14 julho, 2017

DIÁLOGOS DE SURDOS


A capa de hoje do DN traz um título de notícia engraçado apesar de falso. Ou melhor, engraçado por ser falso pois se fosse verdadeiro não teria graça nenhuma, até porque se trata de uma notícia triste. Diz então o DN que "Notas de Química e Física põem em risco candidaturas a Engenharia". Para quem não está bem dentro do assunto, lê a notícia e pensa que se trata das notas de duas disciplinas: Química e Física. Ora bem, essas duas disciplinas existem, mas no 12º ano e não têm exame nacional. Onde há exame nacional é em "Física e Química", uma única disciplina, no 11ºano. Ora, isto faz uma certa confusão, a qual fez estragos também aqui.

Quando dantes se dizia "Ter uma aula de Físico-Química" ou "Fazer teste a "Físico-Química", sabia-se que se tratava de uma só disciplina. Porém, ao substituir-se o hífen pela conjunção copulativa "e", dando lugar à actual disciplina de "Física e Química", começam os problemas. Imaginemos um aluno que tem as duas disciplinas no 12º ano e diz "Hoje é 2ª feira e vou ter Física e Química" e imaginemos outro aluno que está no 11º ano e diz "Hoje é 2ª feira e vou ter Física e Química". Ora, dizer  "Hoje é  2ª feira e vou ter Física e Química" é simplesmente dizer  "Hoje é  2ª feira e vou ter Física e Química". Acontece que  o primeiro irá ter nesse dia duas disciplinas, "Química" e "Física", enquanto o segundo vai ter uma só disciplina "Física e Química". Depois não é só isso. Dizer "Jorge Jesus e Rui Vitória são dois treinadores" não é diferente de "Rui Vitória e Jorge Jesus são dois treinadores", havendo liberdade para invocar os nomes pela ordem que quisermos, tal como na sequência "Estocolmo, Londres, Atenas e Madrid são capitais europeias", uma vez que se trata de uma sequência de nomes puramente descritiva cuja ordem é aleatória. Acontece que dizer "Química e Física" não tem o mesmo sentido de "Física e Química" pois já não se trata de uma sequência descritiva de dois nomes mas a expressão verbal de um conceito, o conceito de "Física e Química", que é diferente do conceito de "Física" e do conceito de "Química", apesar de ser construído a partir destes dois. No 12º ano, sim, o aluno, olhando para o horário no domingo à noite, tanto pode dizer "Amanhã vou ter Física e Química", como dizer "Amanhã vou ter Química e Física". Mas quem não sabe que a disciplina de 11º ano se chama "Física e Química" ao ler o título que refere as disciplinas de Química e Física irá reforçar a ideia de que se trata de duas disciplinas em vez de uma.

Nesta altura do ano e com cerca de 40ºC a ameaçarem derreter o que resta da minha já escassa vida mental, a última coisa que me apetece é pensar em escola e afins, excepto os cafés que ficam em frente dela e onde se podem beber umas imperais com uns tremoços para precisamente hidratar um pouco o cérebro e dar-lhe algumas esperanças. Quem conseguiu chegar até aqui vai considerar que, dito isto, a minha vida mental já nem no domínio da escassez se encontra uma vez que outra coisa não fiz senão falar de escola. Pois, mas isso foi só para agora aqui chegar. Isto que acontece com o simples nome de uma disciplina de 11ºano é parecido com o que pode acontecer na nossa vida mental quando nos pomos a usar, juntar, separar, relacionar, hierarquizar conceitos, sobretudo aqueles cujo grau de abstracção é mais complexo. Falar por exemplo de liberdade, justiça, igualdade, amor, felicidade e tantos outros, permite estabelecer relações entre eles de maneira a sermos conduzidos a um caos sintáctico e semântico do qual dificilmente saímos, sem que as pessoas disso se apercebam. Pensemos num diálogo entre duas pessoas onde surgirão equívocos por causa do que expus anteriormente. E estamos a falar de uma simples disciplina de 11ºano e de duas de 12ºano. Se levarmos a mesma situação para o campo político, ideológico, religioso ou até pessoal, os equívocos serão ainda maiores pois nem sequer existe um referente empírico (por exemplo, consultar a ficha do aluno ou o plano de estudos do Ensino Secundário) para poder ultrapassar objectivamente o equívoco. Por isso muitos dos nossos diálogos são, e serão sempre, diálogos de surdos para os quais não há, nem creio que venha a haver, aparelhos auditivos para os poder resolver.