10 fevereiro, 2017

PALIMPSESTO

Paul Sano | Duplo Retrato da sr. Corbet, 1912 [aurocromo]

Diz o jornalista António Caeiro sobre a China, onde viveu e sobre a qual escreveu, que lá o passado é sempre imprevisível. É uma boa piada. Mas se diz a Lógica que o que é verdade para o todo também o é para as partes, aqui, é caso para dizer que o que é válido para a parte também o será para o todo. Ou seja, o passado é coisa intrinsecamente imprevisível e não é preciso ser psicanalista para o saber. O passado é sempre uma coisa futura. Será sempre aquilo que a memória, no futuro, consegue fazer e a respeito dele. Daqui a alguns anos, pode acontecer que umas escavações venham alterar a nossa percepção da vida doméstica na Roma antiga, ou que a futura descoberta de um esqueleto altere o que sabemos, ou julgamos saber, do Paleolítico.

O passado é feito do que já sabemos mas também do que já não sabemos, do que ainda não sabemos ou até mesmo do que nunca chegaremos sequer a saber. E o que julgamos saber será sempre uma parte do que há para saber, uma ignorância sobre o que ainda há para saber ou uma distorção do que seria suposto saber. Enquanto houver futuro, o passado nunca será uma casa fechada, sem portas e janelas, onde já ninguém pode entrar. Será sempre um palimpsesto arquitectónico, como aqueles mosteiros ou conventos medievais, aumentados, ao longo de novas épocas, com outros estilos e funções. Camada sobre camada, cada uma apagando ou modificando a outra. E quanto mais se escava maior a consciência do que ainda haverá para escavar.