20 março, 2017

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA?



Por favor, desça um bocadinho a página até à fotografia mais abaixo. As duas senhoras que lá viu com ar de boas amigas são duas das pessoas que surgem na foto de cima, 40 anos antes: Elizabeth Eckford, a rapariga preta que surge em primeiro plano e Hazel Bryan, que vem logo atrás de si, esganiçada, a insultá-la, num dia em que nove pretos iriam pela primeira vez estudar numa escola reservada a brancos (toda a história, aqui).

Há uma passagem de Sobre a Liberdade, em que John Stuart Mill diz não ter valor um comportamento individual que se baseie nos costumes das outras pessoas, ainda que se tratem de bons costumes, pois quem faz uma coisa só porque os outros também a fazem, não chega a fazer uma verdadeira escolha à qual se possa reconhecer mérito pessoal. Diz ele, com a língua bem afiada, que tal pessoa precisa apenas de uma "faculdade simiesca da imitação". Muito antes dele, dizia Kant não ter valor moral o comportamento de uma mãe que trata bem do seu filho ou de alguém que goste de ajudar um amigo. São comportamentos socialmente desejáveis mas enquanto resultado de desejos e sentimentos espontâneos, não de uma orientação racional do indivíduo para fazer o bem quando teria condições para fazer o mal ou praticar uma acção moralmente neutra.

Fico por isso sem grande vontade de me comover com a fotografia lá de baixo, visto não saber o que está na base da conversão de Hazel Bryan; o reconhecimento de um erro passado graças a uma verdadeira conversão da sua consciência moral, ou apenas porque, em 1997, por força da mudança de costumes, já não faria sentido pensar o mesmo de há 40 anos. Ora, partindo das palavras do filósofo vitoriano, podemos pensar que Hazel Bryan é tão estúpida em não ser racista em 1997, como tê-lo sido em 1957. A estupidez é a incapacidade de perceber o que está mesmo à frente dos nossos olhos porque preferimos abdicar de pensar, depositando a nossa inteligência nas mãos de um conjunto de quadros mentais que aceitamos como verdadeiros e moralmente desejáveis, sem perdermos um minuto da nossa vida a pensar se o são e por que o são, ainda que o sejam. Hazel Bryan, em 1957, grita, insulta, ameaça Elizabeth de linchamento, porque acredita que não deveria esta entrar numa escola de brancos, crença e convicção tão forte como, em 1997, acreditar que já não faz sentido haver escolas para brancos e escolas para pretos (Dizendo o mesmo que Kant em relação à mãe que cuida bem do seu filho, ainda bem que assim é).

A crença em algo de falso e moralmente mau e que leva a comportamentos afins, como se vê na foto de cima, é estúpida e repugnante. O mesmo não acontece com uma crença verdadeira e moralmente boa mas só no que diz respeito à repugnância, pois já em relação à estupidez a questão é mais delicada. Ser estúpido é não se conseguir acreditar no que é bom e verdadeiro porque a tradição e o costume acreditam ser mau ou falso, mas também acreditar no que é bom e verdadeiro só porque a tradição e o costume assim o consideram. A estupidez, neste sentido, não escolhe classes sociais, habilitações literárias ou mesmo níveis de inteligência. Há gente culta, socialmente distinta e até inteligente que padece de uma confrangedora estupidez. Como há pessoas humildes e analfabetas que podem ser admiravelmente sensatas e racionais no modo como as suas crenças antecipam as que só chegarão mais tarde com um atraso que pode ser de décadas ou séculos, graças à mudança dos quadros mentais.

A estupidez não é uma fatalidade mesmo quando é social e politicamente promovida. No dia em que Elizabeth entrou no liceu sob uma chuva de gritos, insultos e ameaças, um repórter que ali se encontrava reconfortou-a. Uma mulher protegeu-a e ajudou-a a entrar no liceu. Também no tempo em que era normal a escravatura ou o massacre de índios, houve quem denunciasse tamanha indignidade. No tempo em que era normal matar pessoas só por serem de uma religião diferente, houve quem escrevesse contra isso. Ainda há dias, em Castanheira de Pêra, uma velhota de 84 anos dizia "É uma pouca vergonha. O rapaz fez mal a alguém? Tem a vida dele e qualquer um é livre", a respeito do rapaz discriminado na igreja por ser gay. Não é especialmente difícil não ser estúpido. Basta tentar perceber as coisas como elas são e lutar contra a estupidez que ameaça cada um de nós como uma sombra. E se descobrirmos que estamos a ser estúpidos, perceber que isso, sim, é um grito e insulto atirados para dentro de nós próprios e que nos deveria fazer corar de vergonha.