24 julho, 2017

AVENIDA 24 DE JULHO



Não deixa de ser uma ironia toponímica o facto de haver em Lisboa uma avenida 24 de Julho, em vez de uma rua 24 de Julho ou uma praça 24 de Julho. Se no dia 24 de Julho as tropas liberais fossem derrotadas ou se a própria guerra civil tivesse o desfecho oposto, Portugal seria, hoje, um país diferente? Um país absolutista, ultramontano, com trejeitos Austro-Húngaros tendo D. Miguel como patrono da pátria, qual Atatürk lusitano? Não. Portugal seria exactamente como é. Vamos mesmo mais longe e espreitar o século XIX para vermos, naquele tempo, os actuais países europeus, alguns deles nem sequer existindo: realidades políticas e constitucionais completamente diferentes. Hoje, porém, estão quase todos no mesmo barco e, à excepção da Economia, que é outra conversa, e apesar de alguns devaneios autoritários como na Hungria ou na Polónia, e mesmo com todos os distintos sortilégios por que passaram ao longo de cento e cinquenta anos, temos uma democracia liberal como casa comum onde todos vivem, se bem que uns melhor do que outros. Sem dúvida que a história está cheia de ruas, travessas, praças ou até becos obscuros onde muita coisa importante acontece, sendo alguns de tal modo obscuros que não poderá vir nos manuais o que por lá aconteceu. Mas, depois, há alturas em que tudo isso vai dar a uma mesma e larga avenida por onde todos os carros circulam, sabendo-se de onde vêm e para aonde vão. Embora, claro, como toda e qualquer verdadeira avenida, tenha também o seu fim.