19 novembro, 2017

VIDA EM MARTE


Claro que a meteorologia é importante para o nosso estado de espírito. Estar calor ou frio, um dia de Sol ou a chover torrencialmente, faz toda a diferença. Mas apenas quando nem estamos felizes nem infelizes, sendo o tempo, neste caso, um importante factor de desempate, pondo-nos mais alegres ou melancólicos. Mas quando estamos felizes ou infelizes o que verdadeiramente conta é a meteorologia interior, sendo esta a determinar o peso da meteorologia exterior. Tanto um dia de Sol como um dia frio, cinzento e chuvoso podem-se tornar maravilhosos e saudosos quando se está feliz, ou detestáveis quando se está infeliz.

Mas uma coisa é a nossa meteorologia íntima ou privada a condicionar a meteorologia exterior, outra é o peso absoluto desta nos nossos mecanismos biológicos quando se revela anormal. Isto explica o facto desta luz e calor de Novembro estarem a dar-me cabo do meu equilíbrio vital. Os meus sentidos, o meu corpo, o meu espírito não querem esta luz e calor em Novembro. Em Abril ou Maio, sim, porque se trata de uma luz e de um calor de Abril ou Maio. Eu detesto o calor de Junho e Julho mas aprendi a resignar-me pois é o que é suposto haver nessa altura do ano. Eu gosto de frio mas também me iria sentir mal se os meses de Junho e de Julho fossem frios. Mas este tempo em Novembro leva o meu corpo e o meu espírito a revoltarem-se. O próprio prazer do Verão de S. Martinho ficou este ano estragado pois só faz sentido como agradável ilha soalheira num oceano de Outono. Só que ainda não deixou de estar este tempo desde que os dias quentes de Verão se foram, sendo uma violência para os animais que também somos e que devem, como todos os outros, viver em sintonia com os mandamentos da natureza.

Estes dias estupidamente quentes e luminosos de Novembro fazem-me sentir um bocadinho o mesmo que sinto quando vejo fotografias de Marte tiradas pela NASA ou, pior ainda, ficcionadas com seres humanos: uma sensação de desconforto, de opressão perante uma luz e atmosfera absolutamente doentias e desoladoras. Estivesse eu agora num país da América do Sul iria sentir-me na Terra, pois neste momento é lá Primavera, estando o Verão quase a chegar. Aqui, em Torres Novas, a caminhar para os finais de Novembro, já com os chocolates de Natal à venda ali no Modelo, sinto-me como se tivesse pousado em Marte, sonhando com o regresso à Terra e às belas manhãs de frio e nevoeiro a caminho da escola.  

18 novembro, 2017

O UNO E O MÚLTIPLO

Chamem-me Ismael. Há alguns anos, quantos ao certo, não importa, com pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e sem nada de especial que me interessasse em terra, veio-me à ideia meter-me num navio e ver a parte aquática do mundo. É uma maneira que eu tenho de afugentar a melancolia e regularizar a circulação. Sempre que na minha boca se desenha um esgar carrancudo; sempre que me vai na alma um Novembro húmido e cinzento, sempre que dou comigo a deter-me involuntariamente em frente das agências funerárias ou a engrossar o séquito de todos os funerais com que me deparo; e, especialmente, sempre que me sinto invadido por um estado de espírito de tal maneira mórbido, que só os sólidos princípios morais me impedem de descer à rua com a ideia deliberada de arrancar metodicamente os chapéus a todos os transeuntes, nessa altura, dou-me conta que está na hora de me fazer ao mar, quanto antes. É o meu estratagema para evitar o suicídio. Catão lança-se sobre a espada com um floreado filosófico; eu, calmamente embarco. Nada há de surpreendente nisto. Embora não se dêem conta, tal como eu, quase todos os homens acalentam, mais tarde ou mais cedo, este desejo de mar.

Começa assim, deste modo esplendoroso, o Moby Dick. Ismael apresenta-se e logo de seguida começar a falar sobre a ilha de Manhattan, sim, essa, hoje tão famosa. Há, neste início, neste desejo de mar, uma sabedoria antiga que tem tanto de grego como de oriental: um desejo de absoluto que é ao mesmo tempo um desejo de unidade, neste caso, traduzida numa atracção por um vazio despojado de toda a multiplicidade. Um absoluto que, ao prescindir do negativo, do conflito, da luta, da contradição, fica reduzido à sua máxima vacuidade.

Como afugenta o narrador a melancolia? Vagueando pelas agitadas ruas da cidade como seria previsível? Na verdade, a multiplicidade distrai, fazendo-nos olhar para todos os lados, ter diferentes perspectivas que são diferentes pedaços de realidade, um mundo sempre renovado em cada esquina, um feixe incontável de estímulos nos quais mergulham, extáticos, os sentidos. A cidade é a expressão mais eloquente do múltiplo, de uma unidade despedaçada, desfeita em pedaços dispersos no espaço e no tempo. Porém, não é na cidade que ele afoga a melancolia. Não é a cidade que faz secar a humidade e o cinzento outonal que lhe vai na alma. Não é a estridente exuberância urbana que lhe faz virar a cara ao abismo do suicídio.

É a homogeneidade abstracta do mar até terminar num horizonte cujo fio parece uma fina seda prestes a volitizar-se. O que significa este desejo de mar? A redução da vida à sua máxima simplicidade, a depuração de tudo o que é supérfluo e insignificante, correspondendo ao desejo de deserto dos velhos monges que atingiam a plenitude tendo apenas areia por baixo dos olhos e um céu azul sobre as almas. Este desejo de mar é uma espécie de higiene poética que transforma o resto do mundo num amontoado de detritos, ficando apenas uma síntese da síntese da síntese, onde os mais sólidos princípios se desfazem como um pedaço de terra seca na água do mar. E deve ser bom.

16 novembro, 2017

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA


Dedico este post a alguém que não o irá ler. Um aluno meu de 10ºano que me dizia não ter ainda percebido para que serve a Filosofia. Normal, não há-de ser o único, longe disso. Acontece que é de todos os meus alunos, de todas as turmas, o que mais participa, mais questiona as diferentes posições e argumentos sobre os vários temas já apresentados. Chega a ser maçador, fazendo quase lembrar um Sócrates que não consegue resistir à tentação de dar caneladas aos seus adversários. Ora, a sua objecção à existência de uma disciplina como Filosofia fá-lo cair numa coisa que dá pelo nome de "contradição performativa". Ao colocar em dúvida a necessidade da Filosofa, com o mesmo entusiasmado espírito filosófico com que questiona todos os outros temas, acaba preso no mesmo tipo de teia do "paradoxo do mentiroso" formulado por Epiménides. Epiménides era cretense, tendo afirmado que todos os cretenses mentem. Estaria a falar verdade ou a mentir? Então: ele não pode falar verdade uma vez que os todos cretenses são mentirosos e ele é cretense. Mas como pode estar a mentir se diz precisamente a verdade sobre os cretenses serem mentirosos? Também o meu aluno, desejando rejeitar a Filosofia, não faz mais do que filosofar, prestando assim uma bela homenagem à Filosofia, da qual não se pode fugir. Aristóteles, que defendia que quanto mais inútil for o conhecimento, o caso da Filosofia, mais superior e nobre se pode considerar, iria ter orgulho na intuição e perspicácia deste aluno.

15 novembro, 2017

GRANDES CANÇÕES (9) SHARIF DEAN - DO YOU LOVE ME?

A VIDA É UM ROMANCE


Uma coisa boa de ter que estar à espera num consultório de dentista é poder pôr em dia a leitura de revistas cor de rosa. Desta vez, já não sei quem que ia casar, dizia querer um casamento para toda a vida. Nem é preciso andar muito para trás: alguém imagina nos anos 60 ou 70 do século passado, uma Crónica Feminina onde uma mulher expressasse o desejo de ter um casamento para toda a vida? Basta comparar as duas revistas para compreender diferenças, num curto espaço de tempo, numa prática social como o casamento. Acredito que a melhor maneira de perceber uma parte da história do século XIX é através de  um romance como Guerra e Paz ou o início da I Guerra Mundial através de um romance como os Thibault. Se em 2070 um historiador quiser compreender as mudanças sociais entre 1960 e 2017, fá-lo melhor tendo à sua frente arquivos do Correio da Manhã ou da Caras do que gráficos ou análises históricas e sociológicas, por muito empiricamente recheadas e conceptualmente competentes que sejam. A vida é um romance e é nesse registo, mais jornalístico ou ficcionado, que será melhor entendida.

13 novembro, 2017

MICHELANGELO PISTOLETTO - VENUS OF THE RAGS


Se estiver para ir a um museu ver arte, faço como quando vou às compras: levar uma lista no bolso só que em vez de batatas, lata de grão e queijo flamengo, vai escrito Van Eyck, Modigliani ou Rothko. Entro, sabendo de antemão o que desejo ver. Por falta de tempo para mais já cheguei mesmo a ir a correr a um museu só para ver três quadros de um mesmo pintor, uma coisa assim de minutos e ir embora. E abençoados minutos que me lavaram os olhos que nem soro fisiológico! Mas também é verdade que já me aconteceram felizes descobertas caídas do céu, obras de cuja existência não fazia ideia e que foram amores à primeira vista.

Foi o que me aconteceu com a escultura Venus of the Rags, ainda por cima num museu de arte contemporânea, a Tate de Liverpool. Vou ser sincero: embora com uma ou outra excepção, as quais me levam ainda hoje a ousar entrar - para além de descarregar a consciência - é sempre com um pé atrás que entro num museu de arte contemporânea, pé que logo se torna o pé que vai à frente pois não demoro muito a procurar o bonequinho que indica a saída. É assim mais ou menos como a vista do Bom Jesus de Braga. Olha-se para a direita, olha-se para a esquerda, foca-se a atenção 3 segundos ali mais 4 segundos acolá, e pronto, ala que se faz tarde. Apenas com a diferença de a vista do Bom Jesus ser bem mais interessante do que a esmagadora maioria dos objectos que povoam esses museus. Nos dias em que acordo mais com a telha e vontade de pegar na pistola, chego mesmo a defender que o conceito de "arte contemporânea" não passa de um caprichoso e esforçado paroxismo.

Quando entrei sabia apenas que iria ter o desprivilégio de poder contemplar ao vivo a famosa cama de Tracey Emin. Já consegui ver coisas bem mais sórdidas e parvas do que a cama onde a menina Tracey curtiu a sua épica neura, mas logo que soube da sua existência passou a ser para mim o símbolo supremo da estultícia artística contemporânea, ou se preferirmos, da artística estultícia contemporânea. E pronto, lá vi o que havia para ver como cão por vinha vindimada, embora com um ou outro pormenor aceitável. Mas com a grande diferença de ter regressado com a Venus of the Rags, que desconhecia.

Desde logo, o seu impacto visual é tremendo. Pode soar estranho falar de impacto visual num museu onde tudo parece ter sido feito para ser entendido por pessoas com um Q.I. acima de 150, relegando os comuns dos mortais para a cafetaria do museu onde sempre poderão ver coisas que pareçam fazer sentido. Mas casmurro que sou, e fiel à etimologia da palavra no helénico mundo a que pertence a nossa Vénus, estética, para mim, começa sempre por ser uma experiência sensível. E é de facto impossível ficar indiferente ao seu poder visual, a todo aquele dinâmico contraste entre o uno e o múltiplo, o mesmo e o outro, a imutabilidade e a mudança, o absoluto e o relativo, de todas aquelas formas e cores, no que quase poderia ser uma alegoria platónica sobre o mundo das ideias e o mundo das coisas, dois mundos que se pressentem sem se tocarem.

Entretanto, apesar de formalmente se tratar de uma obra contemporânea, é profundamente conservadora. Num fantástico livro que comprei há quase 40 anos no Cine-Clube de Torres Novas, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens e que há meses teima em não sair da minha mesinha de cabeceira, o nosso Matias Aires lembra que

«Em nada podemos estar firmes, pois vivemos no meio de mil revoluções diversas: as idades, e a fortuna continuamente combatem a nossa constância; tudo consiste em representação que começa não para existir, mas para acabar, menos para ser, do que para ter sido. Vimos ao mundo a mostrar-nos, e a fazer parte da diversidade dele; as cousas parece que nos vão fugindo, até que nós vimos a resistir também. Somos formados de inclinações opostas entre si, e temos em nós uma propensão oculta  que sobre a aparência de procurar os objectos, só procura neles a mudança. A inconstância nos serve de alívio e desoprime, porque a firmeza é como um peso, que não podemos suportar sempre, por mais que seja leve: e com efeito como podem as nossas ideias serem fixas, e sempre as mesmas, se nós sempre vamos sendo outros?»

O que vemos nesta escultura é a resistência a este princípio voraz que domina o mundo, referido por Matias Aires. O que vemos nesta Vénus, que, ao contrário de uma convencional escultura, não pode ser vista em 360 graus, levando-nos a posicionar diante as suas costas, é uma figura branca que mantém toda uma serena e clássica quietude face ao caótico assédio de uma bizarra multiplicidade de trapos coloridos que se acumulam para a tentar mas que dela apenas recebem uma doce indiferença. O artista poderia ter brincado aos contemporâneos, vestindo esta Vénus com alguns daqueles trapos, com a mesma desfaçatez com que Duchamp pintou o bigodinho no rosto de Mona Lisa ou com que se enfia um charuto entre dois dedos do Francisco I de Jean Clouet. Mas não, o artista preferiu fortalecer esta Vénus, no mesmo registo em que o Evangelho fortalece Cristo quando este vai para o deserto ou em que Homero fortalece Penélope no seu tear, enquanto rodeada de todos aqueles pretendentes que não desarmam. A sua serenidade perante o monte de trapos está nos antípodas do suplício de Tântalo, que morre de fome e de sede com tanta água e comida à sua frente mas que não consegue comer e beber. Esta Vénus, milenarmente concentrada no seu ensimesmamento clássico, está rodeada de trapos e quanto mais trapos houver mais esse ensimesmamento sai reforçado. Antropomorfizando a cena, quem parece desesperado são os trapos, acumulado uns sobre os outros, sem uso, absolutamente inúteis, perante a estóica quietude da deusa.

Fortalecer esta Vénus rodeada de tantos trapos confirma a imutabilidade da sua branca e nua identidade ou a ligeira inclinação do seu corpo. Nasceu assim e assim deverá ficar para o sempre, indiferente ao efémero das modas, dos apetites, dos interesses de circunstância. Esta peça não nega a mudança, a evolução ou a contingência do que foi feito para mudar, evoluir e ser contingente. Já Camões sabia e muito antes dele também os gregos o sabiam, que todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Neste sentido, até se pode dar o caso de o tempo fazer partir a mão esquerda de Vénus, caindo com ela o seu manto. A sua homónima de Milo nasceu com dois braços e para a eternidade sem eles haveria de ficar, e com um tal impacto que hoje já não a imaginamos com eles. Mas lá continua branca e nua, igual a si própria, pois apesar de os braços terem feito parte de si, ela não era os seus braços, tal como um carro não é a sua cor embora a cor esteja no carro. Esta escultura é sobre o que existe e que foi feito para continuar a existir como sempre existiu e não para mudar ou acabar. Por causa disso,  pelo que representa e que cada vez mais é preciso não esquecer, trata-se ela própria de uma escultura que deverá sobreviver aos caprichos do gosto, mantendo-se para sempre actual na sua imutável perfeição.

12 novembro, 2017

DOMINGO À TARDE



Já não seria possível lembrar-me do último dia em que não comi romãs, tanto já vai sendo o tempo em que as como diariamente. Mas sementes tão vermelhas como as da romã de hoje ainda estavam para aparecer. Um vermelho sangue-escuro, tão belo como o sereno e aveludado de alguns quadros flamengos e italianos. Estava a retirar as sementes, vendo uma ou outra jorrar aquele sumo vermelho para o fundo da tijela, quando senti um desejo grande de ouvir Bach. Um dia pode ser salvo quando menos se espera.

11 novembro, 2017

FALAR COMO JESUS FALOU


Teste de Filosofia, a mesma questão, resposta completa:

"A atitude filosófica é quando tu pensas fora das regras, questionas coisas sem respostas, questionas o mundo à tua volta e finalmente é quando crias teorias que apesar de não ter provas são teorias da realidade ainda por descobrir".

10 novembro, 2017

TABACARIA

Teste de Filosofia. Numa questão de desenvolvimento, introduzida por um longo texto de Bertrand Russel, pedia-se aos alunos para caracterizar a atitude filosófica. A ideia era explicarem tratar-se de uma atitude crítica e reflexiva, anti-dogmática relevando-se a importância da dúvida a qual permite pôr em causa os preconceitos do senso comum e tudo aquilo que é visto como óbvio e inquestionável mas que não passa de aparência, fazendo da argumentação, enquanto exercício racional, o laboratório do filósofo, demarcando-se assim do carácter empírico e experimental das ciências. Se o aluno quisesse, e houve quem quisesse, ficaria bem invocar a Alegoria de Caverna, de Platão, a qual foi apresentada na aula para exprimir simbolicamente parte do que foi anteriormente referido. Poderia ainda invocar A Escola de Atenas, de Rafael, que projectei na aula, para lembrar Platão e o seu discípulo Aristóteles, lado a lado, um com um braço apontando para cima, o outro com um braço apontando em frente, mostrando com isto o facto de as respostas em Filosofia terem um carácter subjectivo e discutível, havendo para cada argumento um ou vários contra-argumentos, o que faz com que as respostas nunca sejam definitivas, conduzindo antes a novas perguntas e problemas.

A aluna, porém, limitou-se a responder o seguinte: «A atitude filosófica surgue-nos nas mais simples coisas como abrir uma garrafa ou simplesmente no andar. Liberta-nos ao domínio do hábito, ou seja, faz-nos descobrir coisas novas, pensamentos novos».

Chega a ser comovente. Não faltasse o chocolate e a resposta seria perfeita.

09 novembro, 2017

NOITE DE CRISTAL


Foi a 9 de Novembro (1938) a tristemente célebre Noite de Cristal, dia que simboliza o início do horror nazi. Pensando nesse horror, há quem defenda serem os nazis desumanos ou psicopatas. Não eram. Eram pessoas normais, muitos deles excelentes pessoas até, que apenas se enganaram nas suas crenças e convicções. O ser humano, exceptuando alguns casos patológicos, não é intrinsecamente mau ou perverso, ainda que haja muita gente má e perversa. O facto de haver muita gente que rouba o que mente, também não faz do ser humano uma espécie em que roubar ou mentir seja considerada normal. O mal não é uma disposição natural do ser humano. Se o fosse, seria impensável a sociedade tal como a conhecemos. Seja por disposição genética, hormonal ou neurológica, seja por interesse egoísta, há no ser humano uma predisposição natural para a cooperação, para saber viver com os outros.

O que há no ser humano é uma disposição para ilusões ou falsas crenças, uma justificação dos nossos desejos e apetites que surgem assim sob uma capa de legitimação. Por exemplo, para comermos um suculento bife de vaca ou um saboroso entrecosto no forno, tivemos que matar uma vaca ou um porco, seres vivos que têm a sensação de dor e de prazer e emoções. Nós somos boas pessoas, sensíveis, e não temos instintos diabólicos e perversos face a animais. Mas, acreditando que a vaca ou o porco têm uma natureza que os torna passíveis de serem mortos para nós os comermos, matamo-los com a mesma naturalidade com que os homens cortam o cabelo ou as senhoras pintam as unhas. Do mesmo modo, os alemães que destruíram as montras e as sinagogas na noite do dia 9 de Novembro de 1938, acreditavam estar a destruir lojas e igrejas de gente inferior, desprezível, miserável, não significando o seu sofrimento a mesma gravidade e dramatismo do sofrimento de pessoas que consideravam normais. O problema é nós errarmos demasiado, iludirmo-nos demasiado, acreditarmos demasiado. E há situações, infelizmente demasiadas, em que, por causa disso, resultam grandes dramas, seja nas nossas vidas pessoais, seja colectivamente. Podemos evitar isto? Não. Se pudéssemos, não seríamos humanos mas como Mr Spock que, embora parecesse, não o era. Ainda assim, seria vantajoso sermos um bocadinho mais desconfiados.

08 novembro, 2017

A PALHINHA

Há muito que andava a aparecer água por baixo das gavetas do meu frigorífico, tendo finalmente chegado o dia em que resolvi fazer alguma coisa. Googlei "água no frigorífico" ou algo assim e abro um video da DECO no qual um homem explica o fenómeno e respectiva cura, a qual passa por desentupir um buraquinho no frigorífico com um arame fininho ou uma palhinha. Não tendo arames em casa, resolvi que no dia seguinte passaria pelo Modelo para comprar um pacote de palhinhas. Nesse mesmo dia seguinte, ao ir para a escola, no passeio daquele jardinzinho que fica ali ao pé da capela de S. António, ainda embrulhada, estava uma palhinha no chão. Esta foi apenas mais uma entre várias situações deste género que me ocorreram nos últimos tempos. Tivesse eu vivido há cerca de dois mil anos, lá para os lados da Galileia, revelando sintomas psicóticos, megalómanos e narcisistas, a esta hora estaria a preparar-me para acabar crucificado. 

07 novembro, 2017

WEB SIDE STORY

Falando sobre uma próxima directiva europeia que vai regular as novas tecnologias na banca, o comissário Carlos Moedas sugeriu a ideia de que "Alguns Davides podem vencer alguns Golias". Tudo bem. Quer dizer, não me refiro à directiva, da qual ainda nada sei, mas à pertinência da metáfora, sugerida numa sessão da Web Summit, perante milhares de geeks com impulsos neófilos, que se excitam tanto com uma nova App como outros com a posse de uma primeira edição dos Lusíadas. David e Golias? Pode ser que exista um jogo com esse nome.

05 novembro, 2017

O VESTIDO VAZIO

JRC

No romance que ando a ler, um viúvo, em grande ressaca com a morte da mulher, fala a outro viúvo da angústia de ver no roupeiro vestidos que a mulher tinha comprado e que nunca chegara a usar. O outro não entende a angústia, julgando ser muito pior associar um vestido a felizes memórias de coisas que se viveram, pensar no corpo vivo que esteve dentro dele, sentir ainda o rasto de um perfume. Mas faz todo o sentido o que diz o primeiro viúvo.

Por que razão é a morte um mal? A morte só é um mal por impedir a obtenção de futuros bens. A morte não pode anular o que se viveu, não pode fazer com que deixemos de fazer o que fizemos. O que faz a morte é interromper o que estava para ser vivido, impedindo a possibilidade de qualquer memória, uma vez que não se pode recordar o que nunca existiu. Imaginar, sim, mas não recordar. A mulher comprou os vestidos para ir passear, às compras, ao café, ao cinema, a um concerto ou jantar fora. Nada disso viria a acontecer, fazendo com que se instale um vazio, uma ausência, um nada, que é muito mais doloroso do que indeléveis memórias. E é essa imaginação a respeito do nada que é bem mais dolorosa do que a recordação de tudo o que se viveu. De certo modo, corresponde à mesma dor de quem não consegue fazer o luto quando o corpo não aparece. Sabe-se que a pessoa morreu mas a imaginação sobrepõe-se à realidade física da morte. Perante um vestido que não se chegou a usar acontece o mesmo. O vestido que foi usado fica arrumado, e definitivamente arrumado, na memória. O outro, eternamente à espera de um feliz e vívido momento que nunca irá aparecer.

04 novembro, 2017

LER O VINHO


Ainda nos velhos tempos do LP, gostava de comprar discos mesmo quando os podia gravar. Gostava de ter o disco nas mãos, de ver a capa e contracapa, os interiores, que os havia fantásticos. Sofri algum choque com a passagem do LP para o CD mas logo me habituei. Vendo bem, o CD continuava a ser um LP só que em miniatura, e eu até gosto de miniaturas. E em editoras de qualidade, a cereja dentro do bolo: dentro da caixa, um pequeno livro com informação sobre compositores, intérpretes, a música propriamente dita, e fotografias. Estou a pensar em editoras de música clássica ou como a ECM, sobretudo as New Series com as suas belíssimas capas.

Sinceramente, não percebo como é que ainda não acontece tal coisa com os vinhos. Em vez de termos apenas garrafas nas prateleiras dos supermercados ou lojas, termos caixas em cujo interior, para além da garrafa, viesse também um pequeno livro com textos e fotografias sobre aquele vinho e tudo o que está por detrás dele, em vez apenas das habituais, e bastante básicas, referências no rótulo. Vinho não é cerveja ou qualquer outra bebida cuja origem e processo de produção é mais industrial. Se a água foi uma coisa que nos aconteceu, tal como aos animais, já o vinho foi uma coisa que fizemos acontecer, aproveitando a química da própria natureza. Desde a vindima ao acto de o beber, o vinho está retratado desde o fundo do tempo em azulejos, frescos, tapeçarias, iluminuras, artes decorativas ou pintura. É verdade ser hoje o vinho cada vez mais um resultado de experiências laboratoriais. Sim, e ainda bem, se graças a isso ficarem melhores. Mas será sempre uma bebida ancestral, uma bebida da terra, de castas e, mais até do que uma simples bebida, uma história para beber. Portugal é Portugal, Espanha é Espanha, França é França, Chile é Chile, Nova Zelândia é Nova Zelândia. Em Portugal, Douro é Douro, Dão é Dão e Alentejo é Alentejo. No Douro, uma coisa é a Adega Cooperativa A, outra será a Quinta B. Muito mais interessante se tornaria o vinho se, para além da Graça de enchermos a alma com essa bebida sagrada, pudéssemos conhecer a sua história com textos e fotografias, desde a terra de onde emerge o divino fruto, até ao seu momento final, pronto para ser bebido.

Quis o destino que nos últimos tempos eu viesse a beber vinhos chilenos, todos eles excelentes, sobretudo um Casillero del Diablo, Reserva Privada de 2015 e um Tarapacá, Grand Reserva, também de 2015, cujos rótulos até retirei para colar num caderno para não os esquecer no caso de não voltar a bebê-los. Estar a beber aqueles vinhos não é estar apenas a beber aqueles vinhos com sabores nunca antes experimentados, é estar a beber a América do Sul, a beber aquela terra, a beber uma história escrita a milhares de quilómetros do copo onde os vou verter. Seria uma enorme riqueza, para além da riqueza de os beber, poder conhecê-los, para aumentar ainda mais a riqueza de os beber. Santo Agostinho, no De Libero Arbitrio, lembra que a consciência da vida é bem melhor do que a própria vida. Já no De Trinitate, coloca o amor e o conhecimento em correlação. Eis duas óptimas ideias para aplicar ao vinho: ter a consciência do que se está a beber é bem superior ao simples acto de beber, por muito bom que este seja; por outro lado, amar e conhecer um vinho são duas diferentes faces de uma mesma moeda, isto é, amar um vinho é desejar conhecê-lo e quanto mais se o conhece mais se deseja amá-lo. Seja ali de Portalegre, de Setúbal, de Vila Real, seja de Castilla la Mancha, de Bordéus, do Chile ou da Califórnia. É um todo. E um todo que virá a enriquecer ainda mais a mística do vinho, o prazer de o descobrir para, consequentemente, ajudá-lo a assumir sua verdadeira essência: ser bebido.

03 novembro, 2017

A VERDADE E NADA MAIS QUE A VERDADE


Terminei a primeira ronda de testes deste ano. Um dos exercícios consiste em considerar várias afirmações verdadeiras ou falsas, sendo obrigatório justificar a opção. Os alunos ficam sempre bastante admirados, alguns deles perplexos, ao descobrirem que devem justificar não só as falsas mas também as verdadeiras. Eu, calma e pedagogicamente, lá lhes explico como é tão legítimo e pertinente justificar uma coisa verdadeira como uma falsa. A surpresa resulta, antes de mais, de não perceberem a diferença entre justificar e corrigir. Mas não é só isso. É também sintoma de um estado mental muito mais vasto: passividade face ao que acreditamos ser verdadeiro. A partir do momento em que aceitamos uma coisa como verdadeira, logo ficamos apaziguados em relação a ela. É verdade? Sim, é verdade. A partir daqui não se pensa nisso. Trata-se, muitas vezes, de um processo inócuo que não aquece nem arrefece. Mas muitas vezes também do preguiçoso ponto de partida para trágicos finais. 

02 novembro, 2017

GRANDES CANÇÕES (8) - SECOS E MOLHADOS- A ROSA DE HIROSHIMA







MEMENTO MORI

Somos a cara chapada daqueles a quem o dia de hoje é dedicado. Como filhos que vão ficando cada vez mais parecidos com os pais, vamos também ficando cada vez mais parecidos com eles. Podemos não achar grande piada à ideia, mas eles são os modelos que, mais cedo ou mais tarde, iremos copiar. Sem esforço e com um sorriso desenhado no rosto que nunca mais iremos apagar. 

01 novembro, 2017

QUARTO DE PASCAL COM TV

«Vieste ao mundo com um segredo lacrado na alma, que desconheces, e que só conhecerias se houvesse ocasião de se revelar. Não tiveste essa ocasião. E irás lacrado para o cemitério. E morrerás sem saber o que verdadeiramente tu és». Vergílio Ferreira, Pensar §226

Ainda bem que existe a televisão. Morremos sem saber o que somos mas pelo menos morremos sem saber que não sabemos o que somos.

31 outubro, 2017

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Diz Pedro Domingos, especialista em Inteligência Artificial, que "o problema dos algoritmos não é tornarem-se demasiado inteligentes e tomarem conta do mundo, é que já tomaram conta do mundo e são demasiado estúpidos". De certo modo, é isto que também acontece com políticos demasiado fixados nas suas ideologias e convicções, sobretudo em ditaduras mas também possível em democracia. Um político refém da sua ideologia torna a sua acção tão cega e mecânica como a acção de um computador ou de um robot programado para agir de um certo modo, isto é, marcada por uma inteligência meramente funcional, o mesmo é dizer, pela estupidez. Estupidez que, na história, já apresenta um enorme rasto de devastação social e humana, havendo todas as razões para acreditarmos que irá continuar a apresentar. A estupidez não é um acidente na natureza humana. Parafraseando o grande La Rochefoucauld, será mesmo o processo mais natural da inteligência prestar homenagem ao vício.

27 outubro, 2017

ANTES E DEPOIS


Fico mais impressionado ao saber de um atentado terrorista ocorrido num local onde tenha estado do que num local onde nunca estive. Não porque haja mortos de primeira e mortos de segunda mas por causa da inevitável relação com a minha experiência interna do local. E a percepção é diferente consoante tenha ocorrido antes ou depois de lá estar. Chegar a um lugar onde ocorreu um atentado é chegar já com a consciência do mal e com a impossibilidade de o dissociar do atentado, perdendo-se assim a pureza e inocência de estar numa rua que é simplesmente uma rua, a qual passa a ser também um lugar histórico onde o passado ficou congelado. Lembra o professor Hermano Saraiva quando, com os braços estendidos, dizia, empolgado, "Foi aqui que...". O mesmo acontece com o atentado, transformando uma simples rua naquela "Onde foi que...". O que explica já ter visto, muito pouco depois de um atentado, ainda com flores e velas no local, pessoas a serem fotografadas, em pose, como se tivessem como fundo a Tower Bridge, para depois postar com uma legenda a dizer "Je suis qualquer coisa". Claro que é chocante estar lá a pensar na carnificina, só que o "luto" do acontecimento já foi feito muito antes, nos dias seguintes ao atentado, o que faz com que ao lá chegar tenha apenas um encontro com a história.

Já ocorrer o atentado depois de lá ter estado acaba por ser mais impressionante. Já não penso nele como local histórico, mas onde estive num estado de ingenuidade, entretanto destruída pelo atentado. Onde estive, sabendo agora, a posteriori, que poderia ter sido vítima, pois ainda não acontecera o que estava para acontecer (ao contrário da situação anterior, em que se chega a um local sabendo já ter acontecido), gerando assim uma maior identificação com as vítimas, pessoas que estavam naquela rua tal como eu lá estive, apenas numa rua. Eu sei do atentado e penso naquela rua onde estive sem saber do atentado, sendo a associação imediata, não com o mal mas com o bem que conservo e do qual também não tinha consciência, por simplesmente estar, tal como elas. O que não acontece com as vítimas  de um atentado ocorrido antes de lá estar: apesar de também estarem apenas numa rua, eu, pelo contrário, chego lá a mastigar o fruto da árvore do bem e do mal, já com um pé fora do paraíso, sendo a minha experiência do local completamente diferente da experiência delas.

26 outubro, 2017

THIS MORTAL COIL


Estou na biblioteca a corrigir testes, olho para a estante e dou com a obra completa em quinze volumes, encadernada, de Ferreira de Castro. Não um, nem dois, nem três exemplares de cada volume mas quatro, o que dá um total de sessenta volumes. Interrogo-me sobre o que está aquilo ali a fazer num local de gente viva, tantas vezes até demasiada viva, livros moribundos de um autor morto, mas também sobre mim, que pergunto o que está aquilo ali a fazer. Adolescente, li três livros de Ferreira de Castro, A Lã e a Neve, Emigrantes e A Selva. Eu, que estou vivo e ando no meio de gente viva, ainda sou alguém que leu livros de Ferreira de Castro. 

Quando fui para a universidade e entrava em alfarrabistas, não como coleccionador mas em busca de livros baratos, via dezenas de livros mortos, outrora lidos por pessoas também já mortas, enfim, livros que já ninguém lia, restando apenas os seus cadáveres de papel pelas prateleiras. Livros e leitores que faziam parte de um mesmo todo, de uma mesma substância mortal. Enquanto pessoa que leu livros de Ferreira de Castro e que anda no meio de gente viva, acabo por me tornar num fantasma, alguém que ainda aqui está mas já com um pé noutro mundo. Quando, em breve, eu também partir, irei regressar aos alfarrabistas que frequentava aos vinte anos, só que do lado de lá, isto é, não como alguém que entra para voltar a sair, mas fazendo já parte do clube de leitores mortos que leram livros igualmente mortos. E quando, daqui a uns anos, também deixar de haver alfarrabistas, então, aí sim, vai ser a morte definitiva de escritores mortos, de livros mortos, de leitores de livros mortos e de vendedores de livros mortos enquanto, cá fora, a vida continua na sua infinita espiral.

25 outubro, 2017

O DIABO DAS PEQUENAS COISAS


O engenheiro Sócrates e a socióloga Lurdes Rodrigues (o repugnante Valter Lemos, sendo um simples peão de brega com ar de barman de casa de alterne, não entra neste campeonato) são, em versão masculina e feminina, as criaturas por quem ainda hoje mais sinto o mais absoluto desprezo no espaço público. Olho para a sinistra ministra e continuo a ver, sem disso me conseguir libertar, nem sei bem o que escolher, uma gárgula, uma górgona, Cila ou Caríbdis, uma pestífera megera cujo riso enlouquece os sensatos que dele não conseguem escapar. Ainda que humano, mesmo tão demasiado humano, frágil e irracional criatura me confesso, não deixa de ser aviltante descobrir que uma opinião nossa pode coincidir com a de uma dessas pustulentas figuras. De facto, seria bem mais apaziguador para o espírito saber que somos em tudo contrários, conforto maniqueísta que muito contribuiria para no mundo separar a luz das trevas, tornando-nos imunes a todo o tipo de conspurcação. Lembra-me a repugnância que senti pelo modo como Hitler e Goëring disputaram um Vermeer, mais concretamente, A Arte da Pintura. Pensar naquelas cabeças imundas a olhar para um Vermeer não anda longe da ideia de pensar num pedófilo a babar-se perante uma criança. Eu gosto da complexidade das coisas, do livre jogo de jogarmos com várias cores e suas misturas em vez de reduzirmos o mundo ao pobre esquematismo do preto e do branco, até porque tenho bem a consciência de ser esse esquematismo que está na origem de muitas tragédias e dramas na história da humanidade. É reconfortante saber que não partilhamos o mal com tão vis criaturas e quanto a isso pode-se dormir descansado. Mas o sono já não é o mesmo só de saber da existência de cores comuns.


23 outubro, 2017

PORTOMENISTÃO


Calhou ver, há umas semanas, um excelente filme de Henri-George Clouzot, A Verdade, do qual não pude hoje deixar de me lembrar. Dominique (grande papel de Brigitte Bardot) é julgada pelo homicídio do seu namorado, um jovem chefe de orquestra. Sendo, de certo modo, um clássico filme de tribunal, assistimos não só ao julgamento do homicídio propriamente dito mas, à boleia daquele, da vida pessoal da ré, acusada de excesso de hedonismo e de hábitos demasiado liberais, longe, portanto, do que é considerado uma conduta exemplar por esse anónimo mas implacável grupo de jurados que é a moral e os bons costumes.

O filme é de 1960, oito anos antes do «Maio de 68». Estava a vê-lo e a pensar como esta história se tornou hoje anacrónica. Não que o filme esteja datado, nada disso, apenas o que denuncia, num país da União Europeia, dezassete anos depois do início do século XXI. Afinal enganei-me. Não bastava aquele iluminado juiz que desdramatizou o facto de uma mulher ficar com a sua vida sexual limitada depois de uma cirurgia, por considerar que o sexo, para uma mulher e mãe de dois filhos, já não é a mesma coisa depois dos 50 anos, agora foi a vez de um acórdão de um tribunal do Porto desdramatizar um acto de violência doméstica, desculpando o marido em virtude da conduta pouco exemplar da mulher. Acórdão que já considera ter a mulher muita sorte por não viver num país onde uma mulher adúltera é alvo de lapidação ou morte.

Há uma parte da Turquia cujo cosmopolitismo e abertura não anda longe do cosmopolitismo e abertura de um Portugal moderno que ultrapassou rapidamente a bafienta e opressiva atmosfera do Estado Novo. Mas também há uma Turquia profunda onde os libertadores ventos da história ainda não se fizeram sentir, sendo as mulheres as principais vítimas de uma mentalidade bárbara. Havendo tantos portugueses que fazem as malas para uma vida no estrangeiro, bem podiam alguns dos nossos juízes fazer as suas e rumarem para essas zonas ancestrais. Talvez lá se sintam mais em casa e os possam deixar em paz.   

22 outubro, 2017

Logo aqui mais abaixo resolvi extrair do seu contexto a seguinte passagem de um romance:

- Qual é a tua cor preferida?
- Mozart.

Passagem que mostra como uma simples resposta, quando liberta da sua previsível vulgaridade, pode apresentar uma grande riqueza poética e criativa. Uma resposta que por si só já é um poema. Lê-se e percebe-se que está lá tudo, sem precisarmos de explicar seja o que for. Levantemos agora o pano para então mostrar o contexto do qual saiu:

- Qual é a tua cor preferida?
- Mozart.
- E o teu signo astrológico?
- O meu estado oftalmológico?

Quem responde tão poeticamente à pergunta é um velhote de 90 anos com problemas de audição, sendo a resposta uma mera consequência de não ter percebido a pergunta, fazendo-nos assim perceber, não sem algum desencanto, como pode ser curta a distância que vai do poético ao cómico ou patético, aliás, bem mais curta do que no sentido inverso. Indo agora para o plano da realidade, Alma Mahler, surda de um ouvido, tendia a inclinar a cabeça na direcção do seu interlocutor para melhor se concentrar no que lhe estava a ser dito, gesto que, associado a uma expressão de hiperbólica atenção no rosto, induzia no interlocutor um sentimento de intimidade, quiçá mesmo, a sensual fantasia de um inconsciente impulso para encostar a cabeça, em busca de um afago masculino. Também neste caso se torna caricato o modo como uma simples marca patológica se transforma dissimuladamente num trunfo estético. Talvez se trate do mesmo princípio que faz com que o alcoolismo, repugnante numa pessoa vulgar, se torne num mero traço excêntrico num artista, sendo até reconhecido como estímulo para a sua actividade. Ou como o feitio irascível que detestamos numa pessoa comum se pode tornar numa marca de genialidade num intelectual ou escritor. Ou como uma mania, superstição ou qualquer outra marca irracional, vista com desdém iluminista numa pessoa comum, pode ser entendida como tolerado capricho num grande actor de cinema. Trata-se de uma certa esteticização do pathos que, à partida, não tem mal nenhum. Isto, claro, se a finalidade for mesmo não querer levantar o pano para deste modo se poder continuar a assistir a um espectáculo que o espectador não se cansa de recriar e que apenas existe na sua imaginação.

21 outubro, 2017

                          

                                                             - Qual a tua cor preferida?
                                                             - Mozart.

Howard Jacobson, A Questão Finkler





19 outubro, 2017

PSICOPATOLOGIA DA VIDA QUOTDIANA

Jean Luc Godard | Bando à Parte

Estou sossegadinho na biblioteca a corrigir testes. Na mesa ao lado sentam-se duas fedelhas de 12 ou 13 anos que começam a falar alto e a rir bastante. Passado algum tempo resolvo intervir. Chamo-as, elas viram-se para mim, e explico que me estão a perturbar. Uma delas, com ar muito arrependido, pede desculpa, virando-se de novo para logo de imediato continuarem a falar tão alto e a rir tanto como anteriormente, presumo que sobre o assunto que as obriguei a interromper. 

18 outubro, 2017

PORTUGAL DOS PEQUENITOS

August  Sander

Ao aproximar-me do meu prédio, vou dar com três alunas minhas sentadas nas escadas que lhe dão acesso. Pergunto se estão a preparar um plano para me assaltarem a casa, mas não, estão apenas à espera que abra a loja que fica por baixo para pedirem um patrocínio. Festa de finalistas ou baile de gala, já? Não, patrocínio para a lista que irão formar para a Associação de Estudantes e cujo processo eleitoral começa em breve.

Vamos lá então tentar perceber. Alunas do 12ºano, isto é, pré-universitárias, consideram normal andar de loja em loja ou empresa em empresa a pedir patrocínios para uma lista que vai concorrer para a A.E. de uma escola, pois precisa de dinheiro para o habitual folclore de T-shirts, balões, rebuçados, papeladas mil, material lúdico alugado para pôr a garotada a fazer actividades, mesas de som e colunas altamente sofisticadas graças às quais a escola irá ser, durante os dias de campanha, transformada num Inferno. Por outro lado, comerciantes e empresários consideram normal dar dinheiro a jovens pré-universitários que formam listas para uma Associação de Estudantes, sem nada saberem a respeito das qualidades ou defeitos dos seus membros, do seu programa, do seu projecto, só porque é um modo de fazerem publicidade à sua loja ou empresa.

Há uns anos, tive um aluno do 10ºano a quem disse, em jeito de brincadeira, por ser bastante argumentativo e mostrar algum interesse por assuntos sociais e políticos, que teria um grande futuro na política. No ano seguinte, por ter mudado de área, deixou de ser meu aluno mas soube que passara a ser delegado de turma (creio que os políticos começam sempre por ser delegados de turma). Dois anos depois, isto é, já pré-universitário, como as alunas que agora pedem patrocínios em lojas, vem ter comigo na rua, bastante entusiasmado, para me dizer que iria mesmo meter-se na política. Perguntei em que partido se iria meter, explicando-me então que tinha dois convites, um da Juventude Socialista e outro da Juventude Centrista, não sabendo ainda muito bem qual deles iria aceitar.

Há bastante tempo que não vou ao Portugal dos Pequenitos, em Coimbra. Mas lembro-me bem da última vez que lá fui e do meu espanto com a enorme verosimilhança das suas casas e de alguns arranjos urbanísticos: nós olhamos para as casas pequenas e conseguimos ver as grandes. Só mesmo a escala é diferente.

17 outubro, 2017

GRANDES CANÇÕES (7) - GILBERT BECAUD - L'IMPORTANT C'EST LA ROSE


AS BOCAS E OS FRUTOS

Severin Roesen | Natureza Morta com Frutos

Ninguém pode saber exactamente o que sentiu Adão perante a pletórica dimensão vegetal do paraíso. Mas eu bem sei o que senti há tempos na minha cozinha, transformada num edénico jardim de sabores, e não deve ter andado muito longe da virginal volúpia do nosso avô, anterior à ignóbil expulsão ordenada por um deus despótico e caprichoso.

Tenho sempre fruta em casa. O que nem sempre acontece é toda ela ser de uma olímpica qualidade. Na verdade, acontece poderem ser as óptimas pêras e as uvas mas já os pêssegos não serem por aí além ou o melão ser arraçado de pepino. Ou o contrário. Daí o que me aconteceu ser uma espécie de milagre que fez de mim uma abençoada criatura: possuir (digo "possuir" em vez de "ter"), ao mesmo tempo, sem excepção, num grau de absoluta perfeição, e aí vai disto, uvas, maçãs, mangas, pêssegos, pêras, bananas, dióspiros, romãs e laranjas. Para a bênção ser suprema só faltavam aquelas carnudas cerejas, belas e escuras como sangue seco, e com aquele sabor que dá a um filósofo existencialista a mais brilhante luz ao fundo do túnel.

Ao comer um daqueles suculentos pêssegos com um final floral, fui obrigado a concluir ser o pêssego a melhor fruta do mundo. Sim, aquela sensação de prazer que obriga a pensar que não pode ser superada por qualquer outra. Porém, chegada a vez de comer um cacho de umas tremendas uvas moscatel, tive precisamente a mesma impressão, surgida com a clareza e distinção de uma ideia platónica, só que na minha boca, cada vez mais transformada num céu de pura inteligibilidade: nada há de melhor do que um cacho de uvas. E isto, tendo ali à minha frente os mesmos pêssegos que me fizeram dizer, com matemática evidência, ser o pêssego a melhor fruta ao cimo da Terra. E a mesma impressão foi surgindo com o dióspiro, a romã, a sumarenta pêra, tudo perfeições supremas, absolutas, unas e indivisíveis. Atenção, uma coisa é a pessoa comer as uvas perfeitas e o pêssego perfeito mas, gostando mais de uvas ou de pêssegos, acaba por preferir uma perfeição a outra perfeição. Eu posso considerar Messi e Federer os melhores jogadores mas, gostando mais de futebol do que de ténis, posso preferir a "perfeição" de Messi à "perfeição" de Federer. Porém, no caso da fruta, não fui capaz de eleger uma perfeição em detrimento das outras. Direi então, sendo cada fruto um centro absoluto, tratar-se de valores incomensuráveis, impedindo qualquer tipo de gradação, hierarquização, relativização.

Ora, o mesmo se pode passar com as pessoas e os seus projectos de vida, as suas experiências, as suas percepções do mundo, muitos deles radicalmente diferentes entre si. Claro que cada pessoa pode preferir um registo a outro. Eu imagino-me a fazer certas coisas e não me imagino a fazer outras. Mas serei obrigado a reconhecer que a pessoa que se imagina a fazer o que eu não consigo imaginar para mim, pode não conseguir imaginar para si o que eu consigo imaginar para mim. Eu detesto rins e iscas. Mas consigo perceber que o prazer de algumas pessoas a comer rins e iscas não andará longe do meu prazer a comer as uvas moscatel ou aqueles pêssegos com sabor floral. Não estou com isto a pensar em valores morais, caindo num perigoso relativismo. Há limites que nunca podem ser ultrapassados e que podem ser considerados objectivamente imorais. Mas até essa linha fica ao critério de cada um a fruta perfeita que deseja comer.

16 outubro, 2017

EM ROMA SÊ ROMANO

Tim O'Brian

Consta que o perfil sexual dos seminaristas vai passar a ser investigado para evitar a ordenação de padres com tendências homossexuais. Nada tenho contra os pruridos da igreja católica com o sexo, como nada poderei ter contra a castidade e celibato dos padres. Não sou católico nem padre, nada disso, portanto, me diz respeito. Não significa, porém, que, enquanto ser racional que me esforço por ser (embora tantas vezes falhado), não estranhe a discriminação de que são alvo os putativos padres homossexuais. Se a igreja católica proíbe os seus padres de terem relações sexuais ou refrear as pulsões sexuais com que a natureza os dotou, que diferença fará um padre ser homossexual ou heterossexual? O que deve fazer um padre atraído por uma mulher? Refrear, anular ou sublimar a sua pulsão sexual e seguir em frente para cumprir as suas tarefas eclesiásticas. O que deve fazer um padre atraído por um homem? Refrear, anular ou sublimar a sua pulsão sexual e seguir em frente para cumprir as suas tarefas eclesiásticas. Se é suposto castrar o ser sexuado que há em cada padre, o que distingue então um padre homo de um padre hetero? Um padre sexualmente castrado será apenas um padre sexualmente anulado e o que não existe não  pode ter graus ou naturezas.

15 outubro, 2017

CRASH

O realizador David Cronenberg


«Cala-te quando falas comigo!» Do filme Gato Preto, Gato Branco, Emir Kusturica


Vou muito sossegado na minha caminhada quando, ali na recta que vai do colégio Andrade Corvo até à rotunda da Atouguia, passam dois carros a apitar um para o outro. Pelo modo como as buzinas tagarelavam, percebi logo tratar-se de arrufo entre condutores, confirmado depois pelo modo como gesticulavam. A estridência sonora ainda se prolongou durante um bocado. Ora apitava um, ora apitava outro, ora apitavam os dois ao mesmo tempo, ora com sons mais longos, ora com sons mais curtos. A situação tornou-se cómica pelo modo como as buzinadelas sugeriam a ideia de frases sonoras, transformando aquilo num diálogo. Diálogo insólito, é verdade, pois um diálogo implica uma linguagem, e uma linguagem com uma estrutura sintáctica e semântica que dê um sentido ao que diz A e, consequentemente, ouvido por B, ou o que diz B, ouvido depois por A, enquanto duas buzinas não passa de simples ruído, uma informe manifestação sonora em que cada um das partes tenta impor-se à outra. Mas também é verdade que já assisti a pequenas e longas conversas em que o objectivo, apesar de palavras em vez de buzinas, é exactamente o mesmo. As palavras servem apenas para disfarçar, dando uma aparência racional ao discurso, pois o que conta mesmo é buzinar. Buzinar mais e buzinar mais alto do que a buzina do interlocutor. 

14 outubro, 2017

CLÍNICA GERAL

Eugene Smith | Série Country Doctor

No mercado, peço ao senhor dos queijos que me desse o mais forte de ovelha que lá tivesse, dando-me então a provar três lasquinhas de queijos diferentes. Como acordei bem disposto, e apesar de falar com ele pela primeira vez, apeteceu-me comentar que ando a pensar suicidar-me e como não gosto de métodos violentos iria tentar através do colesterol. Foi o suficiente, juro pela saúde dos meus filhos, para levar com uma dissertação de uns quinze minutos sobre nutricionismo, medicina quântica, grupos sanguíneos, tipos de gordura, tipos de carne, animais alimentados a milho, animais alimentados a trigo e aveia, alimentação no tempo das cavernas e outras coisas do género. Momentos depois, enquanto encho um saco com romãs, a velhota volta a repetir (creio que pela terceira vez) a história das romãs fazerem muito bem à saúde e que uma cliente sua, uma doutora médica, as leva aos magotes, presumindo cá para mim que com o espírito de quem sai de uma farmácia. Entretanto, tive de passar pelo Modelo e como me esquecera de comprar batatas, aproveitei para o fazer. Não é que junto delas está agora uma indicação com as propriedades das batatas que são favoráveis à saúde? Mas a cereja em cima do bolo vi eu, há dias, no Porto. Na rua da Torrinha descubro um sapateiro cujo nome é "Clínica do Calçado". Fiquei estarrecido com a designação. Entretanto, horas depois, desta vez na rua do Paraíso, volto a encontrar outro sapateiro também chamado "Clínica do Calçado". Pensando tratar-se de um franchising, resolvi pesquisar. Não, não é um franchising mas antes um conceito. A clínica da rua da Torrinha chama-se "Antes e Depois", a clínica da rua do Paraíso chama-se "Amândio G. Ferreira", vindo entretanto a descobrir mais clínicas destas no país. Parece pois que deixou de haver sapateiros para passarmos a ter clínicos de sapatos. Se pensar na obsessão sanitária de que enferma a vida moderna serei obrigado a concluir que tudo bate certo. E eu, ingénuo, que pensava que quando se mandava beber água do Vimeiro porque a saúde estava primeiro, era só por se tratar de uma rima que daria um slogan giro para entrar no ouvido.

13 outubro, 2017

A MONTANHA MÁGICA

Pawel Kuczinsky

Há dias, no final de uma aula, um aluno, excelente e inteligente aluno, de resto, veio ter comigo muito entusiasmado por ter descoberto que eu tenho um blogue mas lamentando também, logo de seguida, serem os textos muito grandes, assumindo, embora de um modo elegante e eufemístico, não ter grande paciência para os ler. Engraçado, pois isto passou-se poucos dias depois de eu estar a falar com um colega que me dizia ter grande admiração intelectual por Pacheco Pereira mas sem paciência para ler as suas crónicas devido à sua assustadora dimensão. 

A actual reacção a esta pachecopereirização do texto, fez-me lembrar o que dizia Nabokov relativamente ao facto de haver escritores de fundo e de velocidade e de cada escritor ter um número de página que nunca deverá ultrapassar:  «Um editor disse-me uma vez que cada escritor traz gravado dentro de si o número exacto de páginas que nunca ultrapassará em nenhum livro. O meu número era, salvo erro, o 385. Tchekov nunca poderia escrever um verdadeiro romance comprido. Era um sprinter e não um stayer. Dá a impressão de que não sabia manter focado, durante muito tempo, o padrão de vida que o seu génio apanhava por todo o lado; só era capaz de manter o encanto vivo deste padrão pelo período necessário a um conto, mas não podia conservar os pormenores necessários a uma narrativa longa e em grande escala».

Ora, talvez se possa então também dizer que cada leitor terá uma quantidade de leitura que não deve, ou não pode ultrapassar. Fará pois também sentido concluir que o actual leitor médio não consegue suportar o tempo de leitura do leitor médio de outros tempos. Há uns anos, resolvi finalmente ler "Guerra e Paz", tendo precisado de vários meses para chegar ao fim. O livro é uma verdadeira obra-prima, tive um enorme prazer em lê-lo mas lembro-me igualmente de uma certa sensação de alienação por tudo o que não estaria a ler durante esses meses, e que era muito, e cada vez mais. Claro que não me arrependi nada de o ler, sendo ainda hoje um livro ao qual regresso imensas vezes para me deleitar com muitas das passagens que sublinhei. Mas torna-se cada vez mais difícil aguentar tanto texto numa época em que, para além de muitos outros estímulos visuais ou sonoros, estamos rodeados de pequenos textos por todos os lados, de fácil e rápida leitura, textos que todos os outros lêem, o que aumenta ainda mais a necessidade de os ler. Ou seja, haver um mundo lá fora que corre velozmente enquanto estamos durante tanto tempo com um romance, pode, na verdade, criar um sensação de perigoso alheamento face a esse mundo.

Mas trata-se ainda de uma outra razão, a qual atinge igualmente o texto jornalístico ou bloguístico, se pensarmos em blogues cujos textos se apresentam com o registo de crónica. Num tempo em que a informação surge cada vez mais triturada para que possa ser consumida sem ter que mastigar muito e, depois, facilmente digerida, qualquer crónica pachecopereirizada surge como obstáculo intransponível. Nada disto tem que ver com uma menor inteligência, qualquer tipo de regressão intelectual de natureza civilizacional, mas apenas com uma nova gestão do tempo que nos torna naturalmente incapacitados para grandes textos, embora preservando as nossas naturais faculdades. Se pensarmos na leitura de um jornal numa época anterior à televisão e, entretanto, à Internet, percebemos facilmente ser a disponibilidade mental para a leitura de um jornal muito maior. Lembro-me de estar a passar uns dias numa aldeia, sem nada para fazer, com todo o tempo do mundo, havendo ao lado de casa um café onde todos os dias lia o "Correio da Manhã" depois de almoço. Eu nunca tive o hábito de ler o "Correio da Manhã" mas acabava sempre por consumir o jornal de uma ponta a outra, lendo o que interessava e o que não interessava que, já agora, era quase tudo. O mesmo se passa quando na sala de espera de um consultório acabamos por ler coisas que, no dia-a-dia, jamais iríamos ler, envolvendo não apenas coisas que não interessam mas também outras que interessam. Estar em 1930 num café a ler um jornal ou ir levar um jornal para casa para ler depois de jantar ou já deitado na cama, não é o mesmo que o ler hoje. Daí a lógica da twitterização se sobrepor cada vez mais à lógica da pachecopereirização.  Continua-se a escrever longos romances ou longas crónicas de jornal? Sim, claro. Porém, trata-se de um registo cada vez mais cultivado apenas, algo romanticamente, por quem teima em viver num mundo que foi o seu e que se aproxima cada vez mais do seu fim. 

12 outubro, 2017

GRANDES CANÇÕES (6) - BLONDIE - MARIA


NACIONALISMO


Admito ser limitação minha mas há dois sentimentos que, por muito que me esforce, não consigo entender: o sentimento religioso e o sentimento nacionalista. Quanto ao primeiro, percebo que uma pessoa consiga acreditar no que deseja muito acreditar ou apenas por uma preguiça mental que evita duvidar do que se começou a acreditar numa fase da vida em que é possível acreditar seja no que for. Isso percebo. Só não consigo é ter a minha própria experiência da experiência de acreditar numa coisa na qual não faz o menor sentido acreditar. Percebo que uma pessoa acredite numa coisa absurda como 8x7 serem 63. O que não consigo é ter a experiência de acreditar que 8x7 são 63 quando me sinto racionalmente obrigado a acreditar que são 56. Pronto, é mais ou menos isto.

Ao contrário da religião, com o sentimento nacionalista não existe a crença num objecto que tudo leva a crer que seja falso. Por muito legítima que seja a emoção na experiência religiosa, estará sempre condicionada pela verdade ou falsidade dos seus conteúdos. Claro que o sentimento nacionalista pode estar infectado por crenças falsas ou simplesmente frágeis de carácter histórico ou filosófico. Mas o que conta verdadeiramente no sentimento nacionalista é de natureza emocional e as emoções não são verdadeiras nem falsas, apenas emoções. Ora, a emoção eu consigo perceber. Sentir emocionalmente apego a uma nação não anda muito longe de sentir apego à família ou a um clube. Eu, não sendo nacionalista, sinto esse apego: nasci aqui, habituei-me a ser português e a tudo o que tenha que ver com Portugal, tenho aqui as minhas raízes e, sendo assim, quando chega o dia de Portugal jogar com a Suíça, torço por Portugal. Ou sinto que chego a casa quando saio de Badajoz para entrar em Elvas apesar de não ter qualquer ligação a esta cidade a não ser as ameixas quando como sericaia.

Pronto, isso é uma coisa. Outra é a minha identidade depender excessivamente desse sentimento nacionalista ou considerar demasiado importante o peso individual da minha nação, quer dizer, o que ela tem de específico e único face às outras nações. Raças, culturas, línguas, histórias, está tudo tão misturado ao longo dos séculos, que se torna difícil aceitar um excesso de emocional concentração patriótica ou nacionalista. Consigo entendê-lo numa situação radical como a de um país ser ocupado por outro à margem do Direito Internacional, tendo o primeiro todo o direito à sua liberdade, independência, auto-determinação. Porém, no actual quadro europeu, e apesar do "excesso de história" de alguns países, exacerbados sentimentos nacionalistas soam desajustados, regressivos, atávicos. E, claro, disruptivos. Percebo a patológica necessidade disso como posso perceber a patológica necessidade de um adulto se sentir atraído por crianças ou a patológica necessidade de matar gente. Consigo perceber a partir do momento em que me ponho a brincar à psiquiatria. Mas, confesso, e creio que felizmente, não consigo fazer a minha experiência pessoal dessa experiência. 

10 outubro, 2017

SEM DIRECÇÃO


Se pensarmos na história como um filme, teria protagonistas e figurantes e o homem que aparece aqui morto seria claramente um protagonista. Um protagonista com um projecto social, uma ideologia, uma filosofia, um ideal. Entretanto morto, perdeu a consciência de tudo isso e a consciência de si como parte de tudo isso. Mas os figurantes que ali rodeiam o herói morto, apesar de vivos, também não têm consciência de si e do que ali estão a fazer. O homem morto sabia, ou julgava que sabia, por que tinha uma arma nos braços ou por que causa iria morrer, os outros apenas sabiam que tinham de matar o homem que tinha uma arma nos braços, não matando em nome de uma causa mas apenas porque lhes mandaram matar. São soldados como poderiam ser camponeses, operários ou mineiros, enfim, alguma profissão iriam ter. Olham para o troféu, exibem o troféu, mas muito longe de entender o verdadeiro significado do troféu, o que está em jogo com o troféu, o que representa historicamente o troféu. Não sabem o que é o socialismo ou a economia de mercado, o que é a Guerra Fria, quem foi Marx, Bernstein ou Trotsky, a diferença entre reforma e revolução. Claro que enquanto figurantes são importantes. o que seria de um filme sem os anónimos figurantes? Alguém imagina um filme romântico em que dois amantes passeiam numa Paris esvaziada de pessoas? E quem seriam Dario, Alexandre, Aníbal, Napoleão, Hitler ou Montgomery sem as suas tropas? Mas também o que sabem as tropas do que andam a fazer? No fundo, não passam de massas cegas e acéfalas que avançam ao som de uma ideia lançada mas que apenas entendem como um assobio que os faz depois correr ou saltar como se fossem cães amestrados.

Mas também saberão mesmo os protagonistas o que andam a fazer? Quer dizer, sabem. Mas não serão igualmente figurantes dentro de um argumento que eles próprios não dominam? Não terão apenas decorado e representado o seu pequeno papel de um filme cujo desenrolar desconhecem em absoluto? Talvez sejamos todos, protagonistas e figurantes, demasiado pequenos para este grande filme que sabemos como foi mas cujos encadeamentos nunca sabemos como irão ser depois de o largarmos, pois trata-se de um filme sem realizador e produtor. Escrevesse eu em inglês e em vez de dizer que o filme não tem «realizador» diria que não tem «director». Aproveito, no entanto, a palavra inglesa para, pensando em Português, concluir que, neste grande filme contínuo e ininterrupto que é a história, todos nós, protagonistas e figurantes, actuamos sem uma verdadeira noção da direcção em que caminhamos.

06 outubro, 2017

A LUTA CONTINUA



Uma das condições mais elementares da natureza é a relação entre o movimento e o repouso. O estado natural de uma pedra ou de uma planta é o repouso. O de um animal já será o movimento, embora diferente conforme se trate de um molusco, de um réptil ou de um mamífero, assim como do contexto em que se encontra. O leão caça quando tem de caçar, dorme quando tem de dormir. O ser humano não é excepção. Não fomos feitos para estarmos sempre em repouso mas também sempre em movimento, devendo existir uma sábia harmonia entre os dois estados.

Faz-me por isso alguma confusão as pessoas que estão sempre em luta, que só pensam em lutar, acordam e adormecem a pensar sobre que lutas irão travar. E se só lutam porque vivem é também caso para dizer que só acreditam que vivem quando lutam. Esta necessidade de lutar faz-me lembrar o conto os «Sapatos Vermelhos» de Hans Christian Andersen, no qual uma rapariga, dominada por esses sapatos, que entretanto deixou de poder descalçar, não consegue parar de dançar, levando-a ao desespero. A diferença é que a rapariga não suportou dançar sem parar enquanto quem luta pensa sempre que ainda não lutou tudo o que havia para lutar. 

Vamos lá ver, nada tenho contra a ideia de lutar. Eu próprio andei a lutar a semana passada com uma varejeira que entrou por uma janela da sala e vi-me e desejei-me para me ver livre dela. Mas cá está, lutei porque essa necessidade veio ter comigo, não fui eu que andei à procura da necessidade de lutar. É como o medo. Nós precisamos de ter medo para sobreviver. Mas não é saudável viver sempre com medo, um enorme desperdício mental, emocional e existencial. Em suma, a necessidade de lutar ou de ter medo deve ser reactiva e não activa. O saudoso Eduardo Prado Coelho, creio que no seu diário Tudo o que Não Escrevi, falava na ideia de uma «neurose militante», o que me parece ser uma expressão bastante feliz para compreender a pessoa que está sempre a lutar. O que eu acho é que uma pessoa que precisa de estar sempre a lutar, está em luta consigo própria, começando a ressacar emocionalmente se não tiver nada com que lutar.

Apesar de desterrado em Paris, dizia com muita graça Heinrich von Bamberger, para explicar a personalidade de Bismarck, que «as pessoas nascem revolucionárias, o acaso da vida é que decide se há-de ser um revolucionário vermelho ou um revolucionário branco». Pronto, está-lhes na massa do sangue, sendo um destino que têm de cumprir para poderem sentir-se contentes. Em vez de estarem descansadinhos num sofá a ler ou a ver um filme do Michael Moore preferem andar por aí quixotescamente a lutar. Eu não teria nada contra isso, e até poderia sentir alguma condescendência cristã se as suas descargas revolucionárias fossem em privado, entre familiares e amigos. Mas como a tendência não é essa, acabam por ser bastante aborrecidos e maçadores com as suas intermináveis lutas, seja a fazer barulho na rua, seja com greves só para mostrar que estão vivos e para as curvas mas atrapalhando as vidas das pessoas, seja a sujar paredes, seja a destilar má disposição, em contraponto com os fofinhos afectos presidenciais, seja quando lhes dá para isso e o contexto é favorável, matar pessoas, tradição revolucionária que, felizmente, se foi perdendo com os anos. Como diria o também saudoso Willy Brandt, ser revolucionário aos 18, ainda vá, e até faz algum sentido. Mas depois de uma certa idade preferir ser revolucionário, sempre a lutar, sentindo-se rodeado de varejeiras por todos os lados, em vez de um mentalmente anafado social-democrata, já é coisa que só a Psicologia pode ajudar a explicar.

05 outubro, 2017

MATCH POINT


Sendo ele um dos meus heróis, sabe Deus o que me custa considerar a digressão europeia de Woody Allen desastrosa, uma coisa assim mesmo para esquecer. Não a tocar clarinete com a sua New Orleans Jazz Band mas com os filmes que por cá fez. Barcelona é de fugir, e se Paris bate no fundo, Roma chega mesmo a furar o chão para se estatelar na cave. Mas há uma enorme excepção: Londres, Match Point, um grande filme com um perfume de tragédia grega, sobre o acaso, a sorte e o azar, sobre a bola de ténis que, pousando caprichosamente sobre a fina rede, tanto pode cair para um lado como para o outro, decidindo assim o vencedor e o derrotado da partida. Como nos jogos de ténis, a história da humanidade é feita das vitórias de uns e derrotas de outros. Mas não têm todas o mesmo sentido histórico.

Se olharmos para as datas mais importantes, vamos encontrar vitórias e derrotas impostas por uma certa necessidade histórica. Por exemplo, o 25 de Abril. Mais cedo ou mais tarde teria de acontecer e foi naquele dia como poderia ter sido um ano antes ou dois anos depois. Mas tinha de ser. Seria impossível durante muito mais tempo um regime daquela natureza na Europa, como, aliás, em Espanha ou na Grécia ou como hoje no Brasil, Uruguai, Chile ou Argentina. Atenção, tal como num jogo de futebol onde a sorte e o azar contam bastante, não é forçoso ganhar sempre o melhor, impondo justiça no resultado. Se assim fosse, nunca teria havido esclavagismo, massacres horríveis, o «Terror» revolucionário francês, o comunismo não teria passado de literatura utópica e o nazismo seria apenas tema para um filme. Porém, e embora de um modo, infelizmente, nem sempre linear, a história vai impondo valores mais justos e razoáveis. Daí ser impensável voltar a haver esclavagismo ou monarquias absolutas na Europa. Ou melhor, pode voltar, de acordo com circunstâncias extraordinárias que hoje nem conseguimos conceber (daí um livro como O Mundo de Ontem, de Stefen Zweig, nunca dever sair das mesinhas de cabeceira) mas para depois se repor uma mais justa normalidade.

Outras datas, porém, já não resultam de uma necessidade histórica mas, na linha do que mostra o filme, da caprichosa «vontade da bola» sobre a finíssima espessura da rede. Olhando para o passado, já não conseguimos imaginar outros vencedores e derrotados senão os que venceram e perderam. Mas tivesse a bola caído para o outro lado e estaríamos hoje a não conseguir imaginar o que hoje temos como verdade segura. Foi assim mas não teria de ser assim e tivesse sido de outra maneira, não iríamos sentir estranheza. Hoje, um espanhol, um inglês, um belga ou um holandês não acham estranha a ideia de acordarem de manhã num país monárquico tal como um português, um italiano, um francês ou um grego acordarem numa república. Mas poderia ser tudo ao contrário. Em França, depois de 1789, a monarquia foi restaurada diversas vezes (desde logo, de certo modo, com Napoleão) e a Espanha teve uma experiência republicana. Mas não ficou assim porque, somando várias ironias, a bola «decidiu» que fosse de outro maneira.

Em Portugal, o 5 de Outubro é disso um exemplo. Portugal poderia ser hoje uma monarquia, os meus pais, eu e os meus filhos teríamos todos nascido numa monarquia, sendo isso tão normal como para um sueco ou dinamarquês. Tal não aconteceu porque o capricho da bola sobre a rede fez com que fosse de outro modo, nunca por uma certa ordem natural das coisas. Fosse a bola para o outro lado e hoje seria um dia normal de trabalho, sem nada para comemorar e sem pensarmos na hipótese de haver alguma coisa para comemorar. Alguém se lembra, nos dias 4 de Março, 17 de Maio ou 25 de Junho de nada haver para comemorar? Seria também assim o 5 de Outubro. Significa tudo isto que, ao contrário daquele tempo, hoje, ter havido 5 de Outubro não aquece nem arrefece. Foi assim e pronto como o contrário seria assim e pronto, levando-me a pensar não haver por isso qualquer razão para comemorar o que quer que seja. Fizesse ponte este fim-de-semana e talvez a minha perspectiva já fosse outra.

03 outubro, 2017

AS AGULHAS


Lembro-me de o arquitecto e urbanista brasileiro Jaime Lerner dizer que as cidades já não podem estar dependentes de grandes planeamentos, de grandes projectos como aconteceu noutros tempos. Presumo que se queria referir a coisas como a Lisboa Pombalina ou os boulevards rasgados pelo barão Haussmann na Paris do século XIX. Tais projectos são caros e demoram muito tempo. Apresentava então a ideia de uma acupunctura urbana: intervenções pontuais e originais no interior de uma cidade que ajudam a criar nela uma nova energia. Dava como exemplo a pirâmide do Louvre ou o Paley Park em Nova Iorque, muito pequeno mas com um excelente impacto, não no skyline da Grande Maçã mas na vida «cá de baixo». Enfim, coisas rápidas mas bastante eficazes. 

Agora que decorreu mais um autárquico processo eleitoral, tremo só de pensar que os edis conheçam a ideia (se é que não conhecem já), lhe achem graça e depois se sintam ainda mais legitimados por este modelo de intervenção urbana. É verdade que a paisagem urbana do nosso Portugal já está generosamente desgraçada por rotundas, repuxos, edifícios e uma arte pública que faz com que uma simples saída à rua se torne num pesadelo estético. Mas sendo o entusiasmo dos nossos autarcas ilimitado, e havendo sempre espaço para mais umas intervençõezinhas, é de temer que as terapêuticas agulhas façam com que a cura se transforme cada vez mais na própria doença. Em grande parte do país, «edílico» raramente coincide com idílico.

02 outubro, 2017

OS ESPAÇOS EM VOLTA

Jose Manuel Ballester

Todos os trabalhos desta série do fotógrafo e pintor espanhol partilham um elemento comum: a ausência de presença humana em espaços que nos habituámos a reconhecer em função dessa fortíssima presença. Espaços tão obviamente reconhecidos que nem vale a pena identificá-los. Aquela jangada à deriva no mar só pode ser a de Géricault, aquele jardim não pode ser outro senão o da Anunciação, de Leonardo. Embora nada tenham que ver com a série «Poética da desaparição» de Ixone Sadala, outra artista espanhola, foi a ideia de uma poética da desaparição que me ocorreu quando os vi a primeira vez. Estranhamente, o impacto não foi negativo, apesar da desintegração do elemento humano numa paisagem densamente humanizada. Melancólico, sim, uma melancolia da perda ao vermos todas as suas personagens partir. Mas também deixando o seu rasto graças à preservação de um espaço que permaneceu igual ao que sempre foi. Partiram, mas a indelével memória delas nesse espaço prende-as a ele, como almas que a morte fez desaparecer do mundo em que sempre viveram mas do qual, como almas penadas, não conseguem libertar-se graças à enorme osmose entre os dois. No fundo, o que há de poético nesta desaparição do que julgaríamos ser eterno e imutável, do que foi criado para não poder ser de outra maneira, é a presença quase física de um silêncio ainda  maior em espaços que, já por si, porque de pintura se trata, são silenciosos, ainda que ecoem gritos e tiros de espingarda no mundo real, como no fuzilamento de 3 de Maio, pintado por Goya, o som da tempestade sobre a jangada ou dos passos dos caçadores sobre a neve.

Deixando agora a melancolia, um possível exercício motivado por estes trabalhos será testar a importância do elemento humano a partir da consciência da sua perda, obrigando-nos a reconhecer a superioridade do mundo do espírito face a um mundo exterior despojado desse espírito. O que estas espaços sem vida revelam é o mesmo que o rosto de alguém que acaba de morrer, cuja identidade permanece mas sem a alma que lhe dá vida. No caso destas imagens, também o espaço é o mesmo mas um espaço literalmente desvitalizado, desanimado, isto é, sem uma anima que lhe insufle vida. Trata-se, neste sentido, de pensar o espaço físico como simples palco do movimento do espírito, tábuas de madeira que, sem esse movimento, se tornam desoladoras, vazias, lunares, quase inorgânicas. O teatro do espírito humano, a odisseia do espírito, que vai de um regresso da caça numa floresta do século XVI a um fuzilamento espanhol do século XIX, passando pelo tranquilo atelier de um pintor do século XVII, e que apresenta múltiplas e as mais variadas expressões, precisa do seus espaços para se manifestar. Ulisses é Ulisses mas sem as ilhas por que passou no regresso a Ítaca, não teríamos Odisseia, apenas a normal viagem de um homem sem nada para contar. Mas também o que serão ilhas gregas sem Ulisses, sem Circe, sem Calipso, sem os Ciclopes ou sem uma Penélope trabalhando diariamente no seu tear sem nunca chegar ao fim? Apenas ilhas. Eis, pois, o que também acontece com estes espaços alienados do elemento humano: apenas espaços.

Creio, porém, que estes trabalhos permitem ainda outro e não menos interessante exercício: Perceber a pintura como um mundo que se sobrepõe à realidade propriamente dita. Sem dúvida que o mundo existe sem a consciência dele. O mar, uma floresta ou o salão de um palácio real não precisam de uma consciência humana para serem o mar, uma floresta ou o salão, embora a consciência deles possa não coincidir necessariamente com o que são em si mesmos, como bem ensinou Kant. Mas a partir do momento em que o pintor recria um espaço concreto na sua tela, será esse espaço que prevalece. Doravante, aquele salão real será sempre o salão da família real espanhola e de parte da sua corte. Uma jangada à deriva no mar será sempre a jangada de Géricault, aquela pequena encosta com o casario ao fundo deixou de o ser para se transformar definitivamente no fuzilamento recriado por Goya tal como Guernica deixou de existir sem Picasso. Os fuzilamentos de 3 de Maio de 1808 existiram mas o de Goya tornou-se a sua essência, para a qual os olhos e os espíritos se viram para os pensar e nomear. Ora, despojar os espaços do seu elemento humano criado pelo pintor, é voltar a um tempo anterior a essa criação, um tempo que já não conseguimos mais compreender. Deixar de ver ali Cristo e os apóstolos à volta da mesa, torna não só o quadro irreal mas anula também a própria ideia da Última Ceia pois a partir do momento em que o pintor a recriou já não sabemos viver sem ela. É caso para lembrar Oscar Wilde com a sua ideia de ser a vida a imitar a arte e não o contrário.