25 abril, 2017

NUNCA, SEMPRE OU ÀS VEZES

Gérard Castello Lopes | Portugal,1987

Lembro-me bem do tempo em que se discutia bastante se teria ou não valido a pena o 25 de Abril. O cómico da discussão, vista com os nossos olhos de hoje, é o seu carácter normativo, isto é, avaliar, não o que "é" mas o que "deve ser". Hoje, sabemos ter-se tratado de uma discussão inútil e disparatada. E sabemos, porque a história, tal como a natureza, é uma grande mestra. Ninguém imagina uma discussão para avaliar as leis da natureza, por exemplo, uns, dizendo que o Verão deveria ser antes que a Primavera, outros, defendendo que assim como está é que está bem, primeiro a Primavera e só depois o Verão. Ora, a discussão à volta do 25 de Abril era da mesma natureza, só que demasiado cedo para o percebermos.

O 25 de Abril não foi uma coisa que fizemos mas uma coisa que nos aconteceu. Nem sequer foram os capitães que o fizeram, mas a própria história. E uma coisa que aconteceu porque tinha de acontecer. Não se tratou de uma coisa contingente como Mota Pinto ter sido Primeiro-Ministro e Magalhães Mota não o ser ou Melo Antunes ter sido ministro dos Negócios Estrangeiros e Rosa Coutinho não o ser, mas uma coisa necessária, uma coisa que não poderia não acontecer. Porquê? Porque a história não permitiria que Portugal continuasse a ter, na Europa dos anos 70, 80 ou 90, um regime como aquele, assim como uma guerra colonial, completamente desfasada do Zeitgeist. O dia, esse sim, é que poderia ter sido diferente, e em vez de 25 de Abril de 1974 ter sido  a 29 de Junho de 1975 ou, vá, a 14 de Fevereiro de 1976. 

É verdade que história não tem leis como as da natureza. O 25 de Abril não é assim uma coisa como a lei da gravidade ou a fotossíntese mas também não anda muito longe disso. Há, na história, coisas que são impossíveis de acontecer, outras que acontecem mas poderiam não acontecer ou que não aconteceram mas poderiam ter acontecido e, finalmente, outras que teriam mesmo que acontecer. Por exemplo, seria impossível na Idade Média uma revolução comunista como a de Outubro de 1917, tão impossível como Giotto pintar como Picasso ou Hildegard von Bingen compor como Stravinsky. Não aconteceu, mas teria sido possível, embora necessariamente efémero, um regime comunista em Portugal, se Mário Soares tivesse perdido a sua batalha em 1975 e Kissinger o quisesse. Mas já seria impossível um regime comunista em Portugal depois da queda do Muro de Berlim. Tão impossível de acontecer como necessário de acontecer foi o 25 de Abril.

Nós não passamos de marionetas comandadas por forças que não dominamos nem dependem de nós, fios que nos obrigam a fazer certos movimentos e a impedir outros. Claro que marionetas conscientes do que estão a fazer, voluntariosas e cheias de objectivos pelos quais lutamos, assim também mais ou menos como uma pedra que cai, pensando que cai porque quer e porque é esse o seu objectivo. Há coisas que fazemos ou não fazemos, não porque queremos ou não fazer, mas porque somos obrigados a fazer ou impedidos de as fazer. E o 25 de Abril foi um desses momentos necessários da história cujas marionetas foram os capitães de Abril. Daí que, mais do querermos, devermos mesmo dizer "25 de Abril, sempre!", sejamos nós da esquerda mais romântica, da direita mais reaccionária ou tão indiferentes como um índio da Amazónia. "Sempre" porque "necessário". Um "sempre" ontológico e não um "sempre" psicológico ou ideológico. Daí não valer a pena gritar (pedir) que seja 25 de Abril sempre, como ainda fazem alguns. Porque será sempre 25 de Abril como há outras coisas que nunca chegaram ou chegarão a ser, felizmente nalguns casos, infelizmente noutros. Com o 25 de Abril não faz sentido dizer que, felizmente, aconteceu. O que podemos dizer, isso sim, é não ter, infelizmente, acontecido mais cedo.