25 fevereiro, 2017

FLOR SEM TEMPO

Charles Corbet | Natureza morta com jarra e flores, c.1910 [autocromo]

Como diria Enesidemo de Cnossos, esse velho céptico, um perfume causa muito prazer através do olfacto mas o seu sabor é horrível, não se podendo beber. O facto de haver uma parte da flor que corresponde ao aroma, não significa que a flor, como um todo, se confunda com essa parte. Basta uma experiência instintiva, animal mesmo, para evitar que caíamos, neste caso, na muito habitual falácia da composição, aquela que nos faz tomar o todo pela parte. Fossem as coisas mais complexas assim tão intuitivamente compreendidas, desmontando-se o todo em partes em vez de montar as partes em todos, e passariam a ser bem mais simples. Como ensinam os gestaltistas, a mente humana tem uma disposição natural para a ordem, a arrumação, a composição, a totalidade. É assim com a percepção visual ou auditiva mas também o será no modo como tentamos interpretar as mais diversas realidades. É isso que nos eleva, esse impulso para a abstracção, para totalidades que encerram tantas vezes contradições internas, essa pureza conceptual da qual foi expulsa a negatividade? Sim, pode ser. Mas também é isso que tantas vezes nos submete à imperiosa força do erro que, depois de um olfacto deleitado, provoca amargos de boca.