12 fevereiro, 2017

VENTOS E TEMPESTADES

Gustave le Gray | Farol e Molhe, 1857

A Novela do Curioso Impertinente ocupa vários capítulos do D. Quixote, podendo mesmo ser lida como um livro dentro do próprio livro, não estranhando por isso que, logo em 1608, tenha merecido, em França, a primeira publicação autónoma. Quem não tiver tempo, paciência ou simplesmente vontade de ler toda a obra, poderá ler esta novela sem que isso represente uma grande maçada. Situa-se entre os capítulos XXXIII e XXXV, da Quarta Parte, do Livro I, não chegando a 50 páginas da minha edição.

Anselmo, um nobre de Florença casado com Camila, a mulher mais virtuosa que se possa imaginar, e que tem a perfeita noção de estar casado com a mulher mais virtuosa que se pode imaginar, mesmo assim, sente alguma incerteza face a essa virtude, admitindo a possibilidade, ainda que vã, de não ser ela tão perfeita e absolutamente imune à fraqueza quanto se possa acreditar. Como podemos ter a certeza de ser essa virtude inabalável se nunca foi posta à prova? Propõe então um plano ao seu melhor e mais fraternal amigo, Lotário, com quem mantém a relação de amizade mais perfeita que se pode conceber: que ele se insinue a Camila a fim de tentar que esta caia em tentação, passe a cacofónica aliteração. O amigo, homem que mais nobre e honrado não poderia ser, e igualmente reconhecedor das perfeitas virtudes de Camila, com quem mantém uma relação de absoluto respeito fraternal, fica em estado de choque, horrorizado, ofendido e sem conseguir acreditar em tão absurda e inverosímil proposta. Profere então um discurso fortemente moralista no qual revela toda a sua indignação perante o plano do amigo. Porém, a forte amizade que o prende a Anselmo, leva-o a ceder, levando à prática o insane projecto de uma mente tão caprichosa. Numa primeira fase, ainda mente, dizendo a Anselmo que se insinuava perante Camila, quando, afinal, nada fazia. O impertinente marido, porém, escondendo-se para assistir à acção de Lotário, acaba por descobrir a louvável mentira. Descoberta esta, não desiste do seu plano, levando Lotário a dizer as seguintes palavras: «Desgraçado e imprudente que és, Anselmo! Que fazes tu? Que planeias? [...] Se a mina da sua honra (Camila), formosura, honestidade e recato te dá sem nenhuma preocupação toda a riqueza que tens e podes desejar,- para que queres aprofundar a terra e buscar novos veios de um novo e nunca visto tesouro, pondo-te em risco de tudo vir a baixo, pois, enfim, sustém-se sobre as débeis bases da sua fraca natureza? Olha que a quem busca o impossível é justo que o possível se lhe negue [...]». 

Mas em nome da amizade, e embora céptico, lá resolve avançar. Várias peripécias ocorrem nas quase 50 páginas da novela, as quais não importa agora referir. Apenas dizer que acaba em tragédia, depois de Camila, após várias e pressionantíssimas tentativas, ter finalmente vacilado. No final, Anselmo morre, estando junto ao seu corpo um texto por si escrito, no qual reza o seguinte: «Um estúpido e impertinente desejo tirou-me a vida. Se o conhecimento da minha morte chegar aos ouvidos de Camila, que ela saiba que lhe perdoo, porque não era obrigada a fazer milagres, nem eu precisava querer que os fizesse; e já que fui o fabricante da minha desonra, não há motivo...» E pronto, morreu.

Poderemos conjecturar várias leituras deste tão pungente episódio. Por exemplo, ver a curiosidade de Anselmo como herdeira da curiosidade que contaminou Adão e Eva, sendo também aquele expulso do seu paraíso, neste caso, conjugal. Não me parece, todavia, uma tese pertinente. A serpente é astuta mas Adão e Eva não passam de duas crianças crescidas. São homem e mulher feitos mas a sua consciência nada sabe do mundo, excepto que não podem comer de uma dada árvore, mas sem sequer saberem porquê. A partir daí foram simplesmente manipulados pela serpente, ficando divididos entre o que lhes disse esta e Deus. A serpente até foi sincera, dizendo que depois iriam abrir os olhos e ficar com a consciência do bem e do mal. Mas, como duas crianças, não poderiam perceber a complexidade teológica, ética e antropológica daquela conversa. Ora, Anselmo é um adulto feito e tem bem a consciência de onde se está a meter, sabendo que está a brincar com o fogo. Neste caso, a serpente será Anselmo mas, no fundo, presumindo que a experiência vai dar em nada, indo responder a inocente Camila com a força da sua natureza e carácter.

Há também a possibilidade de comparar o seu capricho com o de Ícaro, em virtude do seu desejo de ir para lá dos limites razoáveis. Mas olhemos bem para o que conta Ovídio. Dédalo, pai de Ìcaro, constrói o seu artefacto com um objectivo mais do que justificado: fugir da prisão. E já que não o pode fazer por terra, fá-lo-á pelo ar. Ícaro é apenas um garoto que,  já no ar, segue atrás do pai, fascinado com a sensação que o levará a perder o controle da situação, desrespeitando o que aquele lhe havia ensinado sobre o voo. A sua queda não é muito diferente dos casos de jovens que, mal se apanham com a carta de condução, resolvem fazer umas brincadeiras com o carro, tendo acidentes graves. Vão para lá dos limites? Sim, claro, mas trata-se apenas do resultado de uma juvenil irresponsabilidade, do deslumbramento perante uma experiência radical. Ícaro é apenas vítima da sua adrenalina, daí que toda a moral à volta desta história me pareça manifestamente exagerada, talvez na mesma linha de Pedro e o Lobo, nada que ver, portanto, com o tortuoso caso de Anselmo. 

Outra possível pista seria tratar-se de uma história que tem o ciúme como núcleo principal, como acontece com Otelo ou o Bentinho de Dom Casmurro, esse grande e delicioso livro da língua portuguesa, evitando falar no marido ciumento desse fabulosíssimo filme de Wilder que é Kiss me Stupid, o qual daria agora pano para mangas que não vou querer vestir. Mas Anselmo não é Otelo, nem Bentinho. O primeiro, manipulado pelo veneno de Iago, encontra razões para o seu ciúme, ainda que não sejam verdadeiras. O mesmo se passa com Bentinho, que parte de um indesmentível dado factual: a enorme parecença entre o seu filho e o seu melhor amigo. Anselmo, pelo contrário, não tem o mais pequeno motivo para sentir ciúmes, admitindo a sua própria estultícia quando, com sentimento de culpa e vergonha, se prepara para contar o seu plano ao amigo: «[...] não sei desde há quantos dias até hoje me angustia e me oprime um desejo tão estranho e tão fora do uso comum de outros, que estou assombrado comigo mesmo, e me culpo e censuro a mim próprio a sós, e procuro calar e encobrir tudo isto dos meus próprios pensamentos».

A minha leitura é outra, seguindo a pista que Cervantes coloca na boca de Lotário, já acima citada: a quem busca o impossível é justo que o possível se lhe negue.  O que faz Anselmo é brincar com o fogo, não o fogo que Prometeu roubou aos deuses para o dar aos seres humanos mas um fogo que apenas serve para destruir. E que fogo é esse? O desejo de virar as costas a uma aurea mediocritas que, dentro das possibilidades, limites, defeitos, e valor relativo e circunstancial de todo o bem humano, permite uma vida normal e feliz. E isso, em nome de quê? Do desejo de uma perfeição ainda maior, de objectivos ainda mais elevados, motivados por uma vã e caprichosa curiosidade face a níveis de perfeição ainda maiores. Camila é um exemplo supremo de virtude, merecendo todos os louvores e respeitos a si dirigidos. Mas é bom lembrar estas outras seguintes palavras de Lotário: «A mulher é um animal imperfeito, e não se lhe hão-de pôr obstáculos onde tropece e caia, mas tirar-lhos, e desimpedir-lhe o caminho de qualquer dificuldade, para que sem custo corra veloz para alcançar a perfeição que lhe falta, que consiste em ser virtuosa. [...] A mulher perfeita é como um espelho de vidro luzente e claro, mas que está sujeito a embaciar-se e escurecer com qualquer hálito que lhe toque. Deve usar-se com a mulher honesta o modo de proceder que se tem com as relíquias: adorá-las e não lhes tocar.»

Esta história tem como alvo a fraqueza e fragilidade de uma mulher que, não fossem os experimentalismos ousados e desnecessários de um caprichoso e insolente marido, levaria uma vida absolutamente normal, orientada por valores sãos e virtuosos. Mas o que é verdade para Camila será extensivo à humanidade. O ser humano é o animal perfeito, o espelho de vidro luzente, a relíquia de que fala o sábio Lotário, se de cujo caminho se retirarem obstáculos em vez de lá colocá-los sem que disso haja necessidade. Coloque-se um ser humano normal perante situações normais e normal será a sua vida. Se, porém, lhe apresentarem a possibilidade de fazer emergir forças, desejos, pulsões que, como acontece no caso anterior, estão adormecidos nos mais remotos circuitos da alma humana, então a caixa de Pandora abrir-se-á, fazendo com que a humanidade enfrente o mesmo triste e miserável destino de Anselmo, que tinha a mulher perfeita, o amigo perfeito, a vida perfeita, dentro do que é humanamente concebível e razoável como sendo perfeito. Depois de tanto vento já semeado em tanta história atrás de si, grande experiência tem a humanidade para já o ter aprendido sem ser sequer necessária uma revisão da matéria dada.