11 julho, 2017

HO FATTO PENSIERI CON CONTROL

Eileen Cowin

«Existe uma espécie de cepticismo, antecedente a todo o estudo e filosofia, que é muito inculcada por Descartes e outros, como preservativo soberano contra o erro e o juízo precipitado». David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Secção XII


Gosto bastante desta tese empirista e céptica que associa o uso do preservativo ao pensamento. Um preservativo mental não impede o pensamento nem o prazer de pensar enquanto exercício, mais leve ou intenso conforme os níveis de testosterona mental. Sabendo nós quão perigosas podem ser as ideias, todo o cuidado é pouco. O poeta Heinrich Heine, o tal que disse que quem começa por queimar livros acaba por vir mais tarde a queimar pessoas, também dizia que as páginas escritas no gabinete de um solitário escritor, podem, a jusante, vir a provocar muitos estragos. Daí o inestimável benefício de pensar com preservativo. Não havendo total certeza sobre as possíveis consequências dos pensamentos, evita-se assim a acéfala gravidez de milhares ou milhões de cabeças com infectas ideias que, um dia, já mais crescidas, só virão a trazer mais problemas.

O que pode então significar pensar com preservativo? Significa: "Ok, leiam-me mas não me levem demasiado a sério tal como eu também não me levo, riam-se do que é risível no que escrevo ou no que irá estar datado daqui a meia dúzia de anos". Pode parecer estranho haver pessoas que escrevam com preservativo de tamanha resistência e qualidade, mas há. Montaigne é um bom exemplo disso. Montaigne que juntou tudo aquilo que escreveu numa obra chamada "Ensaios". Hoje, o conceito está excessivamente vulgarizado mas a sua essência é bem interessante."Essayer", em francês, significa tentar, experimentar, testar. Quem escreve um ensaio está a experimentar ideias mas sem lhes dar qualquer importância dogmática ou valor definitivo. Aliás, tal como a ideia de ensaiar no teatro, que serve para testar, pôr à prova, perceber o que está mal mas sem comprometer e sem levar ainda demasiado a sério, ao contrário do que acontece na noite de estreia, quando já não se pode errar.

Ao contrário das crianças do Another Brick in the Wall que cantam "We dont't need no thought control", o que venho aqui propor é precisamente um "thought" control graças ao poder de um bom e resistente preservativo mental. Eu sei que a ideia de  "thought control" é horripilante, fazendo lembrar fascismo, comunismo ou democracia venezuelana. Não, obrigado, não precisamos disso. Mas não é disso que se trata aqui, tipo um Estado a prender as ideias das pessoas com camisas de força, impedindo-as de pensar livremente. Trata-se antes de ser a própria pessoa que pensa, numa atitude profiláctica, a limitar as possibilidades de contágio ou gravidez, impondo limites ao valor dos seus pensamentos. E hoje cada vez mais pois a esmagadora maioria das pessoas, apressada e com instintos caprinos no que ao pensamento toca, não se dá ao trabalho de ler ou ouvir com preservativo. Lê ou ouve e passado pouco tempo pode estar infectada por ideias perigosas e absurdas que depois contagiam outras num processo sem fim, ainda para mais agora que, graças às redes sociais, vivemos um tempo de desenfreadas orgias de pensamentos que conduzem a um triste processo de "gravidez de massas". E se há território onde merece mesmo um controlo da natalidade é nas ideias. Controlo com control, jamais com controle, que fique bem claro.