29 abril, 2017

ACHADOS SEM PERDIDOS

Adelino Lyon de Castro | Sem Destino


É muito curioso o uso do verbo "perder" para referir, por exemplo, um filme que não se viu ou outra coisa qualquer considerada um bem, com valor, e que nos passou ao lado, por não conhecermos ou por falta de oportunidade para a ver. Mas será que, na verdade, se perde mesmo alguma coisa? Não, pois só se perde aquilo que se tem, nunca o que nunca se teve. Perde-se, sim, a carteira, um bilhete de autocarro que se comprou ou até um filho num centro comercial. Também uma pessoa que cegou perdeu a visão assim como as coisas que a visão lhe permitia ver. Mas não é correcto afirmar que se perdeu um filme que nunca se viu ou aquilo que nunca se teve.

Dir-se-á que a ideia de perder não é bem essa. Que "perder", neste caso, é perder a oportunidade de ver uma coisa que ganharíamos em ter visto. Não é factual, como no caso do livro ou da carteira, mas normativa: a pessoa não perdeu uma coisa que viu mas uma coisa que deveria ter visto. Ora, é neste sentido que dirão que se pode perder um filme: o filme que não podemos não ver, uma vez que não o ver tem a mesma carga negativa de perder um bem que se teve. Ainda assim, não me sinto convencido. E se os pais do realizador do melhor filme de 2016 não se tivessem conhecido? E mesmo tendo-se conhecido, dando origem à pessoa que realizou o melhor filme de 2016, mas tivesse este sido pintor, escultor ou apenas actor? E se mesmo como realizador não tivesse convencido o produtor a entrar com dinheiro para o filme? Ou se tivesse pensado noutro projecto qualquer? Neste sentido que há milhões de coisas que nunca chegaram a existir por não chegar sequer a existir as pessoas que poderiam tê-las criado. Ou porque tendo existido as pessoas, criaram outras, as que conhecemos, em vez dessas que poderiam ter sido mas acabaram por nunca chegar a ser. E será que Fritz Lang, Billy Wilder, François Truffaut ou Ingmar alguma vez sentiram a falta do melhor filme de 2016? É verdade que morreram muito antes de 2016 e, mortos, não podem sentir a falta do que quer que seja. Mas falo do tempo em que estavam vivos, do mesmo modo que, estando eu vivo agora, não sinto qualquer falta dos filmes que irão ser feitos em 2018 ou em 2026, no caso de ainda estar vivo na altura.

Nós vivemos num labirinto feito de milhões de salas por onde vamos circulando, das quais, porque somos finitos, só iremos conhecer algumas. O que existe em cada uma delas é contingente e, muitas vezes, a realidade de uma sala onde por acaso entrámos é completamente distinta da realidade de uma sala onde por acaso não entrámos. Não há uma lógica, uma racionalidade, uma organização prévia no labirinto. O caos sobrepõe-se à ordem, a contingência à necessidade, a indeterminação à previsibilidade. O que vamos fazendo ou deixando de fazer é puramente arbitrário e nada é mais importante do que nada. Daqui a 50 anos irão certamente ser escritos grandes livros que as pessoas da minha idade nunca chegarão a ler, não sentindo agora a sua falta, do mesmo modo que Eça nunca sentiu a falta do cinema francês ou Camilo a falta da música de Bela Bartok. Importante, sim, é fazer alguma coisa, fazendo do que fazemos o que é verdadeiramente importante. Tudo o resto faz parte de outras salas nas quais passarão muitos outros que não passarão nas nossas. Se, por qualquer acaso, ainda vier a ver o melhor filme de 2016, poderei ter razões para dizer que o ganhei. Se, por qualquer acaso também, não vier mesmo a vê-lo, jamais irei sentir que o perdi.