08 fevereiro, 2017

AGORAFOBIA


A doença da Inglaterra vitoriana era a claustrofobia - havia uma sensação de sufoco e os melhores e mais dotados homens deste período, Mill e Carlyle, Nietzsche e Ibsen, homens tanto de esquerda como de direita - reclamavam mais ar e mais luz. A grande neurose da nossa época é a agorafobia; os homens vivem assustados com a ameaça de desintegração e de uma excessiva falta de direcção: exigem, como os desgovernados homens do estado de natureza de que fala Hobbes, paredes para conter o tumultuoso oceano, ordem, segurança, organização, uma reconhecida autoridade, e estão alarmados com a perspectiva de uma excessiva liberdade que os deixe num vasto e hostil vaccum, um deserto sem estradas, marcos ou metas. Isaiah Berlin, John Stuart Mill and the Ends of Life


Não falta graça e criatividade a esta «capa». Trata-se, porém, de um equívoco. Visitar a famosa distopia orwelliana (para os mais renitentes à leitura haverá o excelente filme de Michael Radford, com o recentemente falecido John Hurt num dos seus grandes papéis) é ter a experiência de uma sociedade claustrofóbica, suportada por uma linguagem e um sentido único, que formatam as consciências numa só direcção, de acordo com o que o Partido determina ser a verdade. Hoje, padecemos cada vez mais de um problema de agorafobia, o facto de vivermos numa enorme arena onde existe um excesso de linguagem, a possibilidade de tudo dizer, criticar, afirmar, onde emerge cada vez mais um politeísmo de valores, discursos, ideias, projectos, sentidos. A sociedade aberta combateu tanto, e bem, diga-se, os seus totalitários inimigos, que acabou ela própria por ficar refém dos seus múltiplos braços e olhos, como se de uma sincrética estatueta antiga se tratasse. Por princípio, é preferível uma sociedade com múltiplos braços e olhos, a uma sociedade ciclópica, governada por um cérebro limitado e mesquinho. Por princípio, insisto, e quando um contexto social e económico favorável permite o luxo de podermos assumir a nossa racionalidade tanto nos aspectos mais básicos e ínfimos da vida, como nos mais complexos de um ponto de vista político e moral. Quando isso falha, ou se revela em crise, a bela estatueta dos múltiplos olhos e braços transforma-se numa cacofónica torre de Babel impedida de prosseguir o seu natural caminho rumo a uma paz celestial, perpétua, como gostaria Kant de a ver.

Antes da democracia, a democracia era o objectivo, como se fosse, por si só, o grande desígnio da humanidade. Ora, que valor tem, hoje, para nós, a democracia? Em Reflexões sobre a Revolução na Europa, Sir Ralf Dahrendorf diz que as sociedades abertas são sociedades frias e que a democracia não passa de uma forma de governo, não «um banho a vapor de sentimentos populares». Ora, há décadas que, no mundo ocidental, democracia se confunde com política normal. Um regime que ninguém quer dispensar mas que também não cria especial empatia. Desejamo-la e lutamos por ela se não a tivermos, porém, se a tivermos deixa de ser um objecto de desejo. A democracia é como o velho candeeiro da sala: está lá, faz-nos falta mas nem damos por ele, apenas por o que é iluminado por ele.

A que se refere Berlin quando fala em desintegração, numa excessiva liberdade, em hostil vaccum, deserto sem estradas, marcos ou metas? Não está a diabolizar a democracia. Apenas tem a consciência de que sendo o sistema que mais promove a liberdade e  o pluralismo, pode levar a um sentimento de orfandade colectiva e ideológica, devido à ausência de projectos «quentes» e colectivos que mobilizem ou envolvam activamente as pessoas, anichadas que estão nos seus projectos e metas individuais sem fim. Daí a agorafobia que, de certo modo, não deixa de ser contraditória. As pessoas usam e abusam da liberdade, aproveitam-se dela para chafurdarem nos seus próprios vómitos mentais mas também acabam por ser vítimas da vastidão desse espaço vazio que é a liberdade e dos excessos que dela decorrem, nomeadamente na linguagem, através da qual emergem depois falsos e perigosos profetas com calorosos e patrióticos projectos que dão um sentido aos seus desejos. Entre o Mein Kampf ou o Livro Vermelho e a incontinente verborreia do twitter, das redes sociais, dos comentários grotescos que poluem o espaço social, ou da contra-informação que tem o mesmo peso da informação, venha o diabo e escolha.