05 março, 2017

PUREZA E PERIGO

Jacob Riis | Bandit's Roost, NY, antes de 1890

«A protecção contra a tirania da magistratura não chega: também é necessária protecção contra a tirania da opinião e do sentimento dominantes; contra a tendência da sociedade para impor, por outros meios que não as punições civis, as suas próprias ideias e práticas como regras de conduta àqueles que não as seguem, e para restringir o desenvolvimento -e, se possível, impedir a formação- de qualquer individualidade que não esteja em harmonia com os seus costumes, e para forçar todas as personalidades a modelarem-se à imagem da sociedade». John Stuart Mill, Sobre a Liberdade.


Toda a gente sabe das chatices pelas quais Flaubert teve de passar por causa da Bovary, essa pute que lhe haveria de sobreviver, como lamentou ele no leito de morte. Eu resolvi ir mais longe e ler o discurso acusatório de Ernest Pinard, o advogado imperial em representação do Ministério Público. O problema, diz ele, não são só as ofensas à religião e à moral pública. O problema é mesmo o próprio romance. Ter Flaubert, esse perigoso naturalista, pensado no romance, escrito o romance e, a fortiori, supremo sacrilégio, publicado o romance, afrontando os olhos sensíveis e imaculados de vulneráveis leitores e, sobretudo, leitoras. Para Pinard, mais grave que a própria queda de Bovary é o autor ter revelado a «poesia do adultério», sugerir a mera possibilidade do adultério, mesmo sabendo nós que o destino de Ema nada teve que ver com os seus sonhos de jovem provinciana arrebatada com os encantos de um amor apimentado com o brilho dos candelabros da grande urbe e da joie de vivre. O adultério existia? Sim, uma inevitabilidade social como a da queda dos graves na Física. Mas jamais invocá-lo, agredir as imaculadas consciências, fazendo-lhes lembrar a sua existência, não vão as palavras roubar às almas a cândida e segura inconsciência de quem deseja viver num mundo sem dialéctica negação.

Hoje, temos as sensíveis redes sociais para substituir o imperial tribunal do século XIX, sempre vigilantes e reactivas ante tudo o que mexa. Ao contrário delas, a última coisa que me interessa é o que pensa ou deixa de pensar o cantor João Braga. Quero lá, pois, saber se o homem é racista ou homofóbico. Sei, isso sim, que há coisas que são estúpidas mas não repugnantes, coisas repugnantes que não são estúpidas, mas que tanto o racismo como a homofobia são estúpidos e repugnantes. Porém, quem é racista ou homofóbico, tem todo o direito a sê-lo e a manifestar os seus sentimentos e crenças, desde que as suas palavras sejam apenas a expressão de uma opinião, nunca um incentivo para comportamentos violentos. E se uma pessoa, seja ou não racista ou homofóbica, acredita que, actualmente, em certos meios, ser preto ou gay, pode ser uma vantagem, tem todo o direito a acreditar nisso e a assumir publicamente que acredita nisso, independentemente de ter ou não razão. Do mesmo modo, se uma organização católica espanhola acredita ser a transexualidade contra-natura tem todo o direito a acreditar nisso e a manifestá-lo publicamente num autocarro pelas ruas de Madrid em vez de ser proibida por um juiz.

Crenças sobre questões raciais ou sexuais não são arbitrárias como as do mero gosto. Enquanto as primeiras podem ser verdadeiras ou falsas, as segundas são explicadas pelos caprichos da mais pura subjectividade. Não é mais verdadeiro ou falso uma pessoa gostar mais de pastéis de nata do que outra de bolos de arroz, ou vice-versa; ou gostar mais de Bach do que dos fados de João Braga, ou vice-versa. Mas é impossível tanto dizer que há raças superiores e inferiores como dizer que não há raças superiores e inferiores, desprezando a verdade ou falsidade como critério de avaliação desses juízos.O mesmo se passa em relação à homossexualidade: tanto dizer que é algo normal como uma aberração da natureza, aceitando a legitimidade epistémica de ambos. Em ambos os casos a verdade existe e importa, e onde uns terão razão os outros deixarão naturalmente de a ter. Ou como será ainda verdadeiro ou falso dizer que comer pastéis de nata é mais ou menos saudável do que bolos de arroz (Nutricionismo dixit), ou verdadeiras ou falsas descrições sobre a música de Bach ou os fados e guitarradas de João Braga (Musicologia dixit).

Porém, todos nós temos direito às nossas crenças, independentemente de serem verdadeiras ou falsas e obrigar uma pessoa a calá-as ou renunciá-las significa interferir no que há de mais íntimo, privado, livre, na sua consciência, sabendo-se mesmo que muitas das nossas crenças são falsas. No século XVII, o filósofo John Locke, num texto epistolar sobre a liberdade religiosa, dizia não fazer sentido obrigar uma pessoa a desejar e conseguir acreditar num Deus no qual não deseja nem consegue acreditar mas no qual outros desejam e conseguem acreditar, em detrimento de um Deus no qual deseja e consegue acreditar mas outros não acreditam nem o desejam. Ora, o mesmo se passa com o cantor João Braga. Neste caso não se trata de se ser católico ou protestante mas em poder ser racista e homofóbico porque acredita em certas ideias e sente em função delas (eu diria antes que terá as suas ideias porque sente certas coisas mas isso é outra conversa), ou acreditar que ser preto ou homossexual é vantajoso em certos meios. Esta crença está no mesmo padrão da muito comum crença de que os políticos são todos uns oportunistas, que o presidente do Sporting é psicopata ou que os jornais desportivos apresentam um nível intelectual adequado a cérebros reptilianos. Não importa aqui discutir a maior verdade ou falsidade destas crenças. Cada uma vale o que vale. Importa, sim, perceber que, na forma, estão no mesmo plano da crença de João Braga, a qual, por isso, tal como as outras, tem todo o direito de se manifestar. As modernas redes sociais, tal como a mais puritana sociedade francesa do século XIX, bem gostariam de viver num mundo sem mácula nem contradição, o qual nunca existiu nem existirá. Deveriam aprender, de uma vez por todas, a aceitá-lo, sem  a reacção de uma virgem cuja honra foi difamada. Diz o povo, com a sua elegante e poética sabedoria, que há quem emprenhe pelos ouvidos. Touché, pobre Gustavo.