16 outubro, 2014

A ARTE DE ARGUMENTAR

Catia Shausheva

Tenho andado entretido lá pela escola a falar sobre argumentação e argumentos: o que é um raciocínio argumentativo, como se constrói, quais os elementos que o compõem, como se distinguem, pronto, toda essa engenharia mental.
Eu consigo explicar tudo isso com o ar mais sério e profissionalmente competente do mundo. E, claro está, como é minha obrigação, sensibilizando os alunos para o valor humano da argumentação, exibindo-a, com orgulho antropológico, como base de separação entre as luzes da racionalidade e as trevas da irracionalidade, a civilização e a barbárie, a humanidade e a animalidade, enfim, para rematar com chave de ouro, a abissal distância entre a força de um argumento e o argumento da força.
E lá vou para casa todo contente e com a pedagógica satisfação do dever cumprido. Mas, por vezes, não consigo deixar de pensar na adolescente ingenuidade que os leva a acreditar na minha empenhada apologia das virtudes argumentativas. É verdade que há muito que não acreditam no Pai Natal, que os bebés são trazidos por uma cegonha ou que os pais sejam heróis sem mácula. Mas ainda não cresceram o suficiente para perceber o obscuro e labiríntico universo da argumentação e da contra-argumentação, que não passa de uma sublimação dos nossos desejos.
Eu ensino o que devo ensinar sobre a argumentação. E simulo tão bem que chego mesmo a acreditar no que digo. Mas, depois, quando caio verdadeiramente em mim, é a explicação de Pascal Quignard em Vida Secreta, que ressoa na secreta intimidade do meu espírito:

Argumento é uma palavra antiga que quer dizer a brancura da aurora. É tudo o que se ilumina e se discerne nesta palidez que surge em alguns instantes.

Claro que podemos ligar a moderna noção de argumentação a este atavismo pré-conceptual. Mas a vontade que dá é tapar mesmo os ouvidos, ou calar as bocas, e ficar simplesmente, em silêncio, a respirar a brancura da aurora.