10 março, 2017

ANIMULA, VAGULA, BLANDULA

Jacques Henri Lartigue, 1930

É minha aluna desde o ano passado. Uma boa aluna, diga-se. Responsável, trabalhadora, sempre atenta nas aulas mas também muito calada e tímida. Por vezes, lá sorri com uma ou outra piada minha, mas de um modo muito discreto e despercebido. Na última aula, para ensinar a teoria falsificacionista de Karl Popper, precisei de explicar o conceito de «demarcação». Confirmando eu o esperadíssimo facto de não saberem o significado da palavra, comecei por explicá-la no seu sentido mais corrente. Para exemplificar, sugeri a ideia de um político que declara demarcar-se da posição do seu partido face a um dado assunto. 

Um ano e vários meses depois da minha primeira aula com esta turma, foram já muitas as palavras da nossa língua cujo significado desbravei, mas também etimologias, algumas delas bem curiosas, palavras gregas, expressões latinas, ou até desmontando, em virtude da sua riqueza, palavras alemãs como «Erfahrung». Apesar de me pagarem para ensinar Filosofia, sei também que bem cedo a irão esquecer, compensando isso com a possibilidade de ensinar esta gente a falar e a entender o que lê ou ouve.

Durante todo esse tempo, nunca a minha aluna esboçou a mais pequena reacção, fosse com assuntos da Filosofia, fosse com curiosidades semânticas ou o que mais quer que fosse. Desta vez, todavia, a história foi bem diferente. Há momentos em que lamento não ser escritor para poder descrever certas vivências, sendo uma delas a sua impetuosa reacção ao descobrir o significado de «demarcação». Definitivamente, faltam-me as palavras para traduzir o seu riso aberto de criança que retira uma bela e enorme boneca após desembrulhar uma caixa, o gracioso saltinho dado pelo seu corpo movido pela emoção, o brilho colorido da sua voz ao dizer, de um modo bem audível «Ai que giro!» Tudo por causa da palavra «demarcação». Pelo menos para mim, a alma humana será sempre um mistério por resolver.