30 abril, 2017

OS PARALELEPÍPEDOS



Sinceramente, não vejo grande surpresa na resistência de Jean-Luc Mélenchon em indicar o seu sentido de voto a Macron, podendo com isso dar o seu pessoal e político contributo para derrotar uma candidata de extrema-direita, nacionalista e xenófoba. Para ajudar a entender a sua posição, irei recuar no tempo, até à Exposição Universal de Paris, de 1937, para me deter nos pavilhões da Alemanha e da URSS. Calma. Sei que não sou imune a desvarios mas não irei desvairar ao ponto de considerar Mélenchon um inveterado bolchevista e de projectar uma ditadura do proletariado em França, nem olhar para Marine como uma nazi clássica, suspirando por um Reich francês e divertindo-se a imaginar refugiados e emigrantes em vagões da SNCF rumo a câmaras de gás em Lille.

Eu só quero mesmo ficar-me pelos pavilhões como reflexo arquitectónico da visão do mundo e estrutura mental dos dois candidatos. Estes dois volumes em forma de paralelepípedo mostram ao mesmo tempo uma hierática e mesopotâmica solidez e verticalidade assim como uma simplicidade linear da qual estão ausentes quaisquer subtilezas decorativas. Surgem ali, na Paris dos anos 30, bem perto de outros pavilhões, como dois falos bem erectos para furar o mundo e engravidá-lo com a sua força e ambição. Não interessa se o mundo o deseja ou não ou se está preparado para engravidar deles. Mas que importância tem a vontade do mundo perante a objectiva racionalidade e o superior ideal daqueles projectos? Mélenchon não será bolchevista nem Le Pen nazi. Mas tanto às 4 da tarde, bem acordados, como sobretudo às 4 da manhã, mergulhados nos seus sonhos, nutrem ambos uma aversão pela democracia liberal, a democracia "dos interesses", revelando uma dificuldade óbvia em aceitar os seus limites, as suas contradições, o seu pluralismo, as cedências que todos terão de fazer para que partes opostas possam viver de acordo com o princípio da realidade, isto é, mais como um jardineiro que, de tesoura na mão, sabe bem como tornar o jardim razoavelmente habitável, do que como um botânico no seu escritório vivendo de teorias e de princípios.

No interior daqueles dois paralelepípedos, geometricamente perfeitos, é possível anular todas as contradições do mundo real como as que opõem liberdade e igualdade ou liberdade individual e interesses colectivos. É simples. Já Platão o havia feito na sua República, Rousseau com a sua Vontade Geral, Hegel com o seu Estado prussiano, indo esta tradição desaguar nos já bem recentes comunismos e fascismos do século XX. Basta confundir os interesses do indivíduo com os interesses do Estado ou do povo. Quanto mais forte e autêntica for a corrente mais fortes serão os seus elos, quantos mais presos os elos estiverem à corrente mais esta se fortalecerá para fortalecer ainda mais os seus elos. Não, não estou a imaginar Mélenchon ou Le Pen a projectar nos Campos Elísios aquelas ordenadas e espartanas massas humanas de Nuremberga ou Moscovo, perante os olhares triunfais de uma Führer de saltos altos ou de um Czar vermelho com casaco trotskista. Mas não me custa nada perceber a sua dificuldade em olhar para uma França, e quem diz a França diz outro país qualquer, sem atender à imperfeição do que é contingente, único, efémero, irrepetível, relativo, do "fluxo e refluxo das diferenças que fazem cada momento" (Isaiah Berlin), dos interesses de cada grupo social ou de cada indivíduo, em suma, a textura de que é feita a própria realidade, em vez de um projecto social e político sem espinhas.

Falta a Mélenchon e a Le Pen, o sentido da realidade enquanto critério de governabilidade, uma imaginação criativa que permite abrir o corpo do doente para que, mesmo sem o curar, possa viver com alguma qualidade e dignidade. Para isso é necessário ter mãos delicadas, paciência, estar mais preocupado em gerir, com sensatez, prós e contras, em vez de atirar o bisturi ao chão para deixar morrer o doente na esperança de o conseguir ressuscitar bem mais firme e hirto, graças a uns pozinhos demagógicos e populistas, enfiados pelo nariz adentro. Mélenchon e Le Pen podem odiar-se e verem-se como rivais mas são feitos da mesma massa, falam a mesma linguagem, vivem dos mesmos sonhos, rejeitam as mesmas chatices e imperfeições que os outros políticos, também eles sumamente imperfeitos e comendo um prato que nem é carne nem peixe, têm para gerir de segunda a sexta-feira. Mélenchon presumirá que Le Pen não irá ser presidente mas, fosse-o ela, e sentir-se-ia a viver no seu próprio mundo, num feliz regresso ao preto e branco do século XX, onde o velho Mani fez um enorme sucesso mas onde acabou por ser o centro a vencer, o mesmo centro que, com as suas imperfeições e erros, fez a União Europeia ou a moeda única. Uma vitória de Le Pen seria por isso, também, uma vitória de Mélenchon, a vitória de dois mundos ressuscitados, dois mundos feitos da mesopotâmica rigidez de dois sólidos paralelepípedos, bem mais sólidos do que o frágil e transparente vidro de que são feitos os modernos edifícios de Bruxelas e de outros capitais europeias mas nos quais grande parte da humanidade gostaria de poder viver e trabalhar.