07 julho, 2017

SELF-EFFACING


Magritte | L'Heureux Donateur

Ainda hoje sinto um enorme prazer, quase infantil, diria, em aprender palavras novas. Mas há algumas que me deixam contente e triste ao mesmo tempo. Contente porque já irei poder usá-las quando me fizerem falta. Mas também algo triste por aprendê-las tão tarde quando fizeram tanta falta antes, obrigando-me a recorrer a outras menos boas. Não podemos dar pela falta do que não conhecemos mas a partir do momento em que conhecemos descobrimos a falta que fez. Estou a falar, claro, de palavras da nossa língua. Mas também acontece várias vezes ler palavras doutras línguas cuja tradução literal não funciona na nossa, e pensar na falta que me fazem. Uma dessas palavras é "self-effacing". Por exemplo, Isaiah Berlin, refere-se, como elogio, claro, a Turgueniev como um "self-effacing". Que Deus me perdoe, e longe de mim querer entrar no mesmo rol de pessoa tão ilustre. Mas se eu não vou deixar de gostar de vinho tinto, de Cervantes ou de passear a pé lá por Turgueniev gostar, perante o espelho tenho também todo o direito a reclamar a palavra que melhor conheço para me definir.