10 julho, 2017

TAKE A WALK ON THE WHITE SIDE



Ninguém gosta de se sentir ridículo mas há pessoas que têm mais dificuldade do que outras em escapar a essa triste condição. Eu sou uma delas. Durante a minha última caminhada, transformei a estrada que vai desde a rotunda da Atouguia ao Colégio Andrade Corvo na estrada de Damasco. Claro que estrada de Damasco há só uma mas na minha pessoal enciclopédia passou a ser todo o lugar onde se dá uma revelação, que tanto pode ser de fora para dentro como de dentro para fora. No meu caso, desta vez, foi de dentro para fora, consistindo a revelação em perceber a minha ridícula figura pelo facto de ir vestido com uma T-shirt, uns calções e com os pés enfiados num par de sapatilhas. Pela reacção de absoluta indiferença das pessoas por quem passo durante a minha caminhada, percebo que não estou a ser ridículo para elas. Não vejo ninguém a rir ou a fazer um esforço para não se rir. Pessoas que passam por mim aos pares ou em trio, não fazem comentários, ainda que discretos, à minha passagem. Mas cá está, não foram elas mas eu quem se apercebeu do meu próprio ridículo.

Vá para onde for, ando quase sempre a pé, com o tipo de roupa que vestem as pessoas normais para fazerem as suas vidas normais. É assim que vou para a escola, às compras, ao café, ao banco tratar de algum assunto. Qual então o sentido de vestir uma T-shirt e uns calções e calçar umas sapatilhas para fazer precisamente o que faço quando vou para a escola ou ao café? Poder-se-ia dar o caso de andar muito mais depressa ou de correr durante a caminhada, o que justificaria uma roupa mais apropriada. Mas não. Eu tenho uma passada mais ou menos rápida, sendo sempre igual, quer vá para a escola, quer faça uma caminhada. E detesto correr. Há tempos, voltei a experimentar correr só um bocadinho para ver no que dava, e veio-me logo à cabeça a diatribe de Dom Rigoberto contra os desportistas, escrita pela mão de Mario Vargas Llosa, no escatologicamente elegante Os Cadernos de Dom Rigoberto. Pior: senti uma mistura entre o ir a fugir da polícia e ser cavalo na versão They shoot horses, don't they?

Ora, se Kant fazia as suas diárias caminhadas por Königsberg vestido com a sua roupa normal, se Rousseau devaneava, solitário, pelos campos franceses, com a sua roupa normal, se era com a sua roupa normal que Pessoa sonhava com o rio da sua aldeia enquanto caminhava junto ao Tejo, se era com a sua habitual roupa bávara que Heidegger pastoreava o ser pela Floresta Negra, se Baudelaire, Rilke, Walter Benjamin ou Cortázar caminhavam com a sua roupa normal pela cidade, se Woodsworth ou Beatrix Potter sozinhos, ou se John Ruskin na companhia de John Everett Millais caminhavam com roupa normal pelo norte de Inglaterra, se foi com a sua roupa normal que Göethe calcorreou quilómetros por Itália, se era também com a sua roupa normal que Nietzsche subia a montanha e nem consta que Charles Darwin tenha explorado as Galápagos de fato de treino, por que raio hei-de eu vestir uma T-Shirt, uns calções e calçar umas sapatilhas para igualmente caminhar durante uma miserável hora? E não aceito que se diga que Kant só não ia fazer a sua caminhada de calções porque na altura não se usava. E que Göethe não foi para Itália de sapatilhas ou Ruskin não passeou pelo norte de T-Shirt pelas mesmas razões. Já agora, não era também com roupas normais que os lisboetas do século XIX iam passear para o Passeio Público (onde ficam hoje os Restauradores) ou os portuenses para o jardim de S. Lázaro (onde fica hoje o jardim de S. Lázaro)? Alguém iria vestir uns trapos fatelas só para se sentir mais confortável a caminhar?

Por que razão terei eu então que ser ridículo, vestindo roupa ridícula, para fazer a coisa mais natural do mundo desde que deixamos de gatinhar? Porque eu próprio estou já contaminado pelo espírito técnico-instrumental que infecta o nosso tempo. Comer e fazer sexo deixaram de ser simples actos que dão prazer para se tornarem actos clínicos com peso e medida, ser pai implica aconselhamento através de livros e psicólogos, para se ser feliz é suposto ler centenas de livros dos quais pelo menos 50% tem "Mindfullness" no título. Entretanto, caminhar, entrou na mesma onda. Caminhar deixou de ser uma simples vadiagem física e mental da qual resulta um corpo mais apaziguado e uma mente simplesmente mais desopilada, para passar a ser um acto praticado de manhã cedo, ao fim da tarde ou já de noite em ruas transformadas em campos de treino ao ar livre, sendo depois as casas os balneários. Veste-se o fato de treino ou os calções e lá vai a pessoa para o seu exercício, controlando os quilómetros que faz, o tempo que demora em cada caminhada, havendo mesmo pessoas com umas coleiras nos braços para fazer medições sabe Deus de quê.

Tal mentalidade técnico-instrumental chegou também às praias como se pode aqui constatar. Por que razão tem uma pessoa que simplesmente vai à praia ser transformada num banhista em vez de uma pessoa que simplesmente vai à praia? Alguém tem a veleidade de transformar o sr. Palomar num banhista só porque está numa praia? Eu já estive muitas vezes em praias sem tomar banho e nem sequer poderia ter a clássica desculpa de estar com o período, a qual, de resto, já deixou de se dar. Uma das melhores recordações que tenho da praia é andar, já vestido, na praia do Vau sem ninguém, no lusco-fusco, ouvindo apenas o som das ondas na areia e as gaivotas. Mas cá está.Para esta gente uma pessoa vai à praia, não para ler o jornal ou um livro, para estar a brincar com os filhos, para passar pelas brasas ou simplesmente para estar a ver o mar ou pôr os cinco sentidos a absorver o que só a beira-mar proporciona. Ser banhista torna-se assim numa categoria biopolítica do mesmo nível do caminhante, estatutos impostos sobre o nosso corpo e espírito, que nos fazem perder a doce espontaneidade de existir para passar a ser regulada por códigos artificiais. Nutricionistas dizem-nos como comer, sexólogos como fazer sexo "gratificante", institutos, o que fazer na praia, ideólogos do politicamente correcto como falar. Só faltava cá o simples acto de andar a pé, transformado num exercício cardiovascular ou para emagrecer, sobretudo nos períodos que antecedem aqueles em que somos transformados em banhistas.