegiados aos olhos de Deus. Os homens que numa das imagens usam o colar de orelhas ou tiram as vísceras ao padre ou que na outra enforcam os seus irmãos em Cristo, são hoje muçulmanos fanatizados e terroristas que, radiantes, degolam os despedaçam cristãos. Para os ocidentais de raiz cristã, estas gravuras são incompreensíveis, mais parecendo vir de um bárbaro planeta descrito por Jonathan Swift a muitos anos-luz da Terra, povoado por bizarros yahoos. Já esses jovens violentos, vivem nesse planeta e falando a sua língua sem erros de dicção ou ortográficos.

Ora, enquanto assim for, estamos perante um problema sem solução. A única alternativa é mudar as folhas do calendário e levá-los a falar a língua que é falada pela esmagadora maioria da humanidade, que apenas deseja ter uma vida normal e decente, independentemente da religião ou do regime político ou constitucional em que se vive. Embora na altura talvez parecesse inverosímil, os franceses destas duas gravuras conseguiram virar a folha do calendário, tal como os lisboetas de 1506. Só que para tal ser possível ou pelo menos numa escala menos ameaçadora, seria necessário inoculá-los da violência latente da qual a maior parte das pessoas está protegida mas que afecta sobretudo pessoas que vivem em contextos social, económica e até urbanisticamente desfavoráveis, as incubadoras de onde sai grande parte da violência em qualquer parte do mundo. Não por acaso Lisboa é uma cidade mais complicada do que Berna e Caracas mais complicada do que Lisboa, e estou naturalmente a pensar em cristãos ou gente ocidentalizada, em países onde um agricultor normal, um operário normal, uma professora normal, um comerciante normal, não se distinguem de um normal agricultor marroquino, operário egípcio, professora turca ou comerciante sírio, muçulmanos que apenas desejam ter uma vida normal.