15 julho, 2017

O ÚLTIMO METRO

Nelson Garrido

Qualquer pessoa da minha geração cresceu a ouvir as palavras "paneleiro" e "paneleirice" por tudo e por nada, as quais, felizmente, foram deixando de se usar. Ser hoje paneleiro está definitivamente em vias de extinção. Há apenas pessoas que são homossexuais ou gays, vistas e tratadas com naturalidade, sem qualquer estigmatização, sendo também cada vez mais habitual ver casais homossexuais assumir a sua relação no espaço público sem que haja qualquer tipo de reacção. Ainda bem para eles mas também para a própria sociedade por se tornar assim mais saudável, aberta à diversidade, livre, madura.

Como aconteceu tal mudança? Não sei, aconteceu. Pronto, não foi por acaso nem por obra e graça do Espírito Santo, o qual, pelo que dizem os seus porta-vozes, até se tem revelado conservador nestas matérias. Tudo o que acontece tem uma causa e este caso não é excepção. Mas ocorreu naturalmente, sem imposições, decretos-lei, campanhas formais de mentalização, propaganda institucional. Nada disso. Foi a própria sociedade, espontaneamente e levada pela sua própria dinâmica em busca do seu crescimento e maturidade, que aqui chegou.

Mas o que pensar desta decisão do metro de Londres, agora, sim, já com uma "linguagem contemporânea", segundo a fascista comunidade LGTB? Se a absoluta normalização de um/a homossexual é um feliz sintoma de uma sociedade naturalmente saudável, tal decisão já será sintoma de uma sociedade frágil e refém de gente tarada, obcecada, fanática, mentalmente desequilibrada. Que eu saiba, existem apenas dois sexos, sendo, por isso, perfeitamente apropriado o tratamento "Ladies and Gentlemen". Dois homossexuais continuam a ser dois homens, dois "gentlemen", duas lésbicas, continuam a ser duas "ladies". Se eu falar com um  homossexual trato-o por "senhor", se eu falar com uma lésbica, trato-a por "senhora". Não é por um homem sentir-se sexualmente atraído por homens que deixa de ser homem e uma mulher também não deixa de o ser por se sentir atraída por mulheres. Também uma pessoa bissexual não perde a sua identidade sexual, continua a ser um homem ou mulher. Mais, até acaba por ficar em vantagem por tanto poder aceitar a versão "gentlemen" como a versão "ladies", consoante os seus indicadores hormonais ou psicológicos desse dia. Também não vislumbro qualquer discriminação no caso de se tratar de alguém transsexual. Se era homem e passou a ser mulher, deixou de se lhe aplicar a versão "gentlemen" para passar a ser a versão "ladies". Se era mulher e passou a ser homem, aplica-se o contrário. Nenhum deles fica órfão no que toca a uma identidade sexual.

Não faz pois qualquer sentido esta absurda decisão. O seu sentido é ser um sintoma de uma modernidade bacoca, da submissão de uma sociedade que revela níveis de abertura bastante evidentes à agenda fanática e radical de gente que quer compensar séculos de discriminação com uma obsessão doentia pela normalidade, de gente que quer uma sociedade tão saudável e tão perfeitamente igualitária que acaba por poder morrer da própria cura. Eu disse atrás que a relação aberta com a homossexualidade, aliás, tal como em relação a outras minorias, é sintoma de uma sociedade saudável. Mas uma sociedade que arrisca perder referências, valores, tradições seculares, para ficar bem na fotografia de quem quer levar o fascismo do politicamente correcto ao seu ponto mais insano (o mesmo aconteceu de resto, durante anos com a agenda islâmica radical), arrisca-se a ser uma sociedade que, mais cedo ou mais tarde, se enterra num niilismo absurdo, desagregada, perdida, sem saber o que pensar. E onde todos perdem.