06 maio, 2017

FORA DE JOGO

Alfred Eisenstaedt

Acontece comigo e creio que acontecerá com a maioria das pessoas. Se estiver perante uma televisão com 500 canais e, por mero acaso, for parar a um jogo de futebol entre os 9º e 14º classificados do campeonato búlgaro, ou a um jogo de andebol entre duas equipas finlandesas de juvenis, irei considerar que não têm interesse absolutamente nenhum e mudo de canal ou desligo a televisão. Mas se por qualquer razão resolver continuar a ver qualquer um desses jogos, não serei capaz de o ver sem tomar partido por uma das equipas. Ao fim de dois minutos já estou a torcer pela minha equipa preferida, da qual nunca tinha sequer ouvido falar. Qual o critério? Podem ser muitos: gostar mais da cor da camisola, ter um nome mais simpático, achar o treinador com um ar simpático, ao contrário do do outro, com ar arrogante e cuja cara me faz lembrar um colega de trabalho que detesto, estar atrás na classificação e eu gostar de tomar partido pelos mais fracos. Enfim, a lista poderia continuar.

Há equipas portuguesas e estrangeiras cujas vitórias me põem contente e desiludido se perderem. Tal pode acontecer só porque calhou ter um dia passado numa cidade da qual gostei e onde fui muito bem tratado num restaurante. Eu gosto do Hannover 96 e do Werder Bremen porque tenho boas recordações de juventude dessas cidades. Não gosto do Bayern de Munique porque sempre me relacionei com alemães do norte, habituando-me a olhar para os do sul com um certo protestante e prussiano desdém. Eu gosto da selecção da Costa do Marfim só porque já lá tive família, recebi postais do país para a minha colecção, habituando-me a uma certa familiaridade com o nome "Côte d'Ivoire", ajudado talvez pelo facto de eu também me chamar "Costa". Desde que conheci um tipo do Mali que era uma jóia e simpatia de pessoa, que passei a olhar para o país de outro modo. Se o Mali jogar contra o Gana, a Zâmbia ou o Egipto, a minha escolha não irá ser difícil. Mas nem é preciso tal acontecer. Eu não tenho qualquer ligação à Holanda, Argentina, Uruguai, Suécia ou Argélia. Mas se houver jogos entre as suas selecções, irei sempre preferir umas a outras, vá-se lá saber no momento porquê. Quando era novo, num Holanda-Argentina torcia pela Holanda, hoje torcerei pela Argentina. Os países são os mesmos, tal como Benfica ou o Porto serão sempre os mesmos, independentemente das mudanças casuais que neles poderão ocorrer, para melhor ou pior.

Agora, o que se passa com isto é também muitas vezes o que se passa com as preferências políticas de grande parte das pessoas. Há pessoas politizadas e com uma consciência social e política consistente, sabendo bem porque preferem o partido ou candidato A em vez do partido ou candidato B. Porém, muito provavelmente não é isso que acontecerá com a maior parte das pessoas. Acontecerá com elas o mesmo que a mim quando vou parar a um canal onde passa um jogo entre os 9º e 14º classificados do campeonato húngaro: ou não querem saber e desligam, ou então tomarão partido pelos mais espúrios e elementares motivos.