16 março, 2017

O COMUNISTA DO 2º ESQUERDO E O NEO-NAZI DO 3ºDIREITO


[sobre a fotografia, ver aqui]

Há pessoas que precisam de algum tempo para finalmente perceberem que têm um problema, seja com o álcool, a droga, o Tony Carreira ou o jogo. Eu há muito que percebi ter um problema com o nazismo, uma obsessão que me persegue sem me largar, não só o original mas também as suas modernas variantes, assim como a razão para os seus populares sucessos. Nas aulas, sempre que preciso de falar na expressão política do Mal é o nazismo que vem à baila e como exemplos de figuras maléficas são sempre homens como Hitler, Himmler, Goebbels ou Mengele que me ocorre apresentar.

A minha questão agora é a seguinte: porquê o nazismo e suas ilustres figuras, e nunca o comunismo? Por que razão nunca me lembro do comunismo? Sim, porquê? O comunismo fez mais vítimas do que o nazismo. O comunismo continuou a oprimir milhões de pessoas e a fazer milhões de vítimas já depois do nazismo ter sido enterrado, primeiro em Berlim e depois em Nuremberga. A ideologia comunista e seus derivados continua ainda a fazer as suas vítimas em países absurdos. A história do comunismo é protagonizada por figuras tão ou ainda mais sinistras e pérfidas do que as nazis. Enfim, eu próprio, numa idade e época em que a tentação seria grande e na qual tanta gente, hoje de direita, caiu, fui sempre imune a tal ideologia. Um dia, em plena adolescência, perante uma ficha de inscrição no partido posta à minha frente por um amigo, senti ser essa possibilidade tão tonta como a de me tornar Testemunha de Jeová ou sócio do Sporting. Creio, por isso, fazer todo o sentido responder à pergunta.

Os males realizados em nome de ambas não são meramente contingentes, resultantes de uma má interpretação e desvios de uma ideologia que foi adulterada e que, por isso, não deveria ser responsabilizada pelas suas perversões. Não, esses males estão geneticamente inscritos na própria ideologia, sendo uma consequência natural e previsível daquela. Mas uma coisa é a ideologia, outra o modo como é recebida pelas pessoas e os motivos da sua adesão. É neste aspecto que nazismo e comunismo divergem profundamente.

Ser comunista, acreditar no comunismo, não levanta o problema do mal nem nos remete para o lado mais obscuro e primitivo do ser humano. Ser comunista é apenas uma questão de estupidez. Como é possível ser comunista depois de o comunismo estar morto e enterrado, de se provar empiricamente que aquilo não prestava, sendo apenas um casmurro e tresloucado desvario que durou somente umas décadas mas deixando um currículo de milhões de mortos, brutal opressão, pobreza? Quem consegue hoje pensar na Roménia, na Albânia, na Bulgária, na RDA sem pensar numa exótica ideologia e prática que atrasou as vidas de milhões de pessoas inocentes? Se um comunista consegue é por ser estúpido. Porém, não sendo a estupidez a coisa mais exaltante do mundo, é uma das mais naturais e comuns no ser humano. Eu próprio, apesar de nunca ter caído na estupidez de ser comunista, sou bastante dado à estupidez, mas isso não me faz chegar ao espelho e ver uma pessoa pouco recomendável. Sou estúpido mas dentro dos limites do razoável, considerando a natureza imperfeita do ser humano. O mesmo acontece com um comunista: pode ser estúpido mas isso está longe de poder manchar a sua identidade. Eu nunca casei com uma comunista mas imagino-me perfeitamente a fazê-lo. Ou a ter filhos comunistas, sogros comunistas e cunhados comunistas. O mais que poderia acontecer seriam umas animadas discussões em jantares de família. O que leva muita gente a ser comunista é precisamente o que há de melhor e mais belo no ser humano. Portanto, se eu tiver um vizinho comunista, um colega comunista ou um amigo comunista, sei que a sua estupidez não lhes afecta o carácter, nem o seu valor pessoal e social. E sei ainda que a sua estupidez, junta com a estupidez de tantos outros comunistas, não constitui uma ameaça para a sociedade, uma vez que o comunismo deixou também há muito de o ser, uma demonstração de bom senso numa humanidade tão dada à falta dele.

Já com o nazismo será diferente. Eu seria incapaz de casar com uma neo-nazi. Detestaria ter filhos neo-nazis e não me imagino amigo de neo-nazis. E se tivesse vizinhos ou colegas neo-nazis a minha relação com eles seria de distância e desconfiança. Tal aconteceria uma vez que ser nazi não se trata de uma questão de estupidez. Trata-se antes de mobilizar no ser humano as forças mais obscuras da sua natureza, uma energia disruptiva suportada por valores e argumentos que, passados à prática, ameaçam a paz, o equilíbrio social e a decência humana. Mesmo uma pessoa que não é assumidamente neo-nazi, antes uma pessoa normal, com uma vida normal, assim como o vizinho a quem vamos bater à porta para pedir um raminho de salsa e que no-la dá simpaticamente sem o ar de quem tem vontade de nos mandar para a câmara de gás, pode ser infectada por essa energia, tornando-se potencialmente perigosa em circunstâncias que favoreçam a sua irrupção no palco social e político. Faz algum sentido pensar nos alemães dos anos 30 como um povo sádico e criminoso, apoiando um bando de inteligentes e eficazes psicopatas? Nada disso. A esmagadora maioria foi manipulada, explorando-se as suas fraquezas, abrindo feridas que nos fazem agir como animais que lutam pela sobrevivência. Uma ferida que eu diria antropológica, sempre em vias de ser aberta, a infectar e a fazer estragos na saúde social de um país. Ontem, a Alemanha e a Itália, amanhã, quem sabe, a Suécia, a França (que terá as suas manchas nos anos 40 do século passado), a Áustria, a Holanda, a Polónia ou a Hungria. Nunca nos devemos, por isso, distrair. Eu tento fazer a minha parte.