26 julho, 2017

VÁ LÁ, NÃO CUSTA NADA: CHEEEEESE!!!!!!


Gosto de ver fotografias antigas e tenho visto muitas. Pronto, deu-me para isto, ainda assim menos dramático do que ser heroinómano, adepto do Sporting ou vítima da Maria Vieira. Uma das coisas que salta logo à vista nessas fotografias é o facto de as pessoas não rirem, terem sempre um ar bastante sério. Eis, pois, um mistério para desvendar mas que disfarça um outro ainda maior: por que raio as pessoas, hoje, aparecem sempre a rir nas fotografias, como se a presença de uma câmara fizesse cócegas?

Não ver risos em velhas fotografias pode até levar a supor que dantes as pessoas não riam. Mas basta ler Aristófanes ou Plauto para logo imaginarmos um grego ou um romano a rir. Ainda muito antes disso, Sara desatou a rir quando soube que iria ser mãe aos 90 anos. E só quem nunca leu poesia medieval ou não conhece os goliardos irá acreditar numa Idade das Trevas em que as pessoas se limitavam a trabalhar, andar à tareia, a rezar e a escrever calhamaços sobre o problema da Trindade e outros assuntos tão pouco engraçados como aquele. E Boccaccio? E Gil Vicente? E Rabelais? E Molière? E Cervantes? E Sterne? E Swift? E Bocage? E Anna Pávlovna em cujo rosto, diz Tolstói, paira um sorriso permanente? E Natacha a encher o salão de baile com a sua alegria? E Eça, sim, homem do tempo das tais fotografias em que as pessoas não riem? Não, o riso não pode ser uma invenção do século XX. Pois, mas ler é uma coisa, ver é outra, e nós não estávamos lá para ver rir. Vendo bem, Anna Pávlovna e Natacha nem sequer existiram a não ser na cabeça de Tolstói. Posso até cartesianamente presumir que as pessoas não riam mesmo, havendo, sim, escritores que criavam ficções para compensar um desumorado deserto. Mas não, não pode ser. Basta conhecer um pouco de pintura enquanto registo mais vívido e realista do mundo, para vermos pessoas a rir nas mais diversas situações do quotidiano. Mas então por que razão riem na pintura mas na fotografia ficam com aquele ar fúnebre, ao contrário do que sucede hoje, em que rir é praticamente condição do acto de ser fotografado?

São três perguntas e começo por responder à segunda. As pessoas eram tão alegres e felizes como hoje, nomeadamente as que aparecem sem rir nas fotografias, não sendo estas, portanto, um reflexo de vidas tristes, infelizes ou miseráveis. E riam, claro. Simplesmente não apareciam a rir nas fotografias pela razão mais lógica, chã e óbvia que podemos supor, um verdadeiro ovo de Colombo: não terem motivo para isso. Antes das fotografias serem tiradas, as pessoas estão a conversar, comer, beber, a andar de um lado para o outro, a fazer isto e aquilo, as crianças e jovens jogam, brincam ou bulham. E riem, se for caso disso, pois os seus sistemas nervoso e endócrino são iguais aos nossos, aos de Sara e aos dos gregos e romanos que riam com Aristófanes e Plauto. Passa pela cabeça de alguém imaginar as belas jantaradas dos Vencidos da Vida naquele registo grave e sério com que foram fotografados? Acontece que no momento em que se alinham para a fotografia estão apenas ali à espera da fotografia e estar à espera de uma fotografia não é o mesmo que ver um qualquer Dâmaso Salcede deste mundo a escorregar numa casca de banana enquanto desce o Chiado ou ouvir uma piada sobre um qualquer político ridículo. O fotógrafo diz "-Meus senhores, vamos lá então a uma ou duas fotografiazinhas", e pronto, espera-se pelos disparos. Para nós, habituados a ver toda a gente rir nas fotografias, parecem ter o ar de quem está num velório. Mas é apenas o ar normal de quem não tem motivo para rir, o mesmo ar de uma pessoa de hoje, não quando é fotografada a rir em frente à Torre Eiffel, mas a andar na rua, a olhar pela janela de um comboio, sentada à espera de uma consulta, a ler o jornal ou perante uma prateleira do supermercado a pensar se há-de levar o Fairy ou o Super Pop, ou seja, o seu estado normal quando não tem motivo para rir. Mas então por que razão na pintura já aparecem a rir, ao contrário da fotografia? Porque na pintura acontece uma coisa diferente: o pintor não está a retratar as pessoas em tempo real mas diferido. O pintor observa as pessoas nas diferentes situações do quotidiano, incluindo aquelas onde surgem a rir, usando depois a memória para as reproduzir, o que não acontece na fotografia, em que toda a gente pára de andar, de falar, de comer, de brincar, ou seja, uma suspensão de tudo o que na vida decorre espontaneamente. Não há pois qualquer mistério em não haver risos durante décadas após a invenção da fotografia. O mistério, como disse, está no facto de a dada altura as pessoas aparecerem sempre a rir só porque estão a ser fotografadas.

Podemos abordá-lo de duas maneiras, uma sociológica, outra, fenomenológica, chamemos-lhe assim. Comecemos pela primeira. Lembro-me bem da chatice que era, em miúdo, estar num estúdio com um tipo à minha frente a mandar-me rir para a fotografia que iria para o BI ou para o cartão das piscinas. Porquê essa imposição, essa obrigação de ficar a rir num documento, irradiando felicidade, exactamente o oposto do retrato antigo, incluindo, neste caso, também a pintura? A alegria, a felicidade, o humor, não são uma invenção do século XX. O que já pode sê-lo é a cada vez maior ausência de gravitas nos comportamentos humanos, uma desformalização dos gestos e atitudes, dos papéis e estatutos sociais, estando na origem daquilo a que o nosso vizinho Ortega Y Gasset chamou "época do menino satisfeito". Somos meninos satisfeitos e é como meninos satisfeitos que devemos configurar a nossa identidade, sermos vistos e aceites, traduzindo-se isso em processos de infantilização e regressão dos comportamentos. Basta pegar em livros anteriores à II Guerra Mundial e ir recuando cada vez mais no tempo, para entendermos o que significava ter já 30 ou 40 anos de idade, casar, ser pai ou mãe, estar numa escola, ter certas profissões ou níveis sociais, tudo isso traduzido numa formal e austera teatralidade de banais situações da vida quotidiana. Daí a gravitas de quem era retratado, em pose, para a eternidade, por um pintor ou, por exemplo, pelas fantásticas fotografias de August Sander, numa fase ainda prematura do século XX. Precisamente o que se vai diluindo cada vez mais na era do "menino satisfeito", impondo-se a felicidade, a alegria ou o sentido de humor (daí as milhares de selfies com caretas, línguas de fora ou a fazer boquinhas) com a mesma naturalidade socializadora com que se ensina a comer, a estar à mesa ou a cumprimentar as pessoas, condição que atinge cada vez mais o seu esplendor com a overdose fotográfica em quase tudo o que se faz para poder publicitar nas redes sociais.

Sendo a fotografia um processo que fixa uma imagem perene da pessoa, tal imagem deve surgir como condensação ou unidade sintética que traduz idealmente a nossa verdadeira identidade, tornando-nos magicamente naquilo que somos na fotografia. Quem sou eu? Eu sou aquele que ri  na fotografia. Daí rirmos, seja para o cartão das piscinas, seja em frente a um monumento de Roma, Paris ou Londres, seja numa praia cheia de coqueiros, seja no restaurante, seja rodeado de muitos amigos, pois é esse imago que vai dar origem à nossa verdadeira identidade de pessoa alegre e feliz. O "riso fotográfico" torna-se assim tão socialmente automático como dizer "Bom dia". E isso de tal modo que, se se der a raríssima e anormal situação de alguém não rir numa fotografia em frente à Torre Eiffel ou no meio de um grupo durante um jantar, logo pensamos que estava triste, aborrecido, contrariado, ou que se trata de uma pessoa estranha e diferente das outras por não poder ou querer assumir a sua alegria e felicidade perante uma câmara.

Mas o que se passa exactamente na consciência da pessoa que ri perante uma câmara? Antes disso, rapidamente, perguntemos a três pessoas, em situações normais do quotidiano, por que riem. Uma diz que ri porque lhe veio à cabeça uma cena de um filme cómico que viu há pouco. Outra ri porque lhe telefonaram a dar uma boa notícia. A terceira ri porque viu passar alguém com um corte de cabelo ridículo. Em suma, todas elas têm um bom motivo para rir. Rir é um acto intencional, quer dizer, rir é rir de alguma coisa e estas pessoas sabem por que estão a rir, conhecem o conteúdo sem o qual não estariam a rir. Perguntemos agora o mesmo, isto é, por que ri, a uma pessoa que está a ser fotografada ou a auto-fotografar-se em frente à Fontana di Trevi ou na Brasileira ao lado de Fernando Pessoa; a um grupo de 10 turistas que se juntaram nas escadas da National Gallery ou a um grupo de 8 amigos à volta de uma mesa durante um jantar, para uma fotografia. Dirão que riem por estarem ali, alegres e felizes. Sim, as pessoas podem estar alegres e felizes por estarem num jantar, alegres e felizes por estarem na Fontana di Trevi. Mas no preciso momento da fotografia, tal como na fotografia do século XIX, não há qualquer razão para rir. No entanto, riem-se. Que "alegria fotográfica" é essa, afinal? Será mesmo alegria ou simulação de alegria? Será uma alegria falsa e meramente teatral?

Não. A "alegria fotográfica" é tão genuína e natural como a "austeridade fotográfica" de antigamente. Uma pessoa que ri para a fotografia está mesmo alegre. Alegre por estar com os amigos a jantar em vez de estar sozinha com neura a ver a RTP Memória, alegre por desta vez estar na Fontana di Trevi à hora em que costuma ir despejar o lixo depois de jantar. Porém, minutos antes da câmara, não passou o tempo todo a rir só por estar na Fontana di Trevi ou a rir enquanto discutia o novo Audi ou as aquisições do Benfica com os amigos. Pode-se gostar muito de estar com os amigos a falar do novo Audi ou sobre as aquisições do Benfica mas isso só por si não dá vontade de rir, até bem pelo contrário no caso das aquisições do Benfica, devido à sua importância. Então, afinal, o que é mesmo a "alegria fotográfica? É aquilo a que podemos chamar de alegria vicariante ou alegria induzida. Nas situações normais do dia-a-dia, o riso é a reacção física mais natural e espontânea de um estado de alegria. Rio porque fiquei alegre, porque qualquer coisa me alegrou. Vejo uma pessoa com um penteado ridículo, e isso gera um processo mental que me leva ao riso se por acaso estiver com alguém para partilhar a minha alegria, uma vez que se estiver sozinho terei que ser contido e divertir-me apenas mentalmente, o que significa ser possível estar alegre sem rir. Mas se rio é porque estou alegre. O que acontece com a "alegria fotográfica" é o contrário: fico alegre porque rio. Sabendo-se previamente que devemos rir numa fotografia, a necessidade de rir induz naturalmente um estado de alegria, uma alegria, portanto, induzida ou sintetizada, não quimicamente, como noutros estados, mas cognitivamente e até culturalmente, uma vez que requer um processo de aprendizagem por observação e posterior imitação. E se é possível estar alegre sem rir, neste caso, também é possível rir sem estar alegre, a alegria que sai espontaneamente quando motivada por um conteúdo cómico ou risível, o que pode explicar os risos amarelos e forçados que surgem inúmeras vezes nas fotografias e que fazem tantas vítimas, uma das quais este pobre blogger.

Se eu agora viajasse no tempo e me transformasse no fotógrafo que retratou o grupo que aparece em cima, pedindo-lhes para se rirem, eles não iriam perceber nada. Perguntariam porquê, e não seria nada fácil explicar-lhes. Mas mesmo que viessem a perceber, iriam ter dificuldade em rir, uma vez que interiorizar o processo requer um lento processo de socialização. Tal como nós, aprenderam a conseguir estar alegres sem rir mas, ao contrário de nós, não aprenderam a rir sem estar alegres, por não interiorizarem o verdadeiro e importante sentido que uma fotografia tem cada vez mais para nós. Daí termos uma dificuldade contrária à sua, se fôssemos agora até lá para nos juntarmos àquele grupo no momento da fotografia: não rir. É triste mas é verdade: já não somos capazes de não rir. Facto que só pode mesmo dar vontade de chorar.