28 setembro, 2016

A FÚRIA DO AÇÚCAR


Vai não vai, somos bombardeados com cada vez mais e sofisticadas provas dos terríveis malefícios do açúcar. Eu, lastimado penitente digno de compaixão, pungido guloso, envenenado por quilos da branca peçonha ao longo da vida, fico com os meus circuitos neuronais a curto-circuitar com todo este espalhafato médico-científico. Mas aproveito a triste oportunidade para degustar esta bela trouxa de ovos de prosa de um Camilo já muito sacrificado pelas suas crónicas maleitas, epistolada em lume forte ao Visconde de Ouguela:

«Amanhã vou para Vizela. Os médicos de Coimbra mandam-me para lá; os de Braga dizem-me que nem passe por onde houver águas sulfurosas. Opto pelos coimbrões, como quem deseja morrer cientificamente. Ou bem que Coimbra é foco de sapiência ou que não. Se eu por lá acabar, ataca tu a medicina com o teu mais fulminante estilo, e aconselha a D. Luís que faça aos médicos o que D. Pedro I fez aos juriconsultos».

Esta gulosa ideia de poder morrer cientificamente (mal sabendo Camilo quão pouco científica iria ser a sua morte 15 anos depois) está em perfeita harmonia com a presente moda de viver cientificamente. Os tarados da vida saudável que, religiosamente, arquivam na sua galeria de horrores as mórbidas notícias sobre a toxicidade do açúcar, para serem rezadas várias vezes ao dia entre as matinas e as completas, devem adorar aqueles diarreicos fluxos de percentagens segundo os quais o excesso de açúcar aumenta 33,3% a possibilidade de ter a doença X, 38,2% a doença Y, 27,8% a doença Z, julgando que, em virtude de uma sã e científica existência, podem fintar a sinistra visita da morte ou, quando tiver mesmo de ser, o passamento será o mais científico possível, o que deve causar frémitos de prazer nas hipocondríacas circunvoluções de tão ansiosos penitentes.

Mas o que me traz agora aqui não é só constatação deste pitoresco desvario sociológico que faz recuar a vida moderna até levíticas eras, ainda que as matérias poluentes fossem outras. Quero apenas centrar-me no carácter paradoxal do problema que, apesar de filosófico, foi literariamente apresentado por Balzac, em 1811, com o fantástico romance A Pele de Chagrin. Trata-se de uma história na qual um jovem, após tentativa de suicídio, entra numa loja de antiguidades onde adquire a pele de um animal. Segundo o proprietário, quem a possuir conquista a possibilidade de viver eternamente mas na condição de não poder sentir qualquer desejo. Sempre que sentir algum desejo a pele encolhe um pouco, perdendo o seu possuidor parte da sua energia vital, até definhar completamente, um pouco como as vidas que se vão perdendo nos jogos de computador, até ao Game Over. Eis o destino de quem a possui a pele: se queres viver, não desejes, se desejas, não viverás.

Também os traumatizados pelo distópico poder do açúcar vivem presos neste tipo de imperativa e categórica armadilha: não comas muitos doces que te dão prazer e viverás uma longa vida. Caso contrário, mais cedo irás adoçar a boca dos bichinhos que, avidamente, esperam por ti na tua morada final, sem terem grandes pruridos face à diabetes, obesidade, colesterol, cancro e o diabo a sete. Ora, isto remete para o velhinho problema da eudaimonia, ou seja, a "vida boa", mais conhecida por "felicidade". O que será, pois, a felicidade? Não quero ir longe na resposta. Apenas dizer, de um modo filosoficamente menos elevado, que não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. Convém perceber, o que até nem é difícil, que se não é pela boca que devemos morrer, não deve ser igualmente pela boca que se deve viver. Seja por excesso ou por defeito. Viver de doces conventuais (meu deus, o que eu não dava agora por uma coroa de abadessa, um pãozinho de rala, uma morcela de Arouca), gelados ou toblerones não dá saúde a ninguém. Quem o fizer ou andar perto disso, estará mesmo doente e precisa de ajuda e, neste caso, psiquiátrica. Porém, tenho para mim que, tal como acontece com o álcool, a esmagadora maioria das pessoas sabe, por instinto, quando pode começar e deve acabar. Por muito que os cientistas nos queiram convencer do contrário, é vivendo como sensatos animais (e os animais são invejáveis exemplos de sensatez) que a vida será melhor vivida. E esperando pelo momento certo para, consoladinhos, deixar a pele de Chagrin definhar de vez.

27 setembro, 2016

AQUILES E A TARTARUGA

Umberto Verdoliva

Gente da minha já adiantada idade costuma dizer, com laivos de sapiência tardia, que seria bom ter agora 20 ou 30 anos mas sabendo o que se sabe hoje. Diz-se isso por se acreditar que envelhecer traz sabedoria por oposição a uma natural ingenuidade juvenil, fruto da inexperiência e de «pouco mundo» ou «pouca vida». Mas não é bem assim. Isso de acreditar que a verdadeira sabedoria está num "hoje" quase perfeito que aparece depois de outros "hojes" bastante imperfeitos, não passa de uma ilusão. Confiamos no que sabemos hoje por oposição ao que não sabíamos antes. Mas nunca pensamos no que não sabemos hoje em oposição ao que viríamos um dia a saber, se vivêssemos mais. Vivêssemos 150 ou 200 anos, e o que julgamos ser a actual idade da sabedoria, passaria a ser a mesma idade ingénua que agora vemos quando olhamos para trás. E se fossem 500 anos, seria o mesmo, sendo assim ad infinitum. Porque quanto mais se vive mais há para saber e por isso menos se sabe.

É verdade que se soubesse o que se vem a saber depois, erros anteriores podiam ser evitados. A pessoa que ficou paraplégica por ter feito uma ultrapassagem perigosa já não a teria feito se soubesse que iria morrer, seguido tranquilamente a sua viagem. Trata-se, porém, de um erro grosseiro, um erro objectivamente entendido como tal. Mas se chegássemos aos 200 ou 500 anos, não iríamos evitar os erros que só a posteriori sabemos que são erros. Estes, como o veloz Aquiles, partem sempre à nossa frente e, para nós, pobres tartarugas, é sempre demasiado tarde quando finalmente damos por eles. Com o tempo, ao contrário do que acontece com o espaço no paradoxo de Zenão de Eleia, Aquiles ultrapassa mesmo a tartaruga.

26 setembro, 2016

O SERMÃO

Julia Margaret Cameron


- O senhor não lê as gazetas? - Perguntou o vigário abruptamente.
- Não leio, nem as vi nunca - respondeu o moço [...]
- Pois- tornou o padre-, as gazetas são uns papéis escritos em letra redonda, criados e sustentados para demonstrarem que todos os homens têm direitos iguais. Muito me admira que seus avós e o senhor tenham praticado a igualdade sem terem lido as gazetas! Provavelmente em casa dos Militões de Vila Cova lia-se o Evangelho de Jesus Nazareno.
-Lia, sim, senhor.
- Só assim pode explicar-se a virtude sem a doutrinação das gazetas. Dizem que elas são o baluarte da liberdade, da igualdade, e da fraternidade; e eu estou em defender que o sermão da montanha, pregado pelo filho de Deus há mil e oitocentos anos, e o sermão da natureza, que sem cessar se está ouvindo, bastam para fazer um homem irmão e amigo do outro homem, por amor de Deus, que é o pai de todos. Camilo Castelo Branco, O Bem e o Mal.

Dizia Alfred Whitehead, provocador, que toda a filosofia ocidental não é mais do que uma nota de rodapé aos textos de Platão. A mim apetece dizer que grande parte dos movimentos culturais da modernidade surge como alternativa à religião cristã, nomeadamente no que toca à sua vertente moral. Algumas revoluções foram tentativas flagrantes de substituir o humilde e irracional cristianismo por modelos racionais e científicos que levariam os seres humanos a abandonar as trevas da ignorância e da opressão para encontrar o verdadeiro (e único) caminho para uma sociedade perfeita. As trágicas revoluções francesa e comunistas, o nazismo, assim como o positivismo do século XIX, são disso um bom exemplo.

O actual e tão propagado conceito de cidadania é resultado de uma moral que deixou de ser religiosa para, filosoficamente legitimada, se tornar essencialmente cívica, cabendo ao Estado, sobretudo através da escola e da lei, a função de educar as massas para uma fraternidade nacional e, já agora, universal. Ora o que passa pela cabeça desta gente é o mesmo que na de filósofos como Platão, para quem o conhecimento da verdade conduz naturalmente a uma conversão ética. Sendo o conhecimento uma virtude, quem conhece o bem será bom, quem conhece o justo virá a ser justo. E cá está a educação na cidade, na república para lá chegar. 

Tal visão intelectualista da moral é frágil, e nada como a realidade para o mostrar. O amor cristão, em virtude da sua natureza religiosa, é espontâneo, incondicional e imune a vicissitudes sociais, politicas, económicas e culturais. Já o civismo, a cidadania, a ética republicana dependem de várias condições. Os cidadãos respeitam-se e enternecem-se com os valores apenas se as condições o permitirem. Basta uma crise, um pequeno desvio na ordem social, um parafuso enferrujado na engrenagem, para que o bem regulado mecanismo comece a dar de si. Isso explica como muito fraterno comunista, outrora empenhado na união dos povos, facilmente se comova com a retórica moralizadora da extrema-direita, ao ver o seu trabalho e a sua segurança em risco, como muito europeu, orgulhoso da sua superioridade cultural, possa facilmente vacilar. O povo é frágil, vulnerável e pouco dado a subtilezas racionais. Por isso valerá sempre mais um belo e empático sermão no cimo de uma montanha do que anos e anos de lições de cidadania.  

25 setembro, 2016

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO


António Sena da Silva | Lisboa, 1957

Ora eu, que nesta fidalga e francesa Lisboa tenho sido espectáculo de riso, pedindo nos hotéis, e recomendando aos meus amigos, o caldo verde, insisto costumazmente em me expor à mofa de gente culta, dando à estampa, neste lugar e para meu duradouro opróbrio, o panegírico do caldo verde, caldo de meus avós, e de padre João, e de sua irmã.  Camilo Castelo Branco, O Bem e o Mal

Poucas coisas haverá que sejam absoluta e incondicionalmente boas, como poucas também serão as absolutas e incondicionalmente más. Fiz-me adulto depois do 25 de Abril, com o que de bom os seus ventos trouxeram. Mas tive igualmente o desprazer de assistir ao fenecimento de muito dos nossos diversos e ricos patrimónios, fosse por deliberada destruição revolucionária, desmazelo e esquecimento, ou mera pulsão modernizadora. Camilo viveu numa Lisboa francesa. A minha geração, por sua vez, foi testemunha da passagem de um país francês para um outro anglo-saxónico, sem grande tempo para chegar a saber muito bem o que é ser português.

Querela-se hoje sobre os benefícios e prejuízos do turismo em Portugal com tanta veemência e entusiasmo como em tempos as vantagens e desvantagens dos antigos e dos modernos. Compreendo os incómodos para quem precisa de trabalhar em cidades como Lisboa e Porto, com muita mais gente a compor as ruas e transportes e com um distraído de câmara na mão, a olhar para o ar, em cada esquina. Mas uma coisa é certa: o turista, procurando e valorizando o que é nosso, obriga-nos a olhar e a valorizar o que é nosso. O turista surge assim como um espelho salvador onde o nosso reflexo nos dá uma auto-consciência que soava perdida, depois de anos, por rotina e fastio, a estrangular tanta coisa bela e boa que nos vitaminara a cultura durante gerações.

É verdade que muita casa foi destruída, muitos cafés antigos e tabernas morreram, exangues, por falta de uma clientela que adquiriu novos hábitos, o fado viveu dias de amargura (e eu até nem gosto de fado), muitos bons pitéus e guloseimas foram sendo trocados por nomes exóticos de outras paragens, dando um ar de modernidade e cosmopolitismo industrial a arroubados nativos, cada vez mais exorbitados das suas origens. Porém, apesar de tanta coisa perdida, ainda fomos a tempo de salvar outra tanta moribunda e preparada para desaparecer. Claro que não nos isentamos de oferecer ao loiro forasteiro muito ardiloso ersatz ou artificiais pastiches de objectos ou tradições cujo viço parece nunca ter sido beliscado pela ingratidão da história e do progresso. Mas também é verdade que foi graças aos turistas que nós próprios passámos a olhar de outro modo para os nossos rios, ruas, avenidas, praças, eléctricos, miradouros, esplanadas, cafés, monumentos, pratos, festas ou revigoradíssimos pastéis de nata, pastéis de bacalhau ou francesinhas. A Lisboa de Camilo podia ser francesa. Mas a francesinha, como o pastel de bacalhau (com ou sem queijo da serra) ou o pastel de nata, é nossa, e há muito que não era tão nossa como agora. Andamos a recuperar tempo perdido, só que aqui as madalenas são outras.

24 setembro, 2016

AMOR SÓLIDO


Bill Epridge, O Beijo | 1963

- Então a menina cuida que uma pessoa só se conhece por ser vista muitas vezes? (...) Pois como eu vinha dizendo, a História Sagrada conta que antigamente um moço saía da sua terra em cata de outra terra, onde estava a noiva, que ele nunca vira. Batia à porta do sogro, pedia-lhe a filha, e casava. Isto é que eram tempos, moça! (...) Naquele tempo, a moça casadoura era por dentro como por fora; via-se como à luz do meio-dia o que ela tinha no seu interior; agora pelos modos, é preciso espreitar muito tempo as inclinações das pessoas! Camilo Castelo Branco, O Bem e o Mal

No secção de anúncios do Jornal Torrejano desta semana, «Homem, de 56 anos, com casa própria, adorava conhecer senhora magra, para futuro compromisso». Eu, inveterado e incurável romântico, leio este anúncio e não posso deixar de me comover com a atávica pureza deste homem só. Interessa-lhe saber se a putativa mulher que irá responder ao anúncio, está, seja por dom da natureza ou por adquiridas convenções sociais, concertada com as suas inclinações? Saber se é dotada intelectualmente ou se vive antes num estado de permanente burrificação, se é tímida ou extrovertida, se é terna ou mais de andar com o rolo da massa a azucrinar o juízo, se tem voz bonita de se ouvir, se tem gosto a vestir ou a decorar a casa, se é asseada, se é poupada, se fuma, se sabe estar à mesa, se usa perfumes tóxicos, se é rica ou pobre, se trabalha ou está desempregada, se gosta de viajar, de cozinhar, de telenovelas, de sair, de música, de cinema, de arte, de desporto, de comer, de beber, de política, se é de esquerda ou de direita, do Benfica, do Sporting, do Porto ou da Académica, se tem filhos, cão, gato, hamster, cágado ou periquito, enfim, a magna questão de poder ser bonita ou um estafermo que faz doer os olhos, ou a sempre vexata quaestio das potencialidades no que às íntimas e afrodisíacas artes diz respeito. Nada, nada disso importa, tudo isso é vão e supérfluo, contanto que seja magra. E o que espera ele que ela espere dele? Nada, qual desporto ou arte, qual beleza ou feiura, qual bom ou mau feitio, qual inteligência ou falta dela, qual tudo aquilo que ele próprio não precisa de saber dela, desde que esteja para lá da magreza? O que pode querer uma mulher de um homem a não ser uma casa própria? Uma mulher magra, um homem com casa própria, eis a suprema receita de uma eterna e dourada felicidade, num tempo de amor líquido cuja fórmula química foi descoberta pelo Diabo quando Deus se distraia a ralhar com os nossos edénicos progenitores, enquanto os expulsava do paraíso.

20 setembro, 2016

PELA ESTRADA FORA

Alexander Kosolapov | Herói, Líder, Deus

Jesus e Lenine foram, cada um à sua maneira, revolucionários. Homens que mudaram o mundo, mentalidades, e cujas palavras legitimaram formas de poder. Porém, apesar das semelhanças, jamais poderiam surgir de mãos dadas, pois apesar de terem em comum o ar grave e sério, o passo firme, a veemência, a fé, o olhar messiânico, o que os separa é bem mais importante do que os une.

A não ser que haja um rato Mickey para os unir, conduzir e levá-los pela estrada fora. O sentido da História, tantas vezes pensada, imaginada e elaborada como num atelier de arquitectura, está no riso infantil do pequeno rato, na sua pueril inconsciência, nas suas inocentes tropelias. Podemos pensar a História, procurar-lhe um sentido ou querer mudar o mundo. Depois, vamos ver, são as sacanices do divertido rato que acabam sempre por prevalecer, não havendo revolução ou evangelho que lhe resistam.

17 setembro, 2016

O REGRESSO


É regressado ao trabalho que consigo entender um homem tão contraditório como Rousseau, o mesmo que escreve um texto tão optimista e engagé como o Contrato Social, onde explora o sublime conceito de Vontade Geral, e um outro tão amargo e pessimista como Os Devaneios de um Caminhante Solitário, onde escreve coisas como: «A conclusão que posso extrair de todas estas reflexões é que não fui feito para a sociedade civil, onde tudo é opressão, obrigação, dever; o meu temperamento independente tornou-me sempre incapaz de sujeições necessárias a quem quiser viver entre os homens».

Meu deus, como eu entendo esta conversa. Entendo eu e entende a etimologia da palavra "trabalho", que deriva de "tripalium", um instrumento de tortura entre os romanos. Não é que eu não goste de trabalhar e não entenda o dever social, económico e até antropológico do trabalho. Mas gosto muito mais de não trabalhar, da liberdade de não trabalhar, do prazer de não trabalhar. Já lá vai o tempo em que eu dizia que, mesmo rico, não deixaria de trabalhar. Hoje, a minha pulsão para o  ócio sobrepõe-se cada vez mais aos méritos sociais e políticos do negócio. Nós, humanos que nunca chegámos a conhecer o paraíso nem temos qualquer culpa do edénico disparate dos nossos bíblicos progenitores, não merecíamos que o raio do Pecado Original nos saísse tão caro. Vale surgir de  novo, radiante, o fim-de-semana, esse pequeno vislumbre de salvação. Arbeit macht frei? Só tresloucados, cínicos e perversos nazis se lembrariam de uma coisa destas.

16 setembro, 2016

HEGEL PARA PRINCIPIANTES

Stanley Kubrick | 2001 Odisseia no Espaço

Lecciono, no 12ºano, uma disciplina de opção que junta alunos de três diferentes turmas. Significa isto que sempre que dou uma aula tenho de escrever o sumário três vezes, uma vez que cada turma tem o seu livro de ponto. Hoje, primeira aula, pego na esferográfica e começo pelo livro do 12ºA. Mal acabo de escrever o sumário, a primeira coisa que me vem à cabeça é como irei fazer CTRL+C para depois fazer CTRL+V nos outros livros, para não ter de escrever três vezes a mesma coisa. Esta minha triste figura de esferográfica na mão fez-me lembrar quando na última vez que fui ao futebol, a minha primeira reacção depois do golo que o Benfica acabara de marcar ao Arouca, foi ficar à espera de ver a repetição. Eu bem tento ser conservador mas, como diria um qualquer sensato filósofo da história, a realidade acaba por ter sempre razão. Até as latas de conserva têm prazo de validade.

15 setembro, 2016

14 setembro, 2016

TERÊNCIO REVISITADO

André Kertész | Série On Reading

No Público de ontem, vem um artigo de Paulo Rangel cujo assunto nada tem que ver com os habituais temas políticos: a morte de Barbosa de Melo. Um artigo que não cai na fácil devoção agiológica de cariz corporativo-partidário, nem visa o político social-democrata Barbosa de Melo, mas antes o professor universitário, o intelectual e, sobretudo, o humanista.

Lembro-me de Barbosa de Melo como deputado do PSD e presidente da A.R. Fora isso, trata-se de uma figura que me passou completamente ao lado, não fazendo sequer ideia de ter sido professor de Ciências da Administração. Achei piada pois acontece que quando acabei o liceu e chegou a hora de escolher um curso, uma das razões que me levaram a não ir para Direito foi precisamente não ter de apanhar pela frente cadeiras como Ciências da Administração. Porém, lembra o cronista, o professor leccionava as suas aulas, viajando entre a pintura de Botticelli e a filosofia de Aristóteles, os Fedaralist Papers e o Quixote, Hannah Arendt e Agustina, Homero e Einstein, o padre António Vieira e Freud, Gil Vicente e Churchill. E Kant. Kant estava sempre lá de uma maneira ou outra. E porquê? Não pelo fútil exercício da erudição vazia mas porque, afirma Rangel, só o humano lhe interessava.
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Não creio que a erudição seja condição suficiente ou até necessária para se ser um bom político, tendo que se andar com Tucídides debaixo do braço para ganhar credibilidade e estatuto político. Freitas do Amaral é um homem com uma vasta cultura erudita e nunca votei nele. O engenheiro Sócrates pode citar os filósofos que bem entender, que isso não faz dele uma pessoa recomendável. A personagem do romance As Benevolentes está ligada à filosofia e é um apaixonado pela cultura clássica mas, como muitos nazis que existiram de facto, isso não o impediu de andar a matar judeus e sentir o inebriamento da guerra. Do mesmo modo que há políticos que, não sendo intelectuais, não deixam de ser competentesMas não posso deixar de confessar que me soube bem ler o artigo de Paulo Rangel, desta vez, não sobre um tema político, económico ou social mas sobre o enaltecimento biográfico de um homem no qual se releva a sua erudição e formação humanista, numa época em que a velha Política se tornou num rude Polifemo que, despoticamente, domina a sua ilha, atacando a humanidade que lá quer viver, com as catapultas da finança e da banca. Enfim, uma lufada de humano ar fresco numa sala contaminada por fumo tecnocrata.

A velha cultura pode não servir para as contas de mercearia, que são obviamente importantes para resolver os problemas da saúde, da segurança social, da educação. Mas, e agora penso como o velho Plutarco, é pelo ethos de um político que a política deveria sempre começar. E a primeira coisa que um político deve saber é que, como dizia Terêncio, nada do que e humano lhe é estranho. Sim, eu sei, não chega para equilibrar o défice, pagar o serviço nacional de saúde, uma boa escola pública e as reformas aos cidadãos. Mas temos que começar por algum lado e uma cultura humanista será sempre um elegante e recomendável ponto de partida. Nem que seja porque políticos e professores, e Barbosa de Melo, foi ambas as coisas, serão sempre, ou deveriam ser, modelos para a sociedade.

13 setembro, 2016

A FONTE DO COITO

William Adolphe Bouguereau | Ninfas e Sátiros

Quando era rapaz novo, um dos meus maiores medos era o de enlouquecer. Hoje, é uma das minhas esperanças. E não, não tem nada que ver com aquela parva e subversiva ideia, explorada há uns anos pela anti-psiquiatria, segundo a qual a loucura pode ser uma saudável forma de resistência a padrões morais e relacionais de um alienante mundo capitalista ou um sinal de genuína humanidade no seio de uma família impessoal e despótica. Uma coisa é lixo ideológico disfarçado de sapiência científica, outra é perceber os reais e genuínos benefícios da loucura que aqui venho elogiar.

Numa das suas cartas ao  visconde de Ouguela, escrita no Outono de 1875, queixa-se Camilo de ver os filhos a endoidecerem e a «burrificarem-se». Mas sem entrar em pormenores. Mais tarde, porém, abre mais as janelas do desespero e já conta que o Jorge, esfarrapado, anda de noite, com a sua flauta, a conversar com os rouxinóis. O Nuno, esse, «inventa processos para que os grilos hajam prole das grilas». Mas afinal de contas quem é este homem que se queixa da loucura dos filhos? É o homem, diz ele mesmo, mais privilegiado do planeta em dores de corpo e de alma, a qual é fria e escura como as masmorras. O homem que vai à Foz do Douro e diz que o iodo do mar combinado com a sua podridão dará em breve um iodureto de trampa. O homem que anda pela casa de Seide como uma alma penada para quem a sua atribulada vida não passa de uma malsã recordação. O homem que vive numa casa onde tudo sofre excepto o Nuno e os patos no tanque. Camilo sofre porque tem consciência de si, da sua miserável realidade, do seu miserável destino. Ao contrário do Jorge e do Nuno, ambos felizes, um namorando os rouxinóis ao luar com a sua flauta, o outro, centrado nas trocas carnais entre grilos e grilas. No meio desta tragicomédia, quem quer ser Camilo e quem quer Jorge ou Nuno? Quem quer a parte trágica e quem quer a parte cómica?

Dizia o psiquiatra Viktor Frankl que quando a realidade é má, devemos transformá-la. Se, todavia, não conseguirmos transformá-la, devemos ser nós a transformarmo-nos. Ora, há muito que percebi que não consigo mudar a realidade. Desgraçadamente, vou ter de continuar a trabalhar e quanto mais velho estou mais tenho de trabalhar, quando deveria ser o contrário. Olho à minha volta, e se não vejo o PSD a governar com o CDS, vejo uma geringonça mal amanhada. O mundo está perigoso, feio, desagradável e demasiado moderno para o meu gosto. Não tenho fotografias maravilhosas e felizes ou quilos de profunda cultura para partilhar no facebook com centenas ou milhares de amigos, e como se isso não bastasse sou obrigado a ver diariamente o presidente do Sporting.

Resta-me enlouquecer. Não como Jorge ou Nuno mas como Quixote. Isso explicará o facto de, há dias, ter reagido com poética emoção à vulgar notícia de um crime na primeira página de um jornal. Na altura não o percebi, tendo visto isso como sendo apenas um fugaz devaneio de quem acaba de regressar ao trabalho com muito Sol quente sobre uma frágil cabeça. Só que, dias depois, vou serenamente na estrada, e quis o destino, esse autor desconhecido que escreve a nossa história sem que disso tenhamos consciência, que passasse por um cruzamento onde vejo uma placa a apontar para uma terra chamada Fonte do Coito. O poeta recalcado que há em mim deu logo sinal. Se o crime da tal notícia me levou para um belíssimo conto de Yourcenar, ter visto a placa com o nome desta terra fez a minha desvairada imaginação levar-me quixotescamente para a história medieval contada por Bergman em A Fonte da Virgem. E já que estou a enlouquecer, tal como Quixote, em virtude das variadas leituras, filmes, pinturas ou músicas que me foram secando o cérebro, mereço uma loucura sadia e gratificante. Acontece que o coito de A Fonte da Virgem é um coito trágico, criminoso, soez. A ideia da fonte no final do filme pode ser bela mas é uma beleza trágica e para tragédia já basta as planificações que vou ter de começar a fazer, mais o trabalho de director de turma e as estúpidas e inúteis reuniões que virão. 

Ora, se o sentido da realidade está preso por limitados espartilhos conceptuais, uma tresloucada imaginação permite voar para onde queremos. Daí ter transformado uma simples terra do Portugal profundo numa fonte cujas águas são procuradas por imortais ninfas e faunos, vindos do mundo antigo, refrescando-se para, quais grilos e grilas do Nuno, transformarem a vida numa festa dionísiaca. Quem bebe da Fonte de Hipocrene, escreve, quem beber da Fonte do Coito, coita, e cada um escolherá a água que mais lhe convir. Coitado de mim, dirão os desprevenidos leitores, vendo o estado a que eu cheguei. Feliz de mim, direi antes, por me ter reconciliado com um dos meus medos da adolescência. E embalado pela pastoril flauta do Jorge. Coitado, sim, do pobre Camilo, que teve de emborcar litros e litros da água de Hipocrene para poder sustentar a felicidade dos filhos tontos. 

09 setembro, 2016

NOSSA SENHORA DAS ANDORINHAS

Georges Lemoine | Notre-Dame des Hirondelles

O JN traz hoje na primeira página uma notícia de uma beleza e poesia esmagadoras: «Vila Verde- Homem encontrado morto em casa rodeado de pássaros».

Poderia ter sido em Vila Franca de Xira, em Vila Velha de Ródão, em Vila da Feira, em Vila do Conde, em Vila Nova da Barquinha ou em Vila Pouca de Aguiar. Mas não, foi numa vila verde que haveria de aparecer um homem rodeado de pássaros. Quem deve ter sorrido lá no céu foi Therapion, o velho anacoreta, discípulo do austero Atanásio.

03 setembro, 2016

ABELHINHAS E ABELHÕES

Leon Wyczółkowski | Eu vi uma vez

Um dos pontos fortes de A Midsummer Night's Sex Comedy, de Woody Allen é a deliciosa tensão entre a ordem e a desordem, a razão e o irracional, a civilização e a natureza. E, na sequência de outros filmes como Une Partie de Campagne  ou Le Déjeuner sur l'Herbe, de Jean Renoir ou Sorrisos de uma Noite de Verão, de Bergman, o apelo da natureza é mais forte, ficando as emoções completamente rendidas a uma outra ordem que vence os vulgares mecanismos racionais que supostamente regulam o nosso livre-arbítrio.

O que salta à vista nesta pintura é essa tensão. Pronto, temos um ambiente formal. Uma elegante sala burguesa com o seu inevitável piano. Uma menina que toca piano e certamente falará francês. Pela posição do seu corpo, todo virado para o piano, pelas suas mãos, uma no teclado, a outra, virando a página, percebemos que deseja mesmo tocar piano, e tocar piano para o bem vestido, bem parecido e certamente culto e educado jovem que lhe faz companhia. Eis, pois, a cena montada com toda a sua apolínea clarividência. Mas qual é o verdadeiro centro de gravidade da imagem? O que se vê mesmo ali? O amarelo. O amarelo como força centrípeta que suga os nossos olhos para o primeiro plano. A ideia de amarelo é perigosa e traiçoeira. Diz-me o dicionário Houaiss que amarelo pode ter como sinónimos "desmaiado", "pálido", "descorado". E amarelar é "perder o viço". Amarelo, neste sentido, tanto lembra uma pessoa doente como um jornal velho ou a lenta morte de vegetais ou frutos que antes foram carnudos e lustrosos. Pensado assim, quase poderíamos dizer que o amarelo nem é bem uma cor mas uma ausência de cor. A cor na qual qualquer cor teria medo de se tornar se as cores tivessem consciência de si. Mas não é esse temido amarelo que aqui vemos pintado pelo artista polaco. Trata-se de um amarelo vaidoso, orgulhoso, um amarelo narcísico que abafa tudo o que o rodeia. Um amarelo rutilante, vivo, provocador, um amarelo que quer dizer ao mundo que é mesmo amarelo. Um amarelo tão amarelo que nos atrevemos a dizer que a rapariga não está apenas vestida de amarelo mas vivida de amarelo. Um amarelo que incendeia a monotonia dos dias como um farol que tenta salvar a noite da sua escuridão. E um amarelo em claro contraste com as cores sóbrias e convencionais do jovem burguês. 

Mas o amarelo não surge aqui isolado. Apesar da sua importância e relativa auto-suficiência, o amarelo é aqui complementado com outro elemento decisivo. Por cima, do piano, por cima da pauta, o que vemos? Um esplendoroso bouquet de flores silvestres, completando a diagonal do corpo amarelo da rapariga. E já que, com a diagonal, entramos no campo de um olhar geométrico, levemos mais longe o exercício. Temos a rapariga de amarelo no início da diagonal. Depois, o piano. Depois do piano, a pauta com as notas musicais. Por fim, as flores. Ou seja, há aqui uma clara harmonia simétrica entre os extremos e o meio. No meio, temos a ordem, a civilização, a técnica, a sofisticação estética, o rigor formal de uma composição clássica. Nas pontas, porém, o que temos? A espontaneidade da cor, o esplendor dos sentidos, o fulgor aromático e selvagem da natureza que desconstrói por completo a sobriedade e convencionalidade burguesa do salão. Esta rapariga quer tocar piano, quer concentrar-se no rigor da execução, mas o seu vestido, o seu vestido amarelo transforma-a numa livre e indomável abelhinha à solta. E o burguês e convencional rapaz que a rodeia, faz por ouvir a música, aliás, parece mesmo estar a acompanhar a execução da jovem com a sua voz e gestos mas esqueceu a sua máscara apolínea, tornando-se num abelhão embevecido atraído pela jovialidade dourada da jovem donzela.

Se encostarmos o ouvido a esta  pintura, podemos, com algum esforço, ouvir a melodia das notas musicais a sair dele, cá para mim uma coisa alegre, que tanto pode ser uma sonata de Mozart como uma popular canção polaca. Mas o que ouvimos mesmo bem, abafando a própria música, são os risos livres destes jovens, as suas espontâneas gargalhadas que têm tanto de pueril como de provocador, acompanhadas por gestos que a sábia natureza ensinou a afinar, e desafinando o que tanto trabalho e paciência deu a um civilizado músico a compor. A rapariga amarela toca piano, é verdade. Mas o que na verdade ali faz é apenas cumprir as leis que a sábia natureza conhece milenarmente e que nós, humanos, tendemos a disfarçar, transformando aquela burguesa sala num templo sagrado na qual estes dois jovens se encontram um com o outro no exacto momento em que se perdem.

02 setembro, 2016

OLHO VIVO

Garry Winogrand | Sem Título, NY, 1969

Quis o Diabo que eu tivesse de nascer e viver numa terra que, no Verão, foi feita para ser habitada por animais de sangue frio. Quando, no Verão, por prementes e inadiáveis razões, preciso de sair em horas impróprias para humanos, ainda hoje me surpreendo ao ver por aí, em vez de répteis, coiotes e abutres pelo ar, seres dotados de racionalidade. Sempre gostei de ver os boletins meteorológicos, aquela coisa de seguir as terras mais quentes, as mais frias, as que sobem, as que descem, como se da Volta a Portugal ou o Tour de France se tratasse. Lembro-me de, há uns anos, ao ver as temperaturas de Évora e Beja, com os seus consecutivos recordes de calor, ficar arrepiado só de pensar nas pessoas que lá vivem. Entretanto, nos últimos anos, para mal dos meus pecados, tem vindo a ser o distrito de Santarém cada vez mais o Joaquim Agostinho do calor, com efeitos imediatos no meu desespero e perdição. Todo eu sou outonal e se calhasse ser uma alegoria renascentista ou barroca, teria sempre de surgir banhado por uma luz ténue e pintado com tons castanhos e amarelados.

Há anos que tenho um ritual. Não é bem um ritual mas antes uma reacção mecânica, um automatismo quase homeostático: vestir calções  no meu primeiro dia de férias e só voltar a despi-los no primeiro dia de trabalho. Acontece ter sido ontem este malfadado dia. Um dia de revolta: por voltar ao trabalho, pelo estúpido calor, mas também pela discriminação dos homens face às mulheres, imediatamente constatada ao entrar na sala de professores, ou melhor, e mais propriamente, de professoras. Enquanto o mulherio pode optar por vestidos ou saias e até alguns tipos de calções, permitindo assim uma maior ventilação abaixo da cintura, exigem  as convenções sociais que um professor não possa ir trabalhar de calções, ficando obrigado a mortificar-se com esse cilício de tecido que são as calças, exorbitando mais ainda as ígneas agruras da canícula. Mas não só. Enquanto uma mulher pode aparecer com uma blusa de alças, descobrindo por completo os braços, ombros, omoplatas, pescoço e até o peito até onde o pudor e o decoro permitem, impedem as convenções sociais que um professor possa aparecer no seu local de trabalho com uma T-shirt de alças, ainda que sem o clássico boné com a pala virada ao contrário e tatuagens nos braços. Nem que fosse da Ralph Lauren ou me apresentasse com um crocodilo sobre o mamilo. Mas a discriminação não acaba aqui. É sobejamente conhecida a tara das mulheres pelo calçado que lhes veste e adorna os pés. Tara que inclui, para além de sapatos tão abertos como a alma de um poeta, sandálias das mais variadas e até exóticas formas, aceites nas mais formais ocasiões. Ora alguém imagina, seja um importante gestor ou administrador, seja um simples professor ou bancário, a aparecer de sandálias no seu local de trabalho? O que implica, para além de já ter que cobrir pernas, braços, ombros (para já não falar nos homens obrigados a usar colarinho apertado com gravata e fato completo), andar com os pés a arder sobre um solo que mais parece a superfície do Inferno.

Acontece que para além do azar de viver no sítio estupidamente mais quente de Portugal, acresce o outro de não viver em França, berço da igualdade, liberdade e fraternidade. Fosse esse o caso e teria a esperança de, um dia, em virtude dos mais elevados e sofisticados argumentos filosóficos, poder ver o governo do meu país proibir os homens de, no Verão, vestirem calças, camisas de manga comprida e penitenciarem-se com a tortura dos sapatos apertados, evitando assim qualquer tipo de discriminação entre homens e mulheres, resultante de meras e arbitrárias convenções sociais. Azar dos azares, vivo num país ainda sujeito às mais fundamentalistas e retrógradas convenções, sendo obrigado a sair sob um sol impenitente para ir trabalhar como se para as masmorras da inquisição me dirigisse. É verdade que as mulheres não estão completamente isentas de discriminação. Enquanto um homem pode estar na praia, na piscina ou até, em certos lugares, na rua ou numa esplanada a beber imperais e a comer tremoços, em tronco nu, as mulheres são ainda obrigadas a esse espartilho social que as obriga, à excepção de algumas mais generosas e cosmopolitas praias, a tapar as mamas. Igualdade da cintura para baixo, sim, mas indigna desigualdade da cintura para cima. Juro que não digo isto motivado por um malicioso interesse próprio, uma vez que até sou adepto de as intimidades estarem reservadas para as mais especiais e impartilháveis ocasiões. Trata-se de um genuíno acto indignação perante esta discriminação do sexo oposto, o que mostra até ausência de ressentimento, se bem que não de inveja, face aos seus benefícios acima referidos. Sorte virão a ter um dias as mulheres francesas, protegidas pelos governos da república, sejam de direita ou de esquerda. Se já existe o desejo político de obrigar, na praia, todas as mulheres a exibir braços, pernas, cabelo ou pescoço, para não ficarem atrás dos homens, virá o dia em que a igualdade será total, sendo obrigadas a exibirem as suas livres e jacobinas mamas, sejam elas firmes e hirtas como as de Marianne, sejam elas mais penalizadas pela força da gravidade, evitando assim sujeitá-las a uma convenção social da qual o tempo libertou os homens. 

Quis o Diabo que eu nascesse em Portugal, país atrasado, o que pode ser explicado pelas nefastas influências de religiões pouco ilustradas. Sorte tiveram os gauleses, por Deus, qual judeu, qual brasileiro, qual opressiva carapuça, se ter tornado francês desde o século XVIII, vigiando solenemente a pátria com o seu racional olho que tudo vê, fazendo dela a terra da liberdade, igualdade e fraternidade.

31 agosto, 2016

BURKINI

Masao Yamamoto | #1400, Série Nakazora, 2006

[...] Lilliput e Blefuscu, as duas grandes potências que, como lhe ia dizendo, estão empenhadas numa guerra violenta que dura já há trinta e seis luas. Começou da seguinte maneira: todas as pessoas reconhecem que o modo primitivo de partir ovos antes de os comermos era o de parti-los pela extremidade mais larga; mas o avô do actual rei, quando era ainda criança, cortou uma das mãos ao partir um ovo de acordo com o costume antigo. Imediatamente, o imperador, seu pai, publicou um édito ordenando que todos os seus súbditos passassem a partir os ovos pela parte menor, incorrendo em grandes castigos os que desobedecessem a esta ordem. O povo ressentiu-se tanto desta lei que, de acordo com as nossas histórias, houve seis revoltas; numa delas, um imperador perdeu a vida; noutra, um imperador perdeu o trono. Estes tumultos civis foram constantemente fomentados pelos monarcas de Blefescu; e quando eram interrompidos, os exilados procuraram sempre refúgio naquele império. Calcula-se que onze mil pessoas em diferentes períodos tenham preferido a morte a partir os ovos pela extremidade menor. Já foram publicadas muitas centenas de volumes imensos dedicados a esta controvérsia. Mas os livros dos que se mostram a favor da quebra dos ovos pela extremidade mais larga estão, de há muito, proibidos, e os partidários desta ideologia incapacitados, por lei, de ter empregos. No decurso destas desordens, os imperadores de Blefescu manifestaram-se frequentemente, por intermédio dos seus embaixadores, acusando-nos de provocar uma divisão na religião por irmos contra uma doutrina fundamental do nosso grande profeta Lustrog, contida no capítulo quinquagésimo quarto do Blundencral (o Alcorão dos lilliputianos). Isto, contudo, é considerado como uma simples distorção do texto, porquanto as palavras exactas são as seguintes: "Todos os verdadeiros crentes partirão os ovos pela extremidade conveniente." Ora, qual seja a extremidade conveniente parece-me ser, na minha humilde opinião, uma questão que deve ser deixada à consciência individual [...].

Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver, 1726

23 agosto, 2016

A ESPLANADA

Sebastiano del Piombo | Giovane Romana detta Dorotea

E por falar em contos de Nabokov, há um outro, chamado La Veneziana que, escrito em 1924, antecipa a ideia, embora mais estética e fenomenológica do que física, de se poder entrar dentro da pintura, como viria a fazer Yourcenar num dos seus Contos Orientais, o realizador Akira Kurosawa num dos seus belos «sonhos» com a pintura de Van Gogh ou, noutro contexto, o que fez Woody Allen no fabuloso Rosa Púrpura do Cairo, onde uma mulher. numa sala de cinema. entra no próprio filme depois do seu herói sair da tela para a levar.

O conto tem pano para mangas mas restrinjo-me apenas ao seguinte. No castelo de um coleccionador de arte, encontra-se um quadro de Sebastiano del Piombo chamado La Veneziana. Na realidade, o quadro não existe mas, segundo Dimitri Nabokov, filho do escritor, é quase de certeza inspirado num outro do mesmo pintor, esse sim, verdadeiro, e que ele terá visto no Staatliche Museum de Berlim, chamado Giovane Romana detta Dorotea. No castelo, encontra-se a passar uns dias um restaurador e grande amante de pintura (McGore), assim como Simpson, um jovem simples e apagado e sem quaisquer conhecimentos de arte. Convidando o segundo para contemplar o quadro de Piombo, McGore, explicando ao jovem a sua paixão pela pintura, revela que sempre que está perante um quadro que mexe com ele, concentra toda a sua força de vontade para nele entrar, transformando-o numa realidade viva onde acontecem coisas. Coisas às quais, naturalmente, só tem o privilégio de assistir quem fizer esse exercício..

Esta ideia de entrar para dentro da própria pintura fez-me lembrar Malraux a dizer em As Vozes do Silêncio, que a feição principal da pintura moderna é não narrar. Mais: que o fim da arte da ficção é uma condição para o nascimento da arte moderna. Significa isto, claro, digo eu, que se fizermos o exercício de entrar em grande parte da pintura contemporânea actual, não haverá muito para dizer ou fazer. Direi mesmo que a minha vontade é voltar para trás, preferindo sentar-me a ler o jornal numa qualquer esplanada com uma água tónica fresca com limão. Ora bem, associar a pintura a uma lógica narrativa como faz Malraux, não implica pensar em termos puramente figurativos no seu sentido mais clássico e realista, ainda que o motivo seja mitológico ou sobrenatural. Quer dizer, não tem de ser o interior de uma casa holandesa do século XVII, a representação de uma batalha entre cristãos e turcos que, de facto existiu, o rosto fotográfico de um burguês italiano do século XVI, como não tem de ser uma descrição realista de um  anjo a anunciar a gravidez de Maria num quadro renascentista, ou a sua ascensão ao céu num quadro barroco. Muito menos terá de ser um quadro onde o que mais importa é a descrição ilustrativa de um acto social, como nos humorísticos quadros de Hogarth ou, por razões mais sérias (e algumas cómicas) na pintura de Daumier. Dê lá por onde der, grande parte da boa pintura moderna, incluindo muita a já caminhar para a abstracção, é ainda figurativa. E enquanto assim for, abre a porta à narrativa e aos naturais mecanismos da ficção, quanto a mim, a melhor homenagem que à pintura pode ser feita e a mais interessante via de a abordar. Não pretendo com isto dizer que não haja boa pintura não figurativa. Há. Como há péssima pintura figurativa e cujo atroz mau gosto só dá vontade de a atirar pela janela. Quero apenas dizer que o excesso de vanguardismo e de experimentalismo foram, a pouco e pouco, levando a pintura para terrenos cada vez mais pantanosos e que sob a capa da liberdade artística e da procura de novos rumos, a pintura foi-se tornando cada vez mais opaca, limitando-se a alimentar discursos que quanto mais inteligentes parecem, mais vazios e estúpidos se tornam. 

O que significará o desejo de McGore de entrar no próprio quadro? É como sentado numa esplanada de uma cidade de um país onde se chega pela primeira vez, observando o movimento à sua volta em busca de um sentido para o que se vê, fazendo com que essa realidade passe a fazer parte de nós ou nós parte dela, como um texto que se decorou (com o coração, claro), e que passa a fazer parte de nós tal como as nossas memórias mais íntimas e pessoais. Observar com atenção o que se passa à nossa volta, implica uma lógica narrativa feita de pessoas, acções, desejos, emoções, objectivos, ambientes, a mesma lógica a que se refere Malraux ao pensar nas personagens, acções, desejos, emoções, objectivos que, consubstanciados em cores e formas, observamos na arte figurativa passível de ser narrada. Como McGore certamente sabia, o melhor que podemos descobrir numa pintura são os seus cheiros, os seus sons, as texturas dos seus objectos, o que terão dito ou irão dizer as suas personagens, quais os seus processos mentais, transformando cada pintura numa praça onde, sentados numa esplanada, descobrimos a beleza de novos mundos em vez de estarmos apenas a ler o jornal com uma água tónica fresca.

22 agosto, 2016

TERROR


Jorge Molder | série Nox, 1999

Farto de ser vítima da minha desorganização mental, decidi finalmente fazer uma lista das compras para não ter que chegar a casa e descobrir que me faltou a salsa, a lata de grão ou os queijos frescos. Sentar-me pacientemente na mesa da cozinha a escrever a lista das compras teve, na minha bárbara mente, o mesmo impacto civilizacional do Código Hamurabi, da Magna Carta ou do Code Napoleónico nas respectivas sociedades, daí o meu natural orgulho ao ver a minha letra, apesar de horrível, ao serviço de uma causa superior: a passagem do caos ao cosmos na intimidade de uma teogonia doméstica. Saio de casa todo contentinho e ufano por aí afora, a sentir o fresquinho da manhã, e é já entre a capela de S. António e o Continente que descubro ter deixado na mesa da cozinha a lista das compras do meu orgulho e contentamento.

Há um conto de Nabokov chamado «Terror», onde, entre outras coisas mais radicais e com requintado grau de morbidez e até de uma certa filosófica mistura de insânia e lucidez, explica o narrador que, de noite, ao sentar-se na secretária a trabalhar, se esquece de tal maneira de si próprio que ao ver-se depois ao espelho não se reconhece como sendo ele, tendo aquela primeira impressão de quem vê um amigo íntimo após anos de separação, um rosto familiar mas vazio de significado. O que se passa comigo é um bocadinho diferente mas não menos assustador. Não se trata de deixar de me reconhecer mas de me sentir nas garras de um fantasma interior que brinca comigo, tornando-me refém das suas perversas graçolas. Um fantasma que, através de um insidioso processo  de manipulação, me dissolve e suga para um mundo onde eu eu sou mas já sem ser eu. Estou tão farto dele que a minha vontade era atirar-lhe uma lata de grão como se fosse uma pessoa de carne e osso. Mas um fantasma é como um gás que nos toca, abraça, envolve, aperta mas sem  se deixar tocar, abraçar, envolver, apertar. Sacana.

19 agosto, 2016

CARRUAGEM 21



À minha frente, no Intercidades, viaja um casal já de uma certa idade. Entretanto, o comboio pára numa estação e pouco depois chega ao pé deles uma jovem que, algo arrogante e sem hesitações, lhes diz que um daqueles lugares é dela. Apesar da minha má visão por estarem de costas, percebo alguma atrapalhação no casal, tendo o homem dito, ele sim, hesitante e com alguma humildade, que julgava estar no lugar correcto, começando de imediato a procurar os bilhetes. E a rapariga, que não, que eles é que estavam mal e, denunciando já uma certa impaciência, consulta o telemóvel para provar que um daqueles lugares era o dela. A situação mais confusa fica quando o homem mostra os dois bilhetes, provando estarem nos lugares certos. Foi então que se descobriu que, sim, um daqueles lugares seria o da rapariga se estivéssemos na carruagem 22. Acontece que estávamos na carruagem 21. E sem pedir desculpa ou com o mais leve sorriso de embaraço, a rapariga lá foi para a sua carruagem.

A cega crença que levou a  rapariga a achar que estava cheia de razão, é muito interessante. Não por esta situação insignificante mas a sua semelhança com outras, essas sim relevantes, que incorrem numa falácia que consiste em acreditar que pelo facto de uma parte ser verdadeira, o todo ao qual pertence também o será. Crenças de natureza política, ideológica, pedagógica e tantas outras. Por exemplo, ser comunista pelo facto do comunismo conter alguns valores bondosos para a humanidade, entusiasmar-se com as primaveras árabes ou a exportação da democracia liberal para o mundo muçulmano em virtude da sua bondade intrínseca ou a fé em modelos pedagógicos letais para o ensino sob pretexto de apoiar os jovens menos favorecidos. Uma das características do pensamento utópico explicada por Isaiah Berlin, é a crença dogmática num todo onde os valores se conjugam harmoniosamente, sem qualquer tipo de conflito ou incompatibilidades. Crença que está na origem de enormes crueldades e atrocidades em nome de princípios justos e verdadeiros.

Conheci o cartonista George du Maurier (1834-1896) graças a um romance de David Lodge, «Autor, Autor», uma grande e comovente homenagem a Henry James, grande amigo daquele e onde surge como personagem importante. A ilustração que vemos em cima é uma das suas mais conhecidas. O jovem e simples clérigo, fazendo grande cerimónia em casa do bispo que o convida para jantar, não rejeita o ovo em más condições que lhe é dado a comer. É fantástico o sentido de humor de Du Maurier perante a humildade do jovem que tem a consciência do todo ser mau mas não quer desapontar o bispo. Embora por razões completamente opostas (arrogância, presunção de superioridade, vontade de  poder em vez da humildade, simplicidade e até subserviência do jovem), a mesma piada poderia ser atirada a todos aqueles que falaciosamente rejeitam a ideia de um ovo estar estragado pelo facto de certas partes deles serem supostamente comestíveis. Falácia que já levou milhões de pessoas ao longo da história, a tremendas intoxicações. Noutros contextos, por acreditar que aquele lugar era o seu, nem quero pensar no que poderia fazer aquela jovem ao casal que viajava sossegadinho no seu lugar rumo ao seu destino.

01 agosto, 2016

AI QUE PRAZER TER UM LIVRO PARA LER

Peter Vilhelm Ilsted | Mulher Lendo, 1907

O fenómeno não é novo. Mas também é verdade que nunca foi tão fácil como agora ter uma razoável cultura literária sem precisar de ler. A receita é simples: ler umas recensões críticas em jornais de referência, apanhar de raspão na TV, durante um zapping, algumas ideias sobre um livro, e quem diz TV diz um blogue, enfim, algumas úteis informações cozinhadas nas redes sociais para serem reaquecidas e servidas as vezes que forem necessárias, sem que o livro tivesse alguma vez surgido à frente dos olhos de tanta gente supostamente culta e dando ares de intelectual, que já não andando na rua com um livro debaixo do braço como em tempos, usa o teclado de um computador para mostrar ao mundo toda a sua vasta erudição. Nada disto é grave, a vida é mesmo assim, e de certeza que já nos salões literários do séculos XVIII e XIX, embora por via oral, o mesmo fenómeno ocorreria.

O que não deixa de ser engraçado, mas também não menos perverso, é o natural processo corrosivo da memória acabar por colocar num mesmo nível de cognição a pessoa A que leu um livro e a pessoa B, que não o leu, e do qual irão ambas falar. Cinco, dez ou vinte anos depois de se ler um livro, o que dele se sabe é praticamente o que sabe quem não o leu mas dele sabe falar graças a um conjunto de referências obtidas ad hoc. E quanto mais distante tiver sido a leitura mais as duas posições se equivalem. Tal acontece porque, com o passar do tempo, grande parte dos conteúdos resultantes da leitura se esvaem para se fossilizarem num conjunto de referências gerais, que podem ser aprendidas sem um contacto directo com o texto. Os processos são muito diferentes mas o resultado é o mesmo. O mesmo se passa na escola quando se trata de fazer testes sobre obras que não foram lidas. O aluno compra uma sebenta ou consulta um site onde aprende a conhecer o assunto principal da obra, a resumir os capítulos ou a caracterizar as personagens, podendo vir a ter a mesma classificação de um outro que a leu de fio a pavio, sendo difícil distingui-los. Pode dar-se mesmo o caso do aluno que não leu a obra tirar melhor nota do que aquele que a leu, em virtude de uma boa capacidade para lidar com informações obtidas por via indirecta. O que virá depois, ao longo da vida, não é diferente. Se alguém disser ou escrever que certa pessoa lembra o Bartleby, se comparar o carácter de Aquiles com o de Agamémnon, ou aproveitar umas linhas para dissertar sobre o Quixote, o Homem sem Qualidades, a Recherche (dito assim, com o seu francês nickname, para reforçar as afinidades electivas entre pessoas que falam de livros que não leram), o que se passa na sua consciência é semelhante ao que se passa na consciência de quem efectivamente os leu, e tanto mais assim será quanto mais afastada no tempo tiver sido a leitura, uma vez que «ter lido» não é mesmo do que «estar a ler», do mesmo modo que o pastel de nata comido por um japonês há 5 anos não é o mesmo pastel de nata comido na hora por esse mesmo japonês. A memória de quem o comeu há 5 anos, permite apenas invocar de um modo vago, insípido e demasiado geral um sabor doce que mistura açúcar, ovos, nata e massa folhada, uma textura cremosa por dentro e outra mais rija por fora. Uma memória que, sendo directa (a pessoa comeu mesmo o bolo) acaba por, mutatis mutandis, estar no mesmo plano da memória da pessoa que leu o livro há muito, a qual irá coincidir com a memória indirecta (como diria Espinosa,  um conhecimento por «ouvir-dizer») da pessoa que não o leu mas sabe dele falar. Um processo de cristalização conceptual que pode ocorrer igualmente na Filosofia. Num plano conceptual, o que distingue a pessoa que fala do imperativo categórico depois de ter lido Kant, ou do que pensa Platão sobre a poesia ou pintura depois de ter lido a República, daquela que conhece por ter aprendido numa aula ou lido rapidamente alguma coisa sobre o assunto num site de Filosofia?  

Com o cinema pode acontecer a mesma coisa. Lembro-me de ser garoto e de gostar e falar de filmes ainda antes de os ter visto, por saber do que tratavam, o que criticavam, o que defendiam, o estilo. Qualquer pessoa pode fazê-lo, tal como faz com os livros. Todavia, por muito aborrecido, complexo, tortuoso que seja o filme, bastam duas horas para que se chegue ao fim, valendo assim a pena o investimento para depois dele se falar com erudito e pimpão «conhecimento de causa». Com o livro já é mais complexo. Ler exige mais atenção, concentração, tempo. Mesmo um livro de cem páginas exige algumas horas de leitura e de total afastamento do mundo, exilando o olhar numa folha de papel onde, ao contrário de um filme, por muito parado que seja, nada acontece, apenas caracteres pretos numa superfície branca, os quais terão de ser descodificados por alguém em cuja mente é obrigatório existir vida inteligente.

Porém, se de um ponto de vista conceptual ou no plano dos lugares comuns sobre um livro ou uma personagem (quem não sabe distinguir, mesmo sem ter lido, o Quixote de Sancho Pança? Revelar profundos conhecimentos de psicologia para caracterizar Raskolnikov ou Julien Sorel ou uma mítica madalena molhada no chá? Quem não é capaz de ter o seu Hamletezinho de trazer por casa? Ou capaz de debitar meia dúzia de ditos espirituais de Oscar Wilde com a mesma naturalidade de um analfabeto que clama pelos «egrégios avós» quando canta o hino nacional num estádio?), não há grande diferença entre quem lê e quem não lê, existe, todavia, algo que não é de somenos importância, que os separa: o prazer de ler. Prazer, mesmo que grande parte da leitura se esqueça ou dela se venha a ter apenas uma vaga memória. Ler não é um processo com vista a um resultado mas o próprio resultado, um fim em si mesmo. Ainda que passados uns minutos o sabor desapareça, não se deixa de comer o pastel de nata, pois o objectivo é precisamente o prazer que dá comê-lo. E mesmo que haja a necessidade de o fazer para matar a fome, o prazer de o saborear não é idêntico ao prazer de deixar sentir fome. O primeiro situa-se num plano estético, o segundo num plano funcional. Precisamente o mesmo que distingue quem leu livros dos quais parcialmente se esqueceu, de quem deles fala sem nunca os ter lido mas dos quais se serve para alcançar objectivos que nada têm que ver com tudo aquilo que um bom livro pode proporcionar a quem o leu.

18 julho, 2016

TRIUNFO SEM ODE

Angelo Morbelli | S'Avanza, 1894-96

O rapaz, de vinte e poucos anos, ar universitário, entra na carruagem e senta-se à minha frente. Acto contínuo, saca um livro da mochila, no caso, Pastoral Americana, de Philip Roth, pousando-o no lugar ao lado. Acto contínuo, tira de um bolso o telemóvel, começando a escrever e receber mensagens. Quando hora e tal depois, saio na minha estação, era o que continuava a fazer. 

Eu estava a fazer uma viagem de comboio mas tive o privilégio de fazer uma viagem no tempo. Não no sentido tradicional da expressão, como acontece com a pessoa da cidade que, visitando uma aldeia nos confins da serra, presencia algo que já não existe, mas no sentido de presenciar a própria substância do tempo, essa tempestade de que fala Benjamin, empurrando as pessoas para o futuro. A pessoa da cidade que visita a aldeia, passeia entre ruínas, vendo ainda à superfície, como almas penadas agonizantes, sinais de vida, o que ficou soterrado nas areias do tempo. No fundo, como numa feira medieval só que mesmo a sério, sem figurantes, produtos regionais e organizado por uma câmara municipal. O que me aconteceu naquela viagem foi uma coisa diferente: ver o anjo do tempo no preciso momento em que abana as suas poderosas e implacáveis asas e o seu sopro forte levanta as areias e poeiras que irão cobrir o que ainda está bem vivo e com sangue fresco na guelra.

Aquele rapaz pensou ler aquele livro no comboio. Achou que uma aborrecida viagem de comboio seria um bom momento para pôr a leitura em dia. Porém, não foi capaz de o ler. Não porque não o quisesse (bem pelo contrário) ou até não estivesse muito motivado para o fazer, mas porque o pujante esvoaçar do anjo não o deixou. Não por fazer mexer as folhas, como num dia de vento na praia mas porque a sua leitura foi ultrapassada pela impetuosa e implacável força do progresso. Há coisas que desaparecem da história por serem objectivamente más. Mas não é isso que acontece com grande parte delas. As coisas desaparecem porque surgem outras. As carroças e os arados puxados por bois não desapareceram por serem maus mas porque surgiram carros e tractores, que são melhores, sendo fácil medir e comparar as suas vantagens e desvantagens. Porém, nem tudo o que faz desaparecer objectos, acções, profissões, hábitos milenares, sonhos, é mensurável e passível de ser analisado utilitariamente. O que se deixou de fazer quando as televisões entraram nos lares das pessoas, não era  menos útil e vantajoso do que o que se passou a fazer depois. Ao invés de quem trocou carroças por carros por serem melhores, as pessoas não substituíram o que faziam antes da televisão por passar a ser melhor mas porque as asas do anjo da história a isso as obrigou. Levemente, sorrateiramente, como um gás incolor e inodoro que penetra na consciência das pessoas, alterando-lhes as crenças, os desejos, as motivações, as acções. No fundo, trata-se de uma espécie de lobotomia, impossibilitando o que antes se fazia natural e espontaneamente. Por isso o anjo da história é também uma cirurgião perverso que, com o pretexto do progresso, retira tecidos, limitando os comportamentos das pessoas ao que a sua pragmática e optimista vontade lhes impõe.

É por isso que o gesto do rapaz ao colocar o livro no lugar vazio nada tem que ver com o gesto desta mulher que deixa cair o livro para o chão depois de adormecer. Ainda que o rapaz o faça consciente e intencionalmente e a mulher sem disso se dar conta, ele está muito mais impedido de continuar a leitura do que ela. Ela deixou de ler só porque foi vencida pela lânguida luz e a cálida brisa do entardecer, talvez até embalada pela melodia dos pássaros ou o indolente e melancólico cantar dos grilos. Mas o seu tempo de leitura é o tempo da leitura. Esta mulher sai da sala para a cadeira no exterior com o livro na mão porque ler faz tão parte da substância do seu tempo como o sal da água do mar. Não parou de ler porque o vento da história a impedisse de ler, apenas porque o vento suave do Estio interrompeu a sua leitura naquele final de tarde. Já o rapaz leva o livro para a viagem, sim, mas como se o seu tempo de leitura fosse água numa salina que sob o escaldante e espasmódico Sol do progresso que cria, inventa, excita, revoluciona hábitos, rotinas, prazeres, desejos, vontades, se vai evaporando, até desaparecer por completo nas brumas do tempo. 

16 julho, 2016

A TRAGICOMÉDIA DE UM HOMEM NORMAL

Duane Michals, 1982

Quando caiu a ponte de Entre-os-Rios, e andava uma repórter da TVI a perguntar aos familiares das vítimas o que sentiam, muitas pessoas, eu incluído, reagiram com um misto de perplexidade e de escárnio. O mesmo, poucos anos depois, ao ver em directo, auto-estrada fora, o percurso do carro funerário que transportou o jogador Fehér de Guimarães para Lisboa. Já passaram bastante anos mas foram dois momentos importantes da nossa pós-modernidade que, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, começou num programa de televisão francês no qual uma mulher se queixava da sua vida sexual com o marido.

Qual pois o espanto de ver um jornalista perguntar em directo a um homem que chora ao lado da mulher, acabada de morrer, no atentado de Nice, o que sente? A pergunta pode parecer chocante, importuna, demencial, devassadora. Mas está em perfeita sintonia com o tempo presente, no qual todos nós somos actores e encenadores, vivendo sempre em cima de um palco para, em tempo real, exibir perante um auditório universal essa magistral peça que é a vida de cada um de nós. Uma vida que presumimos sempre da maior importância para o mundo, daí a incontinente e vital necessidade de falar de nós, de expor os nossos estados de alma, de mostrar as fotos de tudo e mais alguma coisa, desde uma viagem, ao prato que temos à frente no restaurante. O jornalista da France 2 não passa de um homem normal que apenas solicita o que todas as pessoas normais esperam de outro homem normal. Diz o mesmo sociólogo que vivemos um tempo líquido, em que tudo é líquido. Tal como as lágrimas daquele homem o serão para o jornalista que lhe pergunta o que está a sentir mas que rapidamente irão secar, pois, paradoxalmente, quanto mais líquido for o mundo mais depressa as coisas secam.

04 maio, 2016

FRANCISCO DE GOYA | OS DUQUES DE OSUNA E SEUS FILHOS, 1788


Tendo nascido, estudado e vivido em Pisa, seria natural que a grande torre em frente à catedral fizesse parte da paisagem quotidiana de Galileu Galilei. Não pela inclinação que desvirtuou a geométrica perfeição desejada pelo seu arquitecto e que hoje faz as delícias dos milhares de turistas que lá vão para, com a selfie da praxe ou a ilusão óptica da mão a sustentar a torre, poderem brilhar no Facebook ou no Instagram. Antes pelo facto de ajudar o cientista pisano a construir uma outra perfeição, num solo menos propício a inesperadas inclinações: a matematização dos fenómenos físicos, nomeadamente a relação entre a força e a velocidade, observada a partir da aceleração de um objecto em queda. Uma grande torre seria pois um bom lugar para as suas experiências, longe, portanto, da cómica identidade que haveria de se agarrar à sua pedra.

Os turistas vão à torre de Pisa por ser um sítio onde os turistas vão. Os turistas imitam-se, sendo tanto mais verdadeiros e eficazes quanto mais virem o que vêem os outros turistas. Sim, mas para além da alegria de poder estar a ver o que outros turistas vêem, o que se passará mesmo na consciência do turista diante da torre? Obviamente o efeito cómico da sua inclinação. Na base dessa sua comicidade não está apenas a fuga a uma ordem marcada pela previsibilidade, a tal previsibilidade que Galileu perseguia nas suas experiências. Estivesse em ruínas como as duas torres de Babel de Pieter Bruegel e fosse a inclinação apenas mais um elemento da sua decadência, seria bem diferente o seu impacto visual, adquirindo uma aura romântica e misteriosa em vez de um vulgar efeito cómico. Tal efeito resulta precisamente do facto de a torre estar inclinada sem perder as perfeitas gravitas e majestas projectadas pelo seu arquitecto. A mesma razão pela qual é cómico ver uma pessoa vulgar a escorregar numa casca de banana ou a entornar um copo de vinho na camisa, mas se for um executivo ou banqueiro de ar grave e impecavelmente vestido, mais cómico se torna. E a partir do momento em que tal acontece, o executivo torna-se um ser humano mais normal, desenvernizado, imperfeito, sujeito às naturais contingências das vidas comuns.

Não terá sido por acaso que Goya subtilmente inclinou Pedro Téllez Girón no célebre retrato onde surge junto da sua mulher e filhos. Convém lembrar que se trata um «Grande de Espanha», um insigne militar, o 9º duque de Osuna. Seria normal que uma figura desta importância surgisse de acordo com as clássicas convenções dos retratos de pessoas com este estatuto social. Uma convenção, sim, mas que pode ter a sua origem na natureza. Em 1872, Charles Darwin publicou o seu estudo The Expression of the Emotions in Man and Animals, estudo esse que ainda hoje serve de base a muitas investigações no âmbito da Etologia e Psicologia. Nesse livro, o eminente cientista britânico contraria a teoria do anatomista escocês Charles Bell, inspirada na Teologia Natural, segundo a qual Deus dotou o ser humano de certos músculos faciais para poder manifestar as suas emoções. Darwin, por sua vez, pretende provar que animais e seres humanos transmitem de igual modo emoções, sendo bastantes os casos de estudo comparativos. Mas não é apenas através do rosto que se torna possível tal comparação. Também a postura do corpo funciona naturalmente como meio de afirmação e engrandecimento, gerando uma aura de superioridade que permite impor respeito a quem o rodeia: erguer os ombros, esticar a coluna para ficar mais alto, levantar a cabeça, empinar o nariz. Eis por que reis e rainhas, nobres, ou qualquer outra figura cuja grandeza deve ficar imortalizada num retrato, surgem nessa posição.

Acontece ter sido Goya um grande amigo de Pedro Téllez Girón, não querendo o pintor escondê-lo sob a capa formal do duque de Osuna. Claro que tanto as cores do quadro como a graciosidade dos rostos lhe retiram o habitual tom austero com que pessoas desta condição social surgem nos retratos. Mas o punctum desta imagem, como diria Barthes, está todo ele na inclinação do duque. Porém, ao contrário do que se passa com a torre de Pisa, não se trata de criar um efeito cómico, ainda que a torre fosse construída com o objectivo de revelar uma nobreza de pedra do mesmo que um nobre surge socialmente como altiva torre de carne e osso, podendo gerar-se assim uma reacção semelhante face às respectivas inclinações. Há, todavia, uma grande diferença que o impede, e quem nos pode ajudar a explicá-la é um filósofo francês chamado Henri Bergson, num livro publicado em 1900, chamado O Riso- Ensaio sobre o Significado do Cómico. A chave está na diferença entre o voluntário e o involuntário. Diz ele que uma personagem é cómica na exacta medida em que se ignora a si própria. E quanto mais natural e espontânea for, mais cómica se torna. Há programas de televisão que mostram pessoas a serem apanhadas em situações caricatas que fazem rir os espectadores. Se os seus desastrados movimentos fossem voluntários, perderiam toda a graça. Sendo involuntários, apesar de, neste caso, e ao contrário da torre, estando as pessoas conscientes da sua condição, instalam um elemento de desordem, surpresa e imprevisibilidade no mundo que lhes confere a tão apreciada comicidade. É também isso que se passa com a torre de Pisa, distinguindo-a de alguns edifícios inclinados contemporâneos de criativos arquitectos, uma vez que para além da ausência de uma majestas original, foram intencionalmente projectados com essa inclinação para fins puramente estéticos.

O duque de Osuna surge ali inclinado, não por causa de problema nas costas, não por estar a ser puxado pela mão da filha ou ter sido pisado por alguém. Fosse isso e tornar-se-ia cómico e risível. O que Goya nos quer revelar com a graciosa e doce inclinação do duque é a sua humanidade, a sua imperfeição, a sua humildade doméstica, o extremoso pai que vive no mundo normal de homens, mulheres e crianças, e não numa espécie de Olimpo aristocrático onde as figuras importantes gostam de se exilar para se demarcarem do comum dos mortais, graças à sua rígida e altiva pureza. 

Foi também uma rígida pureza que perseguiu Kant ao formular a sua teoria moral. A sua perspectiva é claramente dualista. De um lado, a razão pura, fonte das acções genuinamente morais. Do outro, as inclinações, que podem ser emoções, sentimentos, interesses vários ligados a uma dimensão sensível da acção humana, isto é, mais próxima da animalidade. Para Kant, não há nada  de errado num pai tratar bem um filho porque gosta dele. Mas não se trata de uma acção com valor moral. Vendo bem, o que distingue um pai que cuida bem de um filho, de um animal que faz o mesmo em relação às suas crias? Não há nada de errado no amor, no prazer de amar, de cuidar, de tratar bem os outros. Mas não passam de humanas, demasiado humanas inclinações. O que Kant verdadeiramente procurava era uma moral com a mesma marmórea e vertical rigidez de uma torre medieval e imune a qualquer inclinação. O que importa aqui realçar é o facto de a inclinação mostrar o lado mais normal, espontâneo, afectivo, sentimental, emocional do ser humano, em contraste com uma vontade racional, mais idealizada do que concreta, tal como as pessoas importantes dos grandes retratos históricos imortalizados por pintores. Goya foi também um deles. Mas, no caso desta família, o seu desígnio é bem diferente, desidealizando o duque enquanto figura central, fazendo-o descair na direcção do grupo do qual deseja fazer parte. Este quadro bem se podia chamar A Inclinação. É assim que lhe chamo no meu íntimo desde que o conheço, e que faz com que seja tão especial. Estivesse o duque direito, em pose aristocrática, e seria aqui tão banal como qualquer uma das milhares de torres existentes no mundo que tiveram  o azar de não serem como a torre de Pisa.

07 abril, 2016

PEQUENO ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Pieter Bruegel, O Velho | A Parábola dos Cegos, 1568

Não sigo aquele princípio hermenêutico segundo o qual é possível conhecer melhor um autor do que ele se conheceu a si próprio. Daí não ter a veleidade de conseguir compreender a fundo o que ousou dizer Samuel Johnson com «I never desire to converse with a man who has writen more than he has read». É verdade que a frase é clarinha como água, o que lá está é o que lá está e apenas isso. O meu problema é compreender, no século XXI, o que está a acontecer na cabeça de uma pessoa do século XVIII que escreve tal coisa, uma vez que ler e escrever no século XVIII não é o mesmo que ler e escrever no século XXI.

O que creio poder saber, é que aparecesse Samuel Johnson no século XXI, arriscar-se-ia a ficar calado. Nunca tanto se escreveu como no século XXI e através de tantos canais de comunicação, incluindo os mais chilreantes. Toda a gente escreve, até mesmo este blogger de triste figura. O problema de Johnson seria dar de caras com um tempo em que se escreve demais e se lê de menos. É verdade que, partindo do princípio que se alguém escreve é porque é lido, então, se se escreve muito, também se lê muito. Lê-se, portanto, muito e cada vez mais porque também se escreve cada vez mais. Isso, todavia, não resolve o problema de Johnson, pois quem lê, lê apenas o que escrevem pessoas que não lêem ou que também apenas lêem o que escrevem as outras pessoas que não lêem. O que talvez, e digo talvez pois não sigo aquele princípio segundo o qual é possível conhecer melhor um autor do que ele se conheceu a si próprio, levasse Johnson a concluir que numa época em que se publicam tantos e cada vez mais livros, incluindo os escritos por pessoas que não lêem, se devesse aproveitar para ler mais e escrever menos, evitando assim o claustrofóbico, concentracionário e distópico processo de, num circuito fechado, as pessoas que escrevem lerem apenas o que escrevem pessoas que não lêem. Cegos conduzindo cegos, diria Johnson do mesmo modo que, antes dele, Bruegel o fez com tintas e pincéis, arrisco eu dizer, apesar de não seguir o princípio segundo o qual é possível conhecer melhor um autor do que ele se conheceu a si próprio, embora nesse aspecto tenha a minha vida alegre e airosamente facilitada por viver num tempo em que não há nada para compreender uma vez que nada há para ser compreendido.

06 abril, 2016

SOL VERMELHO

William Klein | Cine Poster, Tóquio, 1961

Não compreendo como há quem ainda leve a sério frases como "Conhece-te a ti mesmo", "Sê tu próprio", "Sê aquilo que és". Uma romântica busca de uma autenticidade algures perdida num cantinho da alma humana, em oposição a formas de pensamento e de acção que soam artificiais e revelam o lado mais filistino da natureza humana. Tal busca de uma autenticidade perdida  não passa de uma ilusão. Mas pior do que uma ilusão é ser uma perigosa ilusão. 

Por um lado, que interesse haverá em pedir a um vulgar sacana que se "conheça a si mesmo" ou que seja "ele próprio"? O ideal seria mesmo que não fosse "ele próprio". O mundo está cheio de gente que não deveria ser "ela própria". Depois, ninguém conhece os seus limites ou a sua verdadeira natureza, e ainda bem que assim é. É verdade que o mal não está uniformemente distribuído pela humanidade. Mas também convém não esquecer que muitas pessoas se revelam melhores do que outras apenas porque não lhes foram dadas condições para poderem ser más. O desejo de pureza e autenticidade é uma caixa de Pandora que jamais deverá ser aberta. Será sempre preferível a ignorância acerca de nós mesmos e dos nossos actos, mantendo-nos imperfeitos e ignorantes a respeito dos nossos limites. Sabendo nós que tantas vezes a perfeição absoluta se aproxima perigosamente da imperfeição absoluta, é melhor contentarmo-nos com a tepidez de um Sol de Inverno do que desejarmos um Sol que nos pode cegar e queimar. É que para a alma humana nunca haverá protector solar.

05 abril, 2016

O VÉU DA IGNORÂNCIA

Dorothea Lange | Egipto, 1962

Volta e meia somos confrontados com o problema do vestuário, devido às diferenças entre a cultura ocidental e a muçulmana. Desta vez, por causa das hospedeiras da Air France serem obrigadas a usar véu e roupas largas, em Teerão. Para uns, será um sinal de respeito por uma cultura diferente. Outros vêem nisso uma humilhante cedência, contrapondo o facto de, na Europa, as muçulmanas serem livres de se vestir de acordo com a sua cultura. Logo, se uma mulher europeia é obrigada a usar véu em Teerão, uma muçulmana deverá tirá-lo em Londres, Paris ou Roma. Vou pedir ajuda a um filósofo inglês do século XVII chamado John Locke que, sob anonimato, escreve a sua famosa Carta sobre a Tolerância, num tempo em que católicos e protestantes se viam entre si como, em Raqqa ou Mossul, um fanático do DAESH vê um cristão. Nessa carta, joga com a noção de «coisa indiferente», de cujo contexto me desvio (ele fala de igrejas e seus diferentes rituais, eu de culturas) mas não da sua essência, e à qual recorro em busca de alguma luz para este problema. 

Em cada cultura há coisas indiferentes e outras que não o são. Cães, gatos, porcos, vacas, borregos são animais. Em Portugal é indiferente comer vaca, porco ou borrego mas repugnante a ideia de comer cão ou gato. E, havendo inúmeros matadouros onde os primeiros são diariamente mortos, será julgado criminalmente quem mate cães ou gatos. Não por serem menos animais do que os outros, ou seja, não se trata de um critério racional e objectivo, mas apenas porque isso fere a nossa sensibilidade cultural devido à relação afectiva que temos com eles. No Irão será indiferente comer vaca ou borrego. Mas já não o será comer porco, igualmente por razões culturais, neste caso, religiosas. Há sítios em África onde uma mulher pode ocupar o espaço público com o peito coberto ou descoberto. É indiferente. Já em Portugal é inaceitável a segunda situação, excepto na praia. Não é, pois, uma coisa indiferente. Se, em Portugal, uma dessas mulheres africanas for para a rua com o peito descoberto, será advertida pelas pessoas ou pela polícia. Ora, a mesma dualidade existe quando se pensa no papel do véu e do vestuário feminino na cultura ocidental ou na esmagadora maioria dos países muçulmanos. Em França, é indiferente uma mulher andar vestida desta ou daquela maneira, de cabeça descoberta, com gorro, boina, boné, chapéu, um lenço a cobrir a cabeça, ter o cabelo preto, vermelho lilás ou mesmo rapado. Já no Irão não é indiferente. Neste sentido, deve aceitar-se que, no Irão, uma mulher francesa possa ser obrigada a cobrir a cabeça pela mesma razão que, em França, uma mulher africana possa ser obrigada a cobrir o peito, não servindo o argumento de que na sua aldeia o faz. 

Mas há que separar o trigo do joio, não metendo tudo no mesmo saco. Neste sentido, terei que dar razão a quem defende que os países ocidentais, sob a bonita capa do multiculturalismo, vão longe de mais na aceitação de valores que chocam a nossa sensibilidade. Repito: não aceitamos que a mulher africana ande na rua de peito descoberto porque fere o nosso pudor. Repito: não aceitamos que matem cães ou gatos porque fere a nossa sensibilidade. Ora, se nos países ocidentais são inaceitáveis práticas de discriminação de género, práticas que revelem uma posição subalterna da mulher face ao homem, por que razão devemos aceitá-lo só porque isso é normal noutra cultura? Cobrir a cabeça com um véu é uma imposição religiosa mas não anula a individualidade e dignidade da mulher. Ainda hoje, em Portugal, em certas zonas rurais, ao contrário dos viúvos, as viúvas cobrem a cabeça com um lenço. Discriminação? Talvez, mas dentro de limites razoáveis. Todavia, obrigar uma mulher a tapar o rosto será na nossa cultura uma forma abominável de discriminação e subjugação do mesmo modo que seria ver uma mulher andar na rua presa por uma trela. O grau de espectacularidade é diferente mas o princípio que lhe subjaz é o mesmo. O rosto é uma marca fundamental da nossa identidade e personalidade, é através do rosto que assumimos grande parte da nossa individualidade perante os outros, é através do rosto que vemos e somos vistos sem qualquer medo ou vergonha, é através do rosto que exprimimos as nossas emoções. Mostrar o rosto é uma afirmação da nossa liberdade, personalidade e individualidade no espaço público. Não por acaso existem expressões como «Não ter vergonha de dar a cara», «aparecer de cara lavada», «poder andar na rua de cabeça erguida», «dar de caras com alguém». É por isso chocante, para nós, ocidentais, que o rosto possa ser assumido publicamente por um homem no espaço público mas não por uma mulher. Aceito, pois, a proibição de prática tão repugnante nos países ocidentais, sendo condição necessária para poderem cá viver.

Em suma, não devemos julgar todas as práticas culturais como um todo mas perceber cada situação individualmente pelo seu menor ou maior grau de indiferença em função dos nossos valores culturais, que devem ser defendidos e protegidos de tudo o que os possa ameaçar. Continuar a insistir na questão do véu das europeias em países muçulmanos ou no véu das muçulmanas nos países ocidentais, no quadro de um abstracto choque de culturas, não passa de um tremendo erro.